Os áudios que explicam o que poderá ter originado o trágico acidente em Toledo
Centro de controlo em Atocha mandou o maquinista do comboio AVE, que vinha atrás, retomar a "marcha normal" ao invés da "marcha à vista", como estabelecido no protocolo. Além disso, não avisou que o comboio da frente se encontrava parado com problemas técnicos.
O jornal El País teve acesso a três áudios-chave que poderão ajudar a explicar o que esteve na origem da trágica colisão de quarta-feira entre dois comboios, que provocou pelo menos 68 mortos em Espanha. Em causa estão comunicações entre o maquinista do comboio Iryo, que estava parado, e o controlador no centro de operações em Atocha, assim como uma conversa entre o controlador e o maquinista do comboio AVE da Renfe, que vinha atrás.
A conversa entre o centro de controlo em Atocha e o comboio AVE, que estava 25 quilómetros atrás de Iryo, aconteceu pelas 08h36 e durou mais de cinco minutos. Segundo o El País, trata-se de uma conversa confusa na qual o controlador demonstrou algumas dúvidas, mas que terminou com uma ordem que viola o protocolo.
O controlador pediu que o comboio retomasse a "marcha normal" e não a "marcha à vista", como determinava o protocolo que limita a velocidade máxima a 40 quilómetros por hora. Ao que parece, mandou retomar a marcha sem sequer verificar se o comboio da frente se havia afastado o suficiente - mais de 30 quilómetros - para evitar uma colisão.
O maquinista do Iryo também recebeu a mesma ordem para retomar "marcha normal", mas sete minutos depois informou que continuavam parados sem conseguir colocar o comboio em movimento. Apesar disso, ninguém avisou o comboio AVE.
A conversa entre o maquinista da AVE e o centro de controlo em Atocha
Controlador: CRC Atocha para o maquinista do comboio 2080
Maquinista AVE: Sim
Controlador: Às 08h36.
Maquinista AVE: Sim
Controlador: Desconecte e reconecte o LZB. Retome a marcha. E, em seguida, retome a marcha sob a proteção do BSL, com marcha normal.
Maquinista AVE: Com marcha normal?
Controlador: Sim.
Segundo o Governo, este foi o primeiro grande erro: ordenar que o AVE retomasse a marcha sem verificar se o Iryo se havia afastado. Além disso, se o comboio tivesse arrancado a uma velocidade normal, o acidente poderia ter sido evitado.
A conversa entre o maquinista do Iryo e o centro de controlo em Atocha
A primeira conversa ocorreu às 08h41, quando o maquinista informou o controlador de que estavam parados na linha após uma falha nas comunicações.
Maquinista da Iryo - Bom dia, Atocha. Tive uma falha de comunicação enquanto circulava na BSL [Bloqueio da Sinalização Lateral]. O veículo seguinte deve passar pela 113 a mais de 200. Mas não recebi a comunicação. Estou parado à entrada de Urda.
Controlador - Atocha para maquinista, estamos com o comboio 6076, correto?
Maquinista Iryo - Sim, correto.
Controlador - Um momento. Isto diz: maquinista do comboio 6076. Desligue e volte a ligar ao sistema LZB (o principal sistema de controlo de velocidade). Retome a circulação, ao abrigo do BSL, a velocidade normal.
Maquinista Iryo - A velocidade normal. Boa, perfeito!
Uma segunda conversa entre o maquinista do Iryo e o centro de controlo em Atocha
Maquinista Iryo - O comboio não me está a permitir reiniciar o sistema LZB. E é por isso que ainda estou parado em frente ao semáforo de entrada.
Controlador - Está bem. Se tiver algum problema, ligue-nos agora.
Maquinista Iryo - Está bem, perfeito. Vou dizer-lhes.
Cinco minutos depois os dois comboios colidem, provocando pelo menos 68 mortos. Juntos transportavam mais de 500 passageiros e um deles transportava um bebé.