Porque é que o filme Parasitas está a ter tanto sucesso?

Para o crítico de cinema da SÁBADO, Tiago Santos, estamos perante um filme sublime. Deu-lhe cinco estrelas

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Tiago Santos 23 de janeiro de 2020

Foi entregue aos críticos, enquanto entravam para o visionamento do extraordinário "Parasitas", um pedido assinado pelo próprio Bong Joon Ho, que passo a citar julgando não estar a cometer qualquer tipo de inconfidência: "...acredito que qualquer cineasta deseje que o seu público sinta um sobressalto a cada viragem na história, seja essa reviravolta grande ou pequena, que – a cada momento – o público se sinta surpreendido e preso ao filme com uma ardente emoção".

Bong Joon Ho, um dos enormes contadores de histórias/autores/génios do cinema contemporâneo, sempre teve o imenso talento de construir narrativas que são, em simultâneo, inesperadas e inevitáveis.

Parece uma contradição mas não o é: o sentimento de surpresa é em tempo real, a reacção do espectador quando se confronta com as peripécias de uma história que decorre à frente dos seus olhos; a sensação de que não poderia ter acontecido de outra forma acontece no final, em retrospectiva, quando levamos o filme para casa debaixo da pele.

São poucos os títulos que o conseguem fazer. "Parasitas", co-escrito por Jin Won Han, é um deles, tal como antes "Mother – Uma Força Única" (2009) que, com o seu sublime final, se elevava ao estatuto de obra-prima, o que também acontece aqui.

E é possível que já tenha escrito demais porque, e passando de novo para a carta de Bong Joon Ho: "...peço-vos encarecidamente: Quando escreverem a crítica deste filme coíbam-se – na medida do possível – de revelar o que acontece depois da entrada dos dois irmãos como explicadores... a vossa atenciosa contenção constituirá uma dádiva maravilhosa aos vossos leitores e à equipa que fez deste filme uma realidade."

O que posso dizer é isto: há uma família de pobres desenrascados e uma outra de ricos desafogados e dois irmãos que se fazem passar por quem gostariam de ser. Há chuvas que são como uma bênção para alguns porque aliviam a poluição enquanto, para outros, a água é como um castigo bíblico por pecados que ainda não acabaram de cometer.  

"Parasitas" encara a luta de classes com um sorriso no canto do lábio e aquele brilho no olho dos que sabem que o verniz da boa educação e das aparências está pronto para estalar.

Ajudado, mais uma vez, pelo magnífico trabalho de Hong Kyung Pyo – é também o director de fotografia do arrepiante "O Lamento", de 2016, e de "Em Chamas", um dos melhores filmes de 2018 – Bong Joon Ho demonstra um extraordinário controlo do tempo, espaço e tom: "Parasitas" é comédia e farsa até ao momento em que se transforma num tenso drama que se aproxima do género do terror para depois terminar num território sublime que poderia pertencer à melhor literatura - se o filme fosse um livro, imagino-o como um cruzamento entre a melhor fase de Paul Auster e Edgar Allen Poe.

O elenco, tal como o guião, é surpreendente e inevitável e aquelas personagens não poderiam pertencer a mais ninguém. Foi o melhor filme de 2019.

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