A armadilha da universidade para todos
Baixar padrões para aumentar taxas de aprovação pode parecer inclusivo, mas é frequentemente uma forma disfarçada de abandono.
A expansão do ensino superior foi apresentada, ao longo das últimas décadas, como uma das grandes conquistas das sociedades modernas. Mais universidades, mais vagas, mais estudantes, mais diplomados. A promessa parecia evidente: quanto maior fosse o acesso à universidade, maior seria a mobilidade social. Para os jovens de famílias mais pobres, em particular, o diploma universitário surgia como uma espécie de passaporte para uma vida melhor.
O problema é que esta promessa começa a mostrar sinais preocupantes de desgaste. A ideia de “universidade para todos” só é verdadeiramente justa quando garante condições reais de sucesso. Quando se limita a abrir portas sem assegurar preparação adequada, exigência académica e cursos com valor no mercado de trabalho, pode transformar-se numa armadilha. E, como tantas vezes acontece, são os mais pobres que pagam o preço mais elevado.
A universidade continua a ser um poderoso instrumento de mobilidade social. Mas não é mágica. Um estudante que chega ao ensino superior com grandes fragilidades em leitura, escrita, matemática ou pensamento crítico dificilmente beneficiará plenamente da experiência universitária se a instituição apenas fingir que essas lacunas não existem. Baixar padrões para aumentar taxas de aprovação pode parecer inclusivo, mas é frequentemente uma forma disfarçada de abandono. O estudante passa, acumula créditos, talvez obtenha um diploma, mas sai sem as competências que esse diploma deveria representar.
Os jovens de famílias favorecidas têm, em regra, mais formas de compensar dificuldades. Podem recorrer a explicações, apoio familiar, redes de contactos, estágios não remunerados, anos de pausa ou mudanças de curso. Têm capital cultural e financeiro para corrigir percursos. Os estudantes pobres, pelo contrário, arriscam muito mais. Se entram mal preparados, se escolhem cursos de baixo retorno ou se abandonam a meio, ficam muitas vezes com frustração, tempo perdido, dívida ou expectativas destruídas.
É por isso que confundir democratização com massificação é um erro grave. Democratizar o ensino superior não significa colocar todos na universidade a qualquer preço. Significa garantir que cada estudante tem acesso a uma formação séria, exigente e adequada às suas capacidades e ambições. Para alguns, esse caminho será uma licenciatura. Para outros, poderá ser uma formação técnica superior, um percurso profissional especializado ou uma combinação entre estudo e trabalho.
Portugal deve levar esta discussão muito a sério. Durante demasiado tempo, tratámos o número de diplomados como se fosse, por si só, um indicador suficiente de progresso. Mas o essencial não é apenas quantos entram na universidade. É quantos concluem com qualidade, quantos encontram emprego compatível, quantos melhoram efetivamente a sua vida e quantos adquirem competências que o país realmente valoriza.
A resposta não passa por fechar a universidade aos mais pobres. Pelo contrário, passa por lhes dar mais apoio, mais orientação e mais verdade. Diagnósticos rigorosos à entrada, programas de recuperação de competências, transparência sobre empregabilidade, combate ao facilitismo e valorização do ensino técnico são medidas de justiça social, não de elitismo.
Uma sociedade justa não promete diplomas vazios. Promete oportunidades reais. E uma oportunidade real exige acesso, sim, mas também exigência, acompanhamento e qualidade. Caso contrário, a universidade para todos arrisca-se a ser apenas mais uma promessa bonita que falha precisamente naqueles que mais precisava de ajudar.
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Baixar padrões para aumentar taxas de aprovação pode parecer inclusivo, mas é frequentemente uma forma disfarçada de abandono.
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