A insustentável bolha das tintas para paredes
Desta vez, fiz algo diferente. Dediquei-me a procurar tintas para pintar paredes. A vida acontece.
Esta semana, por pouco não tive ideia de tema para escrever. Tenho por hábito percorrer plataformas digitais, cruzar o que publicam utilizadores comuns, órgãos de comunicação social e organizações de referência no setor. Desta vez, fiz algo diferente. Dediquei-me a procurar tintas para pintar paredes. A vida acontece.
O resultado foi previsível e revelador. O mural passou a estar inundado de sugestões: cores tendência, combinações surpreendentes, truques para obter acabamentos perfeitos, tutoriais sobre como retirar fitas adesivas sem estragar a parede, a tinta ou a alçada da porta. Um universo completo, coerente, útil. E completamente fechado.
É esta a natureza da comunicação contemporânea: afunilar. No contexto digital, se não formos específicos, não chegamos a ninguém. A questão é outra: é este o caminho que queremos para a nossa sociedade? Queremos limitar o pensamento, reduzir o campo de visão, focar de tal forma num tema que tudo o resto desaparece? Já todos sabemos como funciona. Basta pesquisar uma viagem a Londres para que tudo, absolutamente tudo, passe a apontar nessa direção.
O mesmo acontece com a inteligência artificial. Esta semana dediquei-me também a fazer experiências com várias ferramentas, além das mais conhecidas como o Claude ou o ChatGPT. Existe uma variedade crescente de aplicações capazes de produzir conteúdo com uma rapidez e uma versatilidade que atropelam várias profissões.
Diz-se que o lado humano e a criatividade humana prevalecem. Não é mentira, mas também não é exatamente assim. A inteligência artificial tornou-se suficientemente avançada para ser bastante criativa, embora esteja, por definição, a reproduzir padrões existentes e a usar paradigmas que se repetem à exaustão, entregando-nos mais do mesmo, embrulhado de forma diferente. A questão é que, por economia de tempo e de recursos, mais do mesmo é, muitas vezes, suficiente.
Voltemos às tintas. Ao pesquisar cores para as paredes de casa, passamos a habitar um contexto em que arquitetos, designers de interiores, marcas e utilizadores comuns nos mostram o que fazer e como fazer, fechando o nosso universo numa bolha pequena, coerente e confortável. Bonita, também. A inteligência artificial faz o mesmo, à escala do pensamento. Estamos tão habituados ao padrão que já não o estranhamos.
Pelo contrário, estranhamos o que foge ao padrão. E, ao estranharmos o diferente, estamos a exercer uma autolimitação silenciosa que não nos leva a lado nenhum, que vai ficando, e que nos pode prejudicar mais do que imaginamos.
Acabei por escolher a cor. Uma sugestão do algoritmo? Nunca saberemos. A parede ficou bonita. E eu continuo, obstinadamente, a não saber o que teria escolhido se tivesse procurado sozinha. É esta a insustentabilidade da comunicação moderna.
A insustentável bolha das tintas para paredes
Desta vez, fiz algo diferente. Dediquei-me a procurar tintas para pintar paredes. A vida acontece.
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