A peça é interpretada por Mónica Garnel e Francisco Monteiro LopesFilipe Figueiredo
O Teatro Aberto estreia esta sexta-feira, em Lisboa, "O som interior", do norte-americano Adam Rapp, pela primeira vez posto em cena em Portugal, numa peça em que as personagens vivem "fora do mundo real", segundo o encenador João Lourenço.
Num momento da careira em que "só escolhe textos que o possam desafiar", João Lourenço explicou à agência Lusa que a opção pelo texto do autor norte-americano reside no facto de retratar bem "a modernidade".
João Lourenço leu sobre "O som interior" ("The sound inside") "já nem sabe onde". Sabe que foi estreada no Williamstown Theatre Festival, no Massachusetts, em 27 de junho de 2018, e sabe que depois também esteve em cena na Broadway, sem nunca ter estreado em Londres, o que achou "estranho".
Como não existia o livro em Portugal, até porque se trata de um autor "pouco conhecido na Europa", encomendou o livro dos Estados Unidos e, com a dramaturgista com quem trabalha há anos, Vera San Payo de Lemos, acabou por decidir-se a pô-la em palco, por considerar que retrata a modernidade.
Segundo João Lourenço, a peça do romancista, dramaturgo, argumentista, produtor, músico e realizador norte-americano, nascido em Chicago, em 1968, está construída "com inteligência", "sobre camadas".
Imagem dos ensaios da encenação de João Lourenço para "O Som Interior", escrita pelo norte-americano Adam RappFilipe Figueiredo
Outro fator que influenciou a escolha foi o facto de a peça ter uma relação "muito forte com 'Crime e castigo', de Dostoiévski", um dos romances "de eleição" do encenador e que "durante muito tempo pensou adaptar para teatro, o que acabou por nunca acontecer".
A dificuldade esteve apenas em fazer com que o autor do texto aceitasse que a peça estreasse fora dos Estados Unidos, o que só foi possível através de contactos diretos com Adam Rapp, relatou João Lourenço.
A ação de "O som interior" centra-se numa professora universitária de escrita criativa, de 50 anos, e na relação que esta estabelece com um dos seus alunos, durante as aulas em que é muito abordada a obra do autor russo e em que o aluno "tem uma obcecação" pela personagem principal de "Crime e castigo", Raskólnikov.
Este facto deixou João Lourenço contentíssimo, como afirmou, permitindo-lhe colocar ainda "mais 'Crime e castigo' na peça" em relação ao texto original, pois, como admitiu, acabou por se entusiasmar.
João Lourenço sublinhou ainda que, "de uma forma geral", as peças contemporâneas sobre relações humanas apoiam-se sempre "em conflitos, em acidentes, doenças, em violência , sexo ou segredos", enquanto Adam Rapp construiu "'O som interior' através da inteligência", aproximando as personagens.
O espetáculo pode ser visto de quarta-feira a domingo, no Teatro Aberto, ao longo das próximas semanasFilipe Figueiredo
Na peça, "o desejo é mais a literatura, é o pensamento e é a capacidade de as personagens se reconhecerem através das palavras", frisou à Lusa, acrescentando que "à superfície" o que se vê na peça "é uma professora e um aluno".
"Mas dramaturgicamente em palco já não são só isso": a peça põe o público perante dois escritores, um jovem de 18 anos em formação para ser escritor, e uma escritora de 50 anos que há 17 não consegue escrever um livro.
Por isso, para o encenador, as duas personagens "estão fora do mundo real".
O encenador questiona-se, todavia, se, em 2026, "estamos a viver o mundo real", para logo responder: "Acho que no século passado julgávamos que sim, que vivíamos nesse mundo real, mas se olharmos para lá com os olhos de hoje esse mundo lento e que parecia não passar, já nessa altura, esse tempo estava-se a preparar para chegar ao mundo irreal que hoje vivemos".
A peça vai estar em cena até 20 de dezembro, na Sala Azul do Teatro Aberto, com récitas à quarta e quinta-feira, às 19:00, à sexta-feira e ao sábado, às 21:30, e, ao domingo, às 16:00.
Com versão de João Lourenço e Vera San Payo de Lemos, que também assina a dramaturgia, "O som interior" tem interpretação de Mónica Garnel e Francisco Monteiro Lopes.
O cenário é de João Lourenço, os figurinos são de Marisa Fernandes, o desenho de luz é de Anabela Gaspar e o vídeo de João Lourenço e Jorge Albuquerque.