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Álvaro Rocha Professor Catedrático da Universidade Lusófona
27.08.2026

A universidade encheu-se, mas o elevador continua no rés-do-chão

A seleção não aconteceu no domingo. Aconteceu no 10.º ano, na escolha da via profissionalizante, na família que não paga explicações, no quarto arrendado em Lisboa ou no Porto que pode custar mais do que um salário mínimo. Quando os resultados saem, o filtro já funcionou há muito.

Na madrugada de domingo, mais de 60 mil famílias portuguesas fizeram o mesmo gesto: abriram o site da DGES à procura de um nome. Foram 49.991 os colocados na 1.ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior público, mais 13,9% do que em 2025 e o melhor número da última década, tirando o irrepetível 2020. O Governo apressou-se a celebrar. Vale a pena, antes disso, ler o número com calma.

O salto tem menos de milagre e mais de papelada. Em 2025, as instituições passaram a ser obrigadas a exigir pelo menos duas provas de ingresso, por decisão do Governo de António Costa. O resultado foi uma quebra histórica de 12,1% nos colocados. O Executivo de Luís Montenegro reverteu a regra no início deste ano e, na maioria dos casos, voltou a bastar o exame de uma única disciplina do 12.º ano. Somem-se a rebatização dos politécnicos como "universidades politécnicas" e o efeito é imediato: 60.513 candidatos, mais 21,8%, o valor mais alto em três décadas descontando a pandemia.

Não fabricámos mais jovens preparados. Baixámos a fasquia à entrada do corredor. Pode até ter sido acertado, já que a exigência das duas provas era arbitrária e afastou sobretudo quem já hesitava. Mas convém não confundir uma decisão regulamentar com uma conquista social. O que aconteceu foi administrativo, não geracional.

O topo da tabela, esse, conta outra história. A nota do último colocado em Engenharia Aeroespacial na FEUP foi de 19,50 valores; no Minho, 18,98. Só depois aparece Medicina no Porto, com 18,67, seguida de perto por Engenharia e Gestão Industrial, também na FEUP, com 18,65. Medicina, que durante décadas foi o cume incontestado do sistema, é agora o terceiro classificado. Três dos cinco cursos mais exigentes do país são Aeroespacial.

Os melhores alunos leem sinais melhor do que qualquer ministério. E o sinal que estão a ler é o do salário, o da tecnologia, o do mercado internacional. Há uma ironia difícil de ignorar: o curso com a média mais alta de Portugal prepara quadros para uma indústria aeroespacial que, no essencial, não existe cá dentro. Formamos excelência para exportação e depois queixamo-nos da emigração qualificada como se fosse um acidente meteorológico.

Fica, por fim, o número que devia envergonhar-nos. Dos quase 50 mil colocados, apenas 1.625 são beneficiários do escalão A da ação social escolar, isto é, os filhos dos agregados com menores rendimentos. Cerca de 3%. E 1.252 desses entraram pelo contingente prioritário criado em 2023, que reserva 2% das vagas. Ou seja: sem a discriminação positiva, o retrato seria ainda mais pobre. Houve manchetes a decretar a morte do elevador social. É excessivo, mas percebe-se a impaciência.

Sejamos rigorosos: 3% dos colocados não significa que só 3% dos jovens carenciados chegue à universidade. E Portugal democratizou mesmo o ensino superior. A percentagem de portugueses entre os 25 e os 34 anos com formação superior passou de 32% em 2014 para 43% em 2024. O elevador não morreu.

Mas é precisamente esse o busílis. A seleção não aconteceu no domingo. Aconteceu no 10.º ano, na escolha da via profissionalizante, na família que não paga explicações, no quarto arrendado em Lisboa ou no Porto que pode custar mais do que um salário mínimo. Quando os resultados saem, o filtro já funcionou há muito.

O elevador não morreu. Simplesmente para nos pisos de baixo e nunca chega à cobertura, aos cursos de 19 valores. Alargar a porta de entrada preenche vagas. Não redistribui oportunidades. O verdadeiro teste não é agosto: é saber quantos destes 49.991 ainda cá estarão daqui a três anos.

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