Portugal entregue a tarefeiros, da urgência hospitalar à urgência política
O tarefeiro preenche um buraco, não constrói a casa. Tal como no SNS, a proliferação de tarefeiros políticos não surge do nada. É consequência de partidos envelhecidos, processos de decisão opacos, e de uma crescente desconfiança dos cidadãos.
A figura do “médico tarefeiro” tornou-se, nos últimos anos, um símbolo das fragilidades acumuladas do SNS. São profissionais contratados, por turnos avulso, frequentemente pagos a valores muito superiores aos dos colegas dos quadros, mas sem continuidade, sem equipas estáveis e sem compromisso estruturado com a instituição. A presença destes clínicos não resulta de uma opção estratégica, é um mecanismo de sobrevivência de um sistema que perdeu capacidade de reter, motivar e valorizar os seus próprios profissionais.
A discussão pública tende a reduzir o problema a uma questão salarial, mas o fenómeno é bem mais complexo. O trabalho médico exige equipa, continuidade assistencial, coordenação e responsabilidade partilhada. Uma urgência estabiliza-se ou entra em colapso, não por causa de um especialista que aparece uma ou duas noites por semana, mas pela existência de equipas completas, capazes de conhecer padrões locais de doença, processos internos e até a realidade social dos utentes. O tarefeiro preenche um buraco, não constrói a casa.
A analogia com a política presta-se naturalmente ao debate. Também aí cresceu um tipo de atuação que poderíamos chamar de “político tarefeiro”, são figuras que surgem apenas em momentos críticos, com soluções rápidas, frases feitas e diagnósticos certeiros, mas sem visão de longo prazo nem compromisso com a execução. A política moderna é fértil em protagonistas de presença fugaz, motivados por ciclos mediáticos e não por projetos estruturantes. Entram, produzem ruído, cumprem a “tarefa” de influenciar a agenda, e saem sem deixar rasto ou deixando apenas mais fragmentação.
Tal como no SNS, a proliferação de tarefeiros políticos não surge do nada. É consequência de partidos envelhecidos, processos de decisão opacos, e de uma crescente desconfiança dos cidadãos. Onde falta estabilidade, planeamento e cultura de serviço público, surgem inevitavelmente atores que oferecem apenas aquilo que o sistema ainda permite, intervenções curtas, personalizadas, pouco integradas. O oposto daquilo que a política verdadeiramente exige, ou seja, continuidade, capacidade de negociação, visão estratégica e compromisso com o impacto das decisões ao longo do tempo.
Entre médicos e políticos, a comparação não pretende nivelar responsabilidades. O clínico tarefeiro responde a necessidades imediatas e, muitas vezes, assume riscos em contextos profissionais adversos. O político tarefeiro, pelo contrário, surge muitas vezes por escolha própria, impulsionado pela visibilidade momentânea ou pelo cálculo oportunista. Mas ambos são sintomas de sistemas que deixaram de oferecer condições para um trabalho com propósito.
O País precisa de médicos que queiram ficar e de políticos que queiram construir. Precisamos de equipas, não de presenças episódicas, precisamos de projetos, não de tarefas, precisamos de responsabilidade continuada, não de intervenções avulsas. Continuar a depender de soluções temporárias, improvisadas e individualizadas é simplesmente insustentável.
O debate sobre os médicos tarefeiros não deve ser reduzido a números de horas ou valores pagos por turno, mas sim transformado numa discussão séria sobre como reconstruir o SNS com carreiras claras, autonomia técnica, equipas estáveis, gestão competente e condições de trabalho dignas. O debate sobre os políticos tarefeiros deve ser igualmente profundo, como reforçar instituições, renovar práticas democráticas, atrair talento e recriar a ideia de serviço público como vocação e não como oportunidade.
Afinal, a questão é simples, nenhum país pode funcionar se os seus problemas estruturais forem tratados como tarefas avulsas. Portugal merece mais do que soluções pontuais, merece um projeto.
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