O pânico que mata as profissões antes da Inteligência Artificial
Quem anuncia o fim de uma profissão está, em parte, a provocá-lo. Isto não significa calar os riscos da IA. Significa tratá-los com o rigor que merecem, distinguindo entre tarefas que serão automatizadas e profissões que serão transformadas. A diferença é abissal.
Há uma ironia cruel no debate sobre a inteligência artificial e o emprego: as profissões podem morrer muito antes de as máquinas estarem prontas para as substituir. Morrem primeiro na cabeça das pessoas, e essa morte anunciada tem consequências bem reais.
Foi essa a tese defendida esta semana por Sarah O'Connor, colunista do Financial Times, num artigo cujo título é, em si mesmo, um aviso: se acha que a sua profissão está a morrer, ela pode em breve desaparecer. O argumento é simples e, precisamente por isso, perturbador. Quando se instala a convicção de que um ofício não tem futuro, os jovens deixam de entrar nele. A base de recrutamento seca, a idade média dos profissionais dispara, as escolas de formação fecham, o conhecimento deixa de ser transmitido. E, um dia, a profissão desaparece. Não porque um robô a tenha ocupado, mas porque ninguém quis ser o último a apagar a luz. A profecia cumpre-se sozinha.
O exemplo que O'Connor explora é o dos camionistas. Há mais de uma década que nos garantem que os camiões autónomos estão ao virar da esquina e que conduzir pesados é um emprego condenado. Resultado? Os jovens fugiram do setor. E hoje, em vez do prometido exército de condutores desempregados, o que temos é uma escassez crónica de motoristas em quase todo o mundo ocidental, com cadeias de abastecimento sob pressão e salários a subir para atrair quem já ninguém formou. A tecnologia atrasou-se; o medo, não.
Não é um fenómeno novo. Os cocheiros do início do século XX também viram o futuro chegar e perceberam que as carruagens tinham os dias contados, e nesse caso tinham razão. O problema é que hoje tratamos todas as previsões de obsolescência como igualmente certas, quando a história da automação está cheia de funerais prematuros. Anunciou-se a morte dos tradutores, dos radiologistas, dos contabilistas, dos jornalistas. Alguns destes ofícios transformaram-se profundamente; nenhum desapareceu no calendário que os profetas garantiam.
Portugal devia prestar particular atenção a este mecanismo. Somos um país onde as escolhas de carreira dos jovens são fortemente moldadas pela perceção de futuro, e onde essa perceção é, muitas vezes, fabricada por manchetes alarmistas e não por dados. Se um estudante de dezassete anos acredita que a programação, o direito ou o design vão ser engolidos pela IA, escolherá outro caminho, independentemente de essa crença estar certa. Multiplique-se essa decisão por milhares e temos setores inteiros a definhar por antecipação, enquanto o país discute abstratamente o "futuro do trabalho".
Há aqui uma lição dupla. A primeira é para quem faz previsões: elas não são inocentes. Cada relatório que decreta a extinção de metade dos empregos, cada capa de revista com robôs de fato e gravata, altera comportamentos hoje. Quem anuncia o fim de uma profissão está, em parte, a provocá-lo. Isto não significa calar os riscos da IA. Significa tratá-los com o rigor que merecem, distinguindo entre tarefas que serão automatizadas e profissões que serão transformadas. A diferença é abissal.
A segunda lição é para os jovens e para quem os aconselha. A pergunta certa não é "que profissões vão morrer?", mas "que profissões vão mudar, e como me preparo para essa mudança?". O camionista de 2036 talvez supervisione frotas semiautónomas; o tradutor já hoje edita e afina o que a máquina propõe; o jornalista que sobreviver será o que faz aquilo que nenhum modelo de linguagem consegue fazer: estar lá, perguntar, duvidar. Fugir de um setor por pânico pode ser precisamente a decisão que o condena, e que nos condena a todos à escassez.
O'Connor lança o seu aviso na véspera de publicar um livro sobre a luta pelo futuro do trabalho, e o timing não é acaso: vivemos o momento de maior ansiedade laboral em décadas, com inquéritos a mostrar jovens a abandonar cursos superiores por medo da IA. Alguma dessa ansiedade é racional. Mas convém lembrar que os mercados de trabalho, como os bancos, também sofrem corridas: basta que todos acreditem no colapso para que ele aconteça. O futuro do trabalho não está escrito. Escrevemo-lo nós, inclusive quando desistimos dele cedo demais.
O pânico que mata as profissões antes da Inteligência Artificial
Quem anuncia o fim de uma profissão está, em parte, a provocá-lo. Isto não significa calar os riscos da IA. Significa tratá-los com o rigor que merecem, distinguindo entre tarefas que serão automatizadas e profissões que serão transformadas. A diferença é abissal.
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