Sábado – Pense por si

GPS

Comic Con chegou a Santa Maria da Feira para dar alegria a uns e ensinar outros a lidar com venenos

Milhares de jovens e adultos marcaram presença no primeiro dia da 11ª edição da Comic Con Portugal.

Capa da Sábado Edição 21 a 27 de abril
Leia a revista
Em versão ePaper
Ler agora
Edição de 21 a 27 de abril
As mais lidas GPS
Lusa 23 de abril de 2026 às 16:41
Banca com ilustrações de personagens de anime na Comic Con, em Santa Maria da Feira
Cosplayer de Deadpool marca presença na Comic Con em Santa Maria da Feira
Visitantes apreciam posters e figuras de ação na Comic Con em Santa Maria da Feira.
Fãs de videojogos reunidos na Comic Con em Santa Maria da Feira
Banca com ilustrações de personagens de anime na Comic Con, em Santa Maria da Feira
Cosplayer de Deadpool marca presença na Comic Con em Santa Maria da Feira
Visitantes apreciam posters e figuras de ação na Comic Con em Santa Maria da Feira.
Fãs de videojogos reunidos na Comic Con em Santa Maria da Feira

A 11.º Comic Con Portugal arrancou esta quinta-feira em Santa Maria da Feira, recebendo entre as primeiras centenas de visitantes quem tenha o bilhete desde o Natal, quem se fantasie para alegrar outros e quem gostasse de lidar com venenos.

Mesmo quando se tratam de fantasias, essas são algumas das motivações a justificar a visita ao centro de congressos Europarque, que, no referido concelho do distrito de Aveiro e Área Metropolitana do Porto, até domingo acolhe expositores, conferências, oficinas e várias experiências relacionadas com banda desenhada, cinema, videojogos e outros fenómenos da cultura pop.

"Sempre quis ir a uma Comic Con, mas achava sempre que era longe e caro demais", conta o diretor comercial Jorge Silva à Lusa. O irmão Pedro resolveu-lhe o problema: comprou-lhe um ingresso diário como presente natalício, poupando nessa altura 10 euros face aos 40 do bilhete atual, e fez um brilharete na consoada. "Tenho um rico irmão", admite Jorge com gosto. E a experiência desta manhã só não foi perfeita-perfeita porque o evento não tem tantas referências à saga "Star Wars" quanto Jorge gostaria e os preços da restauração no recinto pareceram-lhe "um assalto à mão armada".

Também por isso, dezenas dos 3.000 estudantes da Feira que quinta e sexta-feira têm acesso gratuito ao evento acorreram ao 'stand' da Fanta para ter bebidas grátis e tentavam bebê-las à pressa antes de chegar à banda da Team7 E-Sports, onde queriam as mãos livres para, sob bolas de sabão, testar jogos de computador, simuladores de 'racing' e máquinas de basquetebol.

O diretor da marca, Diogo Silva, diz que chegou ao negócio do 'gaming' precisamente por causa de uma série de mangá e anime. "Apaixonei-me pelo 'Dragon Ball'; foi o que me trouxe para este mundo", revela. Na Comic Com, vai ter umas 40 a 50 pessoas a trabalhar e, mesmo que só uma pequena parte dos visitantes faça efetivas compras no 'stand', a presença no evento "vale sempre a pena" em termos de publicidade.

Mais receoso está Fábio Moreira, que coordena as vendas da loja Aniplay, sediada em Algés. "Só no fim de semana é que vamos perceber se a mudança de Matosinhos para a Feira vai compensar", calcula. O comerciante não sabe ao certo quanto custou o aluguer do espaço no Europarque, mas garante que precisa vender "pelo menos 16.000 euros" para cobrir todas as despesas com a participação no evento.

Para isso há de contribuir uma gama de artigos que abrange desde cartas de Pokémon a 3 euros até esculturas de edições limitadas a 500. "Mas o que sai mais são estas figuras Prize, produzidas em massa", explica, apontando para dezenas de caixas com personagens colecionáveis de anime, mangá, filmes e 'gaming' -- que no Japão se vendem em máquinas de jogos e 'arcade', e no stand da Aniplay estão cobertas por uma fina rede de segurança, a impedir acesso direto ao produto.

Gustavo Carvalho e André Rocha, alunos do 7.º ano da Escola EB Fernando Pessoa, compraram cartas de Pokémon e estão eufóricos, o que só em parte se deve ao facto de esse colecionável exibir o Mega Lucario, personagem que "foi criada num ovo, libertou-se e agora derrota monstros". A razão principal do seu entusiasmo é mesmo a presença na Comic Con, a expensas da autarquia: "Se não fosse assim, com bilhetes de criança a 20 euros a minha mãe nunca me trazia", assegura Gustavo.

Quem já há muito não precisa de licença dos pais é André Pinto, que se destaca na multidão com uma peruca turquesa e um fato preto brilhante debruado no mesmo tom de azul, em homenagem à versão feminina de Hatsune Miku, cantora virtual que, criada para um 'software' de síntese de voz, se tornou uma personagem icónica da pop japonesa. Para esse jovem de 25 anos, é obrigatória a presença em todas as Comic Con e daí o investimento antecipado: comprou o passe geral já em 2024 pelo preço de 'early bird'.

Yuri Dargent, da Escola António Alves Amorim, de Lourosa, costurou o seu fato com a ajuda da mãe e a qualidade da confeção impressiona: a máscara de gás com que recriaram o Kaneki Ken não tem um pesponto fora do sítio e ainda exibe uma grande dentadura impecavelmente desenhada. Junte-se uma peruca branca, um polo e calções com rasgões "provocados por tortura", e está completa a recriação da complexa personagem de anime que o jovem aprecia porque "passou por muitas dificuldades e não vence sempre".

Derrotas incomodam mais Mafalda e Lorena Sousa, da EB 2/3 Carlos Ferreira Almeida. Parecem angelicais nos seus casacos a lembrar asas de borboleta, mas, quando explicam porque evocam dessa forma as caçadoras de demónios Shinobu e Kanae, perdem-se em gargalhadas: "Elas sabem lidar muito bem com venenos e nós também queríamos!".

É por perceber bem a força do riso e a necessidade de ludibriar com humor mesmo os piores acontecimentos que Joana Forte se passeia no Europarque num fato de couro de Ladypool, arrastando debaixo do braço a cabeça do anti-herói da Marvel que é seu parceiro. "Identifico-me bastante com o Deadpool porque gosto do seu sarcasmo e acho que temos que levar a vida com boa disposição, a tentar alegrar os outros", explica.

Embora não seja secreta, a vida de Joana também é dupla: na maior parte do tempo é enfermeira veterinária; no restante, veste um dos 150 fatos de 'cosplay' que guarda com cuidado na garagem e depois exibe-os na conta de TikTok Freakin'Quinn, onde tem mais de 651 mil seguidores. Conciliar tudo isso é mais fácil que usar as lentes de contacto que, graças a uma fina grelha, lhe asseguram olhos quase totalmente brancos. "Não vejo nada com isto", desabafou, entre risos.

A Newsletter SÁBADO Edição Manhã no seu e-mail
Tudo o que precisa de saber sobre o que está a acontecer em Portugal e no mundo. Enviada de segunda a domingo às 10h30