A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, inaugurou esta quarta-feira o espaço que passa a acolher a Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE), a celebrar o cinquentenário da sua criação.
Pela primeira vez, num único edifício, em Alcabideche, Cascais, reúne-se a coleção com mais de 2.300 peças, iniciada pelo Estado em 1976.
O edifício, que foi alvo de obras, pertenceu à ex-Fundação Ellipse, ligada ao Banco Privado Português, e foi adquirido pelo Estado no âmbito de um processo de insolvência da instituição financeira liderada por João Rendeiro.
"Ao celebrarmos meio século de existência da CACE, a abertura do CACE-Centro representa para nós precisamente esse momento da descoberta e uma oportunidade de olharmos para o acervo desta coleção e para o território com novos olhos, como se fosse a primeira vez que os estamos a ver", disse esta quarta-feira a sua diretora e curadora, Sandra Vieira Jürgens.
"Pela primeira vez na sua história, a CACE dispõe de uma casa inteiramente sua. Desenhada à escala da sua ambição e da sua missão. Uma casa que nos permite, pôr fim a décadas de dispersão logística, otimizando o estudo, o restauro e os processos de inventariação", disse Jürgens, acrescentando: "Mas também uma casa que transforma radicalmente a nossa capacidade de partilhar a coleção, afirmando a CACE, com muita virtude e plena confiança, para as grandes instituições homogéneas em Portugal e no estrangeiro".
"Pretendemos aproximar do acervo o olhar público através do nosso modelo de reservas visitáveis. Através de visitas mediadas e programadas, o público poderá contactar diretamente com os bastidores da coleção", afirmou a responsável que garantiu que este Centro "não será um lugar de chegada ou de repouso, mas sim uma estrutura vocacional para impulsionar encontros, gerar pensamento crítico e multiplicar itinerâncias por todo o nosso território".
"Uma coleção que encontrou a sua casa", disse, por seu turno o presidente da Museus e Monumentos de Portugal - Entidade Pública Empresarial (MMP), Alexandre Nobre Pais, referindo que a inauguração "corresponde à concretização de um projeto central e muito ambicionado" pela MMP.
O responsável afirmou que o CACE-Centro, em Alcabideche, Cascais, é "a institucionalização definitiva da CACE na estrutura da MMP, o que permitiu transformar uma estrutura temporária numa entidade estatal". Nobre Pais realçou ainda que deste modo se consolida o Programa Anual de Adquisições de Arte Contemporânea, e foi constituída uma curadoria, "pois tinha sido identificada como clara fraqueza desta coleção, ausência de uma gestão especificamente dedicada".
Referindo-se à coleção pública o dirigente da MMP disse que "não se afirma apenas pela soma das suas obras, mas pela solidez da sua gestão. A vocação de proximidade e diálogo com o país, que esteve na sua génese em 1976, exigia um fundo técnico". Esta quarta-feira também foi assinado pela MMP e a Câmara de Cascais, um protocolo de colaboração.
No seu discurso o autarca cascalense, Nuno Piteira Lopes, afirmou: "Com estas novas instalações, a cultura é também devolvida às pessoas. Enfim, neste espaço os protagonistas são artistas, os autores de mais de mil obras que estão aqui, de uma criação variável, e que não para de crescer ano após ano". O autarca agradeceu ainda ao Governo a escolha de uma freguesia do seu concelho para instalar a CACE.
A ministra da Cultura, Juventude e Desporto salientou, no seu discurso, que "a coleção de arte contemporânea do Estado firmou-se como um dos mais importantes acervos públicos do país". Para Margarida Balseiro Lopes, "não basta adquirir obras, não basta definir património e não basta garantir que esse património existe".
"É necessário assegurar que as obras são conservadas nas melhores condições, estudadas, implementadas, valorizadas e preparadas para continuar a cumprir a sua missão", disse Balseiro Lopes, referindo que "até agora, uma parte significativa desta coleção estava distribuída por diferentes espaços, com todas as exigências operacionais, logísticas e financeiras que essa dispersão inevitavelmente implica".
O atual espaço, disse a ministra, "permite conservar o acervo num único local, garantindo melhores condições de conservação, segurança, acompanhamento técnico e gestão. Ao reunir a coleção num único espaço, torna-se possível acompanhar de forma mais próxima as suas necessidades, planear com melhor eficácia a sua gestão e criar melhores condições. No fundo, trata-se de criar uma base mais justa para garantir que este património continue acessível e disponível para as atuais e para as futuras gerações".
"Preservar a coleção é apenas uma parte da missão. Porque as obras de arte devem ser conservadas, sim, mas existem para ser interpretadas, estudadas e vistas pela sociedade", defendeu Balseiro Lopes.
"Este espaço - alertou a ministra - não nasce para substituir os museus de arte, em especial de Arte Contemporânea que temos no país e que têm desempenhado um papel fundamental na valorização da Arte Contemporânea em Portugal, mas, pelo contrário, este espaço nasce para reforçar a sua visão, a sua missão, criando melhores condições para que a coleção circule, contribua para uma reprogramação cada vez mais rica e diversificada destes museus e continue a chegar a cada vez mais pessoas", disse Balseiro Lopes.
Para a ministra, "a arte e a cultura no geral só cumprem verdadeiramente a sua missão quando encontram públicos, quando geram conhecimento, quando contribuem para novas leituras e novas formas de compreender o mundo e de compreender os outros. E quando maiores forem capacidades e ocupação destas obras, maior será também a sua capacidade de criar valor cultural e educativo", argumentou a governante.
Margarida Balseiro Lopes defendeu que "este centro deve ser entendido como uma plataforma ao serviço da inclusão da coleção e de todos os museus de arte e democracia entre nossos direitos públicos e privados e não como um destino final".