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"A literatura é perigosa para jovens mulheres", diz Olga Tokarczuk

"Temos de deixar a nossa feminilidade, e isso é uma coisa difícil de maturar como mulher, porque a cultura clássica, de alguma forma, está contra a feminilidade", afirma a Nobel.

Lusa 27 de junho de 2026 às 20:45
Olga Tokarczuk MANUEL FERNANDO ARAUJO/LUSA

A escritora polaca Olga Tokarczuk disse este sábado que a literatura é "perigosa para jovens mulheres", e que decidiu escrever Empúsio como uma "vingança" contra o cânone ocidental dominado por histórias e mundos de homens.

"A literatura, para mulheres jovens, é muito perigosa. Para entrar no mundo clássico da literatura, para participar como leitora, de alguma forma temos de deixar a nossa feminilidade, e isso é uma coisa difícil de maturar como mulher, porque a cultura clássica, de alguma forma, está contra a minha feminilidade. O 'Empúsio' é, de alguma forma, uma vingança contra a literatura clássica, e peço desculpa ao Thomas Mann, que eu adoro e com quem cresci, mas não se pode escrever um livro tão grande, com dois volumes, sem mulheres", afirmou.

A autora, que recebeu o Nobel da Literatura de 2018, falava numa sessão literária na Praça Gomes Teixeira, no Porto, no âmbito do festival Babell, que contou com leituras Ana Celeste Ferreira e moderação de Marta Bernardes.

Tokarczuk, de 64 anos, é autora de "Viagens", "Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos", Histórias Bizarras" e "Empúsio", todos editados em Portugal pela Cavalo de Ferro, entre outros.

É este último, lançado em 2022 na Polónia, que motiva a reflexão sobre o lugar da mulher na literatura ocidental, sobretudo por surgir na senda de "A Montanha Mágica" (1924), de Thomas Mann (1875-1955), que a escritora diz tê-la inspirado desde cedo.

Nessa obra, analisa a polaca, Mann cria, "de forma consciente ou não, essa construção tão grande sobre um corpo morto de uma mulher americana e daí começa todo o livro".

Em "Empúsio", um grupo de homens num sanatório na Silésia, em 1913, conversam e criam uma forma de "fazer uma espécie de paródia, de paráfrase, da 'Montanha Mágica', dando voz às mulheres".

"Ouso, neste livro, sentar-me à mesa com Thomas Mann, nos anos 1920, e a dizer algo da minha parte, acenar. Quando disse que a literatura é um reservatório grande de conteúdos do consciente e do inconsciente, é porque isso é possível em literatura. Estamos sempre em diálogo. Nem Mann nem Cervantes morreram, como Hans Castorp [personagem de 'A Montanha Mágica'] é mais real do que algumas pessoas, como Dom Quixote é mais real" do que pessoas reais, acrescenta.

Tokarczuk conversou em polaco, numa sessão com legendagem (e interpretação) em tempo real, que combinou o trabalho de profissionais e o apoio de inteligência artificial, tendo sido registada uma interrupção devido à falha na tradução simultânea, assinalada pelo público, já depois de Tokarczuk ter perguntado "como está a tradução", a partir do palco, após uma "experiência muito difícil" noutro festival com a tradução com recurso a IA.

A escritora, que trabalhou como psicoterapeuta antes de se dedicar a tempo inteiro à literatura, cumprimentou a canadiana Margaret Atwood, que tinha protagonizado uma sessão anterior e marcou presença na plateia, entre um público com mais de mil pessoas que pôde escolher entre a tradução polaco-português e português-polaco.

Escrever sempre foi "uma obsessão", admite, tendo crescido como filha de um bibliotecário e a ler, praticamente desde que sabe fazê-lo, todos os livros que 'apanhava' nas estantes, mesmo que lhe tenha exigido sacrifícios, abdicando de "viajar como os amigos" para trabalhar numa arte que é para si "muito instintiva, sem escolas que ensinem este artesanato que é a escrita".

Saúda o peso da investigação na sua escrita, entre a experiência, a procura pelo saber e a criatividade, e defendeu o livro como algo "mais consciente do que o próprio autor, indo além dele para se encontrar nele com o leitor".

"Gosto muito quando o leitor sabe mais sobre o que eu escrevi do que eu", confessa.

O festival literário Babell arrancou na quarta-feira e decorre até segunda-feira, com nomes como László Krasznahorkai, Salman Rushdie e Dwayne Betts num programa de sessões literárias, concertos, cinema e outras apresentações que, ao todo, custou mais de 3 milhões de euros à fundação da Livraria Lello, excetuando o apoio da Câmara do Porto, que coorganiza o evento.

Ainda hoje, o chinês Cai Guo-Qiang apresenta uma performance com 'drones' e fogo de artifício sobre o rio Douro, no fecho do antepenúltimo dia do festival.

No domingo, pelas 14:30, o norte-americano Dwayne Betts terá uma conversa, na Praça Gomes Teixeira, aberta ao público, mudando a organização, durante o dia de hoje, a postura que teve para os restantes eventos, para os quais era necessário bilhete, conseguido mediante compra de um livro nas dezenas de livrarias aderentes nos últimos meses.

Mais tarde, há sessões com o húngaro László Krasznahorkai, Nobel da Literatura em 2025, pelas 18:30, nos 'Leões', e às 21:30 é a vez de Salman Rushdie, no Coliseu do Porto.

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