Portugal: Aliados procuram-se
O futuro da segurança da Europa foi discutido esta terça-feira, 27 de janeiro, na Fundação Calouste Gulbenkian.
Depois do fulgurante discurso do primeiro-ministro Canadiano, Mark Carney, era de supor que houvesse um comentário espontâneo àquilo que ele designou de “ficção útil”, vivência “dentro da mentira” e ao repto que lançou para que paremos de invocar a “ordem internacional baseada em regras como se ainda funcionasse conforme anunciado”. Mas, foi preciso mesmo forçar o assunto, que não brotou espontaneamente, talvez porque não se enquadrava bem naquilo que ali havia para dizer.
Depois de recorrer ao poema “O Dos Castelos”, de Fernando Pessoa, para nos dar a sua visão sobre o posicionamento de Portugal na Europa, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, embarcou numa tarefa desafiante: Explicar o posicionamento do Governo face aos mais conturbados dos últimos acontecimentos na cena internacional, sobretudo face ao que designou como “nova administração americana”.
Mas antes disso, passou pela questão ucraniana, afirmando que “o apoio à Ucrânia é absolutamente essencial, porque este regime russo não irá parar”. Salientou que o uso da expressão “regime russo” é deliberado. Vem do gosto do Sr. Ministro em ser “muito preciso”. Muito preciso em estabelecer, neste caso, uma separação clara entre o país que é a Rússia e o seu regime que é o de Putin.
Ora, eu gostava de lançar um desafio.
Vamos trocar as palavras “Ucrânia” por “Palestina” e “regime russo” por “regime israelita”.
Vamos trocar as palavras “Ucrânia” por “Gronelândia” e “regime russo” por “nova administração americana” (a tal expressão também usada por Rangel).
Vamos replicar este exercício a tantos outros casos no mundo. Continuará a defender com a mesma convicção os mesmos valores? Continuará a fazer com precisão o mesmo tipo de distinções entre países (ou povos, ou nações) e seus regimes? Será sempre solidário onde houver injustiça, violação do direito internacional e contorção ou mesmo aniquilamento dos valores que conformam a cartilha ocidental?
Claro que não.
O Ministro continuou a sua intervenção, passando a justificar a defesa do “laço transatlântico”, que considera imprescindível face à nossa geopolítica.
Portugal tem 500 anos de boas relações com a China, mas parece incapaz de perspetivá-la como um possível parceiro. Face à história partilhada com o gigante asiático, estamos em condições especiais para com ele aprofundar relações. Isto é algo que nos distingue de muitos países da Europa e do mundo.
A Revolução cultural de Mao Tse-tung arrasou o país com o seu regime opressivo, mas parou às portas de Macau e Hong Kong. Isto foi assim porque, por muito revolucionário que fosse, Mao não perdeu a visão estratégia e a noção do que era do interesse para o seu país. E entendeu – a bem da China, de Portugal e do mundo de então – que Macau e Hong Kong deviam permanecer como janelas para o Ocidente.
Não operou o corte. Por isso, iniciou uma trajetória que faz deste Estado-civilização (expressão popularizada por Martin Jacques) com 5000 anos de existência uma potência económica emergente, um país que está muitíssimo além do seu regime político atual. Admitamo-lo: O único verdadeiro inimigo dos Estados Unidos da América, pois retirar-lhe-á a coroa de potência mundial, muito em breve.
Mas poucos parecem ver com bons olhos o aprofundamento dos laços com a China, país relativamente ao qual os ocidentais parece só serem capazes de nutrir um profundo sentimento de desconfiança.
A U.E. acabou de assinar dois acordos importantíssimos: O Acordo de Parceria U.E-MERCOSUL e o Acordo de livre comércio entre Índia e U.E. Mas apenas depois de 18 anos de negociações neste último caso. 25 anos de negociações, no primeiro. Não foram duas décadas de “negociação”. Foram duas décadas de empate, para, agora, assinar tudo de supetão, percebendo, enfim, que o nosso grande aliado nos virou as costas e nunca mais as coisas serão como dantes.
Tais acordos são, no entender de Rangel, importantes para forçar os Estados Unidos (que nos humilham) e a China (com quem não quer grandes confianças) a “virem para o consenso do livre comércio…”
O mesmo Ministro caracterizou, há escassos dias, como “benignas” as intenções dos Estados Unidos na Venezuela (de onde raptaram o seu Presidente e mulher para os julgarem num tribunal nova iorquino).
Relativamente ao caso da Gronelândia, afirma ser “a favor do diálogo com os Estados Unidos”.
Acerca do Board of Peace, Portugal é dos países que ainda não afirmou uma posição. Mas Rangel adianta que admite como possível a integração nesse fórum se ele se limitar à resolução do conflito israelo-palestiniano. Ainda que nele se perspetive que Donald Trump tenha assento vitalício e com um leque de poderes que fazem o supremo líder de uma qualquer ditadura corar de inveja.
Parece-me que isto é viver na mentira, contra a qual advertiu Mark Carney. Ou, se preferirem, é viver na ilusão… E isso explicará o euroceticismo que cresce de dia para dia.
Para uns, se os europeus quiserem ser autossuficientes em termos de segurança, cada Estado-membro terá que gastar, não 5% mas 10 a 15% do PIB, arrasando o Estado Social e todo o confortável leque de diretos e garantias usufruídos no presente.
Para outros, é tempo de arrepiar caminho com esse desiderato, esquecendo que um dia os Estados Unidos foram bons aliados.
Mais uma vez, parece que não perspetivamos a diversificação de alianças como estratégia para a manutenção da paz e estabilidade europeias.
Não se trata de guerrear contra a administração americana. Trata-se de não lhes dar continuamente pasto. Não comprar as suas armas, nem comer os seus hamburgers, mas, como disse Carney, multiplicar opções (“increase options in order to rebuild sovereignty”). Quanto mais tarde acordarmos para a realidade, pior será.
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