Abdulrazak Gurnah: Onde é que eu pertenço, afinal?

O consensualismo político da escolha da obra do tanzaniano Abdulrazak Gurnah serve bem a credibilização do Nobel da Literatura, após o escândalo de abusos sexuais e fraude financeira de 2017 e as acusações de eurocentrismo. A qualidade literária também está lá, mas será que contou para a atribuição?

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Filipa Melo 07 de outubro
REUTERS/Henry Nicholls


Se fosse uma história de ficção, dir-se-ia que lhe falta conflito. E o conflito, senhores de Estocolmo, é a alma da literatura, pelo menos até que vingue de vez a atual vaga higienizadora de que ela é vítima. São claros os argumentos da Academia Sueca expressos pelo presidente, Anders Olsson, e no Twitter da instituição. O tanzaniano Abdulrazak Gurnah (n. 1948) é o vencedor do Nobel da Literatura deste ano "pela sua inquirição intransigente e compassiva dos efeitos do colonialismo e do destino dos refugiados no abismo entre culturas e continentes", "uma exploração sem fim impulsionada pela paixão intelectual" ao longo de dez romances e múltiplos contos publicados, que "recua diante de descrições estereotipadas e abre o nosso olhar para uma África Oriental culturalmente diversificada, desconhecida de muitos em outras partes do mundo, […] marcada pela escravatura e por diferentes formas de repressão de vários regimes e poderes colonialistas: português, indiano, árabe, alemão e britânico". Sobre a qualidade literária – entenda-se estética e técnica — da obra, nem uma palavra.

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