Entrevista
Entrevista

Gregório Duvivier: “Não tenho a pretensão de derrubar o Bolsonaro”

Gregório Duvivier: “Não tenho a pretensão de derrubar o Bolsonaro”
Vanda Marques 13 de novembro

O humorista brasileiro combinou com Ricardo Araújo Pereira fazer um espetáculo. Esgotaram a sala em 30 minutos. Agora são cinco datas. Crítico de Bolsonaro, diz que o humor nunca foi tão essencial.

Tímido, empurrado para o teatro pela mãe, descobre na vontade de criar cenas para representar, a força das palavras. Entra no humor e fica viciado à primeira gargalhada que arranca do público. Ainda com 12 anos, com voz meio aguda, subiu ao palco e bastou dizer: “O meu nome é Gregório.” “As pessoas morreram de rir. Riram na minha cara, mas aquilo foi transformador”, diz à SÁBADO. Passou a perseguir essa sensação.

O Porta dos Fundos – coletivo de humor que surge no YouTube – foi a celebração da liberdade. O brasileiro trabalhava na Globo a escrever humor, mas as restrições eram castradoras: não se podia falar de sexo, política, futebol, religião. A Internet foi a revolução em 2012. Trocada em números: 17 milhões de subscritores do canal no YouTube e vídeos a ultrapassarem os 28 milhões de visualizações. Este mês, Gregório Duvivier – que terminou de gravar a quinta temporada do programa de humor político, Greg News – vem a Portugal debater a língua portuguesa e a herança lusitana na terra de Vera Cruz com o seu amigo Ricardo Araújo Pereira (RAP).


Como surgiu a ideia para o espetáculo Um Português e Um Brasileiro entram num Bar...?
Surge da vontade de encontrar o Ricardo Araújo Pereira. Somos amigos de longa data e não nos conseguimos ver sempre por causa do Oceano Atlântico, esse pequeno inconveniente que se criou entre nós desde que acabou a Pangeia. Não só para ver o Ricardo, mas para ver Portugal. Não vejo Portugal desde antes da pandemia. 'Tou morrendo de saudade de Portugal. Tenho muitos amigos e amo essa terra. A gente já fez essa peça aqui no Brasil.

Agora está habituado à exposição e é entrevistado várias vezes. Existe alguma pergunta que o tire do sério?
Não, não tem. Posso responder a qualquer coisa.

Nem a pergunta sobre os limites do humor?
Acho essa pergunta fascinante. Acho muito difícil. Acho que é uma puta questão filosoficamente. Penso muito nisso e mudo de opinião todo o dia. Essa pergunta revela algo mais subtil e difícil – tudo é digno de ser profano? Existe algo sagrado? Existe o direito à ofensa? Ou é uma categoria burguesa e fútil? Tendo a acreditar que nada é sagrado e que ninguém tem direito se sentir ofendido. Mas mudo de ideia o tempo todo.

No espetáculo Um Português e um Brasileiro entram num bar... vão falar sobre a língua que nos une.
A gente já fez essa peça aqui no Brasil, na verdade, era um bate-papo. Os vídeos na Internet viralizaram e muita gente cobrava: “Nunca vão fazer em Portugal?” É que temos uma língua – obviamente é a mesma –, mas com particularidades que adoro estudar. Adoro as palavras que só de um lado tem e adoro intercambiá-las. No Brasil não temos a palavra batota. Embora se cometa tanta batota por aqui. O português fala o tempo todo: “Ah, isso é batota.” Amo. Vocês não conhecem a palavra maracutaia – é uma das formas de batota. Algumas alusões e omissões dizem muito.

Para continuar a ler
Já tem conta? Faça login
Para activar o código da revista, clique aqui
A Newsletter As Mais Lidas no seu e-mail
Às Sextas-Feiras não perca as notícias mais lidas da semana