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Os áudios que explicam o que poderá ter originado o trágico acidente em Toledo

Luana Augusto 29 de outubro de 2026 às 08:17

Centro de controlo em Atocha mandou o maquinista do comboio AVE, que vinha atrás, retomar a "marcha normal" ao invés da "marcha à vista", como estabelecido no protocolo. Além disso, não avisou que o comboio da frente se encontrava parado com problemas técnicos.

O jornal teve acesso a três áudios-chave que poderão ajudar a explicar o que esteve na origem da trágica colisão de quarta-feira entre dois comboios, que provocou  em Espanha. Em causa estão comunicações entre o maquinista do comboio Iryo, que estava parado, e o controlador no centro de operações em Atocha, assim como uma conversa entre o controlador e o maquinista do comboio AVE da Renfe, que vinha atrás.

and AVE, in the village of Urda, Toledo, Spain, 28 CHEMA MOYA / EPA

A conversa entre o centro de controlo em Atocha e o comboio AVE, que estava 25 quilómetros atrás de Iryo, aconteceu pelas 08h36 e durou mais de cinco minutos. Segundo o El País, trata-se de uma conversa confusa na qual o controlador demonstrou algumas dúvidas, mas que terminou com uma ordem que viola o protocolo.

O controlador pediu que o comboio retomasse a "marcha normal" e não a "marcha à vista", como determinava o protocolo que limita a velocidade máxima a 40 quilómetros por hora. Ao que parece, mandou retomar a marcha sem sequer verificar se o comboio da frente se havia afastado o suficiente - mais de 30 quilómetros - para evitar uma colisão.

O maquinista do Iryo também recebeu a mesma ordem para retomar "marcha normal", mas sete minutos depois informou que continuavam parados sem conseguir colocar o comboio em movimento. Apesar disso, ninguém avisou o comboio AVE.

A conversa entre o maquinista da AVE e o centro de controlo em Atocha

Controlador: CRC Atocha para o maquinista do comboio 2080

Maquinista AVE: Sim

Controlador: Às 08h36.

Maquinista AVE: Sim

Controlador: Desconecte e reconecte o LZB. Retome a marcha. E, em seguida, retome a marcha sob a proteção do BSL, com marcha normal.

Maquinista AVE: Com marcha normal?

Controlador: Sim.

Segundo o Governo, este foi o primeiro grande erro: ordenar que o AVE retomasse a marcha sem verificar se o Iryo se havia afastado. Além disso, se o comboio tivesse arrancado a uma velocidade normal, o acidente poderia ter sido evitado.

 A conversa entre o maquinista do Iryo e o centro de controlo em Atocha

A primeira conversa ocorreu às 08h41, quando o maquinista informou o controlador de que estavam parados na linha após uma falha nas comunicações.

Maquinista da Iryo - Bom dia, Atocha. Tive uma falha de comunicação enquanto circulava na BSL [Bloqueio da Sinalização Lateral]. O veículo seguinte deve passar pela 113 a mais de 200. Mas não recebi a comunicação. Estou parado à entrada de Urda.  

Controlador - Atocha para maquinista, estamos com o comboio 6076, correto?  

Maquinista Iryo - Sim, correto.  

Controlador - Um momento. Isto diz: maquinista do comboio 6076. Desligue e volte a ligar ao sistema LZB (o principal sistema de controlo de velocidade). Retome a circulação, ao abrigo do BSL, a velocidade normal.  

Maquinista Iryo - A velocidade normal. Boa, perfeito!  

Uma segunda conversa entre o maquinista do Iryo e o centro de controlo em Atocha

Maquinista Iryo - O comboio não me está a permitir reiniciar o sistema LZB. E é por isso que ainda estou parado em frente ao semáforo de entrada.  

Controlador - Está bem. Se tiver algum problema, ligue-nos agora.  

Maquinista Iryo - Está bem, perfeito. Vou dizer-lhes.  

Cinco minutos depois os dois comboios colidem, provocando pelo menos 68 mortos. Juntos transportavam mais de 500 passageiros e um deles transportava um bebé.

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