A licenciatura que já não garante o futuro
Durante anos, as universidades venderam a ideia de que a formação em informática era quase uma apólice contra o desemprego e muitas famílias acreditaram nisso. Mas quando uma área cresce demasiado depressa, aquilo que antes distinguia passa a ser comum.
Durante anos, estudar informática parecia uma das decisões mais racionais que um jovem podia tomar. Enquanto outras áreas eram vistas como incertas, frágeis ou excessivamente dependentes dos ciclos económicos, a informática oferecia uma promessa quase imbatível: bons salários, empregabilidade elevada, mobilidade internacional e acesso ao admirado mundo das grandes empresas tecnológicas.
A mensagem era simples: aprende a programar e o futuro será teu.
Essa promessa ainda não desapareceu. Mas já não pode ser aceite com a mesma inocência. A pergunta colocada esta semana pela The Economist, “Do you really want that computer-science degree?”, é incómoda precisamente porque atinge uma das grandes certezas educativas das últimas duas décadas. Será que uma licenciatura em informática continua a ser o passaporte seguro para uma carreira de sucesso? Ou estará também ela a entrar na lista dos diplomas que prometem mais do que conseguem entregar?
O problema não está na irrelevância da tecnologia. Pelo contrário. Nunca a tecnologia foi tão importante. A inteligência artificial, a cibersegurança, os dados, a computação em nuvem, a robótica e os sistemas digitais atravessam hoje todos os setores da economia. O problema é outro: a massificação dos cursos de informática está a acontecer ao mesmo tempo que a própria inteligência artificial começa a transformar o trabalho dos informáticos.
Durante anos, as universidades responderam à procura do mercado aumentando vagas, criando cursos, lançando programas online e vendendo a ideia de que a formação em informática era quase uma apólice contra o desemprego. Muitas famílias acreditaram nisso. Muitos estudantes também. E muitas instituições de ensino superior perceberam que havia ali uma oportunidade comercial evidente.
Mas quando uma área cresce demasiado depressa, há sempre o risco de inflação. Não inflação de preços, mas inflação de diplomas. Aquilo que antes distinguia passa a ser comum. Aquilo que antes abria portas passa a exigir filtros adicionais. O simples facto de ter uma licenciatura em informática já não chega para garantir diferenciação num mercado onde há cada vez mais candidatos com credenciais semelhantes.
A isto junta-se a maior perturbação de todas: a inteligência artificial generativa. Ferramentas como o ChatGPT, o GitHub Copilot e outros assistentes de programação já escrevem código, corrigem erros, explicam algoritmos, geram documentação e automatizam tarefas que antes eram feitas por programadores júnior. Isto não significa que os informáticos vão desaparecer. Significa, sim, que o tipo de informático valorizado pelo mercado está a mudar.
Durante muito tempo, a entrada na profissão fazia-se por tarefas relativamente básicas: corrigir código, implementar funcionalidades simples, testar aplicações, escrever scripts, resolver pequenos problemas técnicos. Ora, é precisamente essa camada inicial que a IA está a comprimir. Se uma empresa consegue fazer mais com menos programadores juniores, a porta de entrada na carreira torna-se mais estreita. E isso muda profundamente o valor económico de um diploma.
Há aqui um paradoxo quase cruel. Muitos estudantes estão a usar inteligência artificial para obter um diploma numa área que a própria inteligência artificial está a transformar. A IA ajuda a estudar, a programar e a entregar trabalhos. Mas também torna mais difícil saber o que o estudante realmente aprendeu. Num curso online, pouco supervisionado ou academicamente frágil, a fronteira entre apoio legítimo e substituição do esforço intelectual pode tornar-se perigosamente ténue.
Isto coloca uma questão essencial às universidades: estão a formar profissionais ou apenas a certificar presenças digitais? Um diploma em informática só terá valor se corresponder a competências reais. Saber copiar código gerado por uma máquina não é o mesmo que compreender sistemas. Saber pedir uma resposta a um modelo de IA não é o mesmo que formular bem um problema, avaliar uma solução, antecipar riscos, garantir segurança ou construir tecnologia robusta.
O mercado perceberá rapidamente essa diferença. Aliás, já começou a percebê-la. A distinção futura não será entre quem tem ou não tem um diploma em informática. Será entre quem sabe verdadeiramente pensar computacionalmente e quem apenas aprendeu a operar ferramentas. Entre quem domina fundamentos e quem colecionou tutoriais. Entre quem resolve problemas complexos e quem executa instruções. Entre quem usa a IA como extensão da inteligência e quem depende dela como muleta.
Para Portugal, esta discussão é particularmente importante. Também entre nós se instalou a ideia de que as áreas tecnológicas são automaticamente superiores, mais úteis e mais empregáveis. Em muitos casos são-no. Mas seria um erro transformar essa verdade relativa numa fé cega. Nem todos os cursos têm a mesma qualidade. Nem todas as instituições oferecem o mesmo rigor. Nem todos os diplomados saem preparados para um mercado que está a mudar a grande velocidade.
Precisamos de formar mais pessoas em tecnologia, sim. Mas sobretudo precisamos de as formar melhor. A resposta não pode ser apenas abrir vagas, multiplicar cursos ou decorar programas curriculares com palavras como inteligência artificial, dados, cibersegurança ou inovação. A resposta deve estar no rigor, na prática, na ligação às empresas, na exigência científica, na ética, na segurança e na capacidade de adaptação.
A informática do futuro não será apenas escrever código. Será compreender organizações, proteger sistemas, lidar com dados sensíveis, desenhar soluções confiáveis, integrar IA em processos reais, avaliar riscos e tomar decisões responsáveis.
Isso exige uma formação mais ampla, não mais superficial. Exige matemática, lógica, engenharia, gestão, ética, comunicação e pensamento crítico.
O estudante que hoje escolhe ciências da computação deve fazer perguntas mais difíceis do que fazia há dez anos. Que instituição me vai formar? Que professores vou ter? Que projetos reais vou desenvolver? Que contacto terei com empresas? Que fundamentos vou dominar? Que capacidade terei para trabalhar com IA, e não apenas para ser substituído por ela?
A licenciatura em informática continua a poder ser uma excelente escolha. Mas deixou de ser uma garantia automática. O futuro já não pertence a quem apenas sabe programar. Pertence a quem sabe pensar, criar, adaptar-se e usar a tecnologia com inteligência.
Num mundo em que até o código começa a ser escrito por máquinas, a verdadeira vantagem humana estará menos em repetir instruções e mais em compreender o que vale a pena construir.
O fim da promessa do diploma universitário
O mundo mudou mais depressa do que muitas instituições de ensino superior quiseram admitir.
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A inovação científica está a envelhecer
O problema é que a ciência contemporânea diz valorizar a novidade, mas muitas vezes castiga quem a pratica. Projetos arriscados têm menos probabilidade de financiamento. Ideias fora da corrente dominante encontram mais resistência nos painéis de avaliação.
Universidades brincam aos concursos de professores
Muitos académicos passam anos a publicar, ensinar, orientar estudantes, participar em projetos e construir percursos científicos respeitáveis. Depois candidatam-se a concursos públicos e descobrem que o seu trabalho pode ser descartado não pelo mérito, mas por uma vírgula administrativa. É difícil imaginar maior desprezo pelo esforço académico.
O negócio global dos diplomas em gestão
O ensino superior não pode ser apenas um negócio global de exportação de diplomas. Se o for, corre o risco de perder a sua missão fundamental: formar cidadãos qualificados, críticos e capazes de contribuir para o desenvolvimento sustentável das sociedades.