Afrika Bambaataa, pioneiro do hip-hop, ajudou a popularizar o géneroRTNRD/Dziekan/MediaPunch
Quando a cidade de Nova Iorque ardia por dentro, entre prédios devolutos, gangues de rua e bairros abandonados à margem do sonho americano, Lance Taylor começou a imaginar outra língua para o caos. Chamou-se Afrika Bambaataa depois de uma viagem a África, em meados dos anos 70, e transformou-se numa das figuras decisivas da fundação do hip-hop. Morreu quinta-feira, 9 de abril, aos 68 anos, na Pensilvânia, vítima de complicações relacionadas com cancro. Como legado deixa uma obra que ajudou a moldar o género, mas também uma herança profundamente contaminada pelas acusações de abuso sexual que marcaram os seus últimos anos.
Nascido no Bronx, em abril de 1957, cresceu no interior de uma Nova Iorque em ruína. Foi membro dos Black Spades, um dos gangues mais temidos do bairro, antes de trocar a violência da rua por uma outra forma de poder: os gira-discos, os altifalantes, as festas improvisadas em parques e edifícios abandonados. Inspirado por DJ Kool Herc e Grandmaster Flash, Bambaataa percebeu cedo que o hip-hop podia ser mais do que música. Podia ser uma comunidade, uma identidade, um território simbólico para uma juventude negra e latina sem futuro aparente.
Foi dessa visão que nasceu a Universal Zulu Nation, coletivo fundado no final da década de 1970. Mais do que uma crew ou um movimento artístico, a Zulu Nation apresentava-se como uma espécie de fraternidade urbana, construída sobre os princípios de “peace, unity, love and having fun” [paz, unidade, amor e divertimento]. Nos bairros do sul do Bronx, Bambaataa tornou-se uma figura quase mítica, um DJ enciclopédico, capaz de misturar funk, soul, rock, disco, música africana e eletrónica alemã na mesma noite, inventando um novo vocabulário para a pista de dança.
Em 1982, esse vocabulário ganhou forma definitiva com Planet Rock. Construída sobre os sintetizadores mecânicos dos Kraftwerk e a pulsação da drum machine Roland TR-808, a canção foi uma explosão sísmica. Soava ao futuro. Pela primeira vez, o hip-hop abandonava o molde estritamente funk e abria-se à eletrónica, ao electro, ao techno que ainda estava por nascer. Quase tudo o que viria depois - de Detroit ao Miami bass, do freestyle ao techno europeu - passou, de uma maneira ou de outra, por aquele ritmo metálico e extraterrestre.
Ao longo da década de 1980, Bambaataa continuou a alargar as fronteiras do género. Gravou com James Brown, colaborou com John Lydon, dos Sex Pistols, aproximou o rap do punk, do industrial e da cultura club. Em 1985, participou em Sun City, o projeto coletivo contra o apartheid sul-africano, ao lado de Bruce Springsteen, Lou Reed, Run-D.M.C. e Bob Dylan. Era, para muitos, um dos três pais fundadores do hip-hop, ao lado de Herc e Flash; o visionário, o ideólogo, o homem que tinha transformado um fenómeno local numa linguagem global.
Mas a narrativa começou a desfazer-se em 2016. Nesse ano, vários homens acusaram Bambaataa de os ter abusado sexualmente quando eram adolescentes. Entre eles estava Ronald Savage, figura ligada à política local no Bronx, que alegou ter sido molestado aos 15 anos. Outras testemunhas descreveram um padrão de abuso que remontaria às décadas de 1970, 1980 e 1990, envolvendo jovens rapazes próximos da Zulu Nation. Um antigo guarda-costas afirmou ter assistido a situações comprometedoras e descreveu viagens em que o músico levava adolescentes consigo.
Bambaataa negou sempre as acusações, classificando-as como uma tentativa de destruir a sua reputação. Ainda assim, abandonou a liderança da Zulu Nation e viu a sua imagem pública colapsar. Em 2025, um tribunal de Nova Iorque decidiu contra o músico num processo civil movido por um homem que alegava ter sido abusado e traficado sexualmente entre 1991 e 1995, desde os 12 anos. Bambaataa não compareceu em tribunal e perdeu o caso por defeito.
A morte de Afrika Bambaataa encerra, assim, uma das histórias mais contraditórias da cultura popular contemporânea. Poucos artistas tiveram uma influência tão profunda na maneira como a música soa, dança e circula pelo mundo. Poucos deixaram também uma ferida tão difícil de separar da obra que construíram. Entre a utopia de Planet Rock e a sombra das acusações, fica uma figura de difícil absolvição, mas também indelével na história do hip-hop.