"Todos os dias recebo fotos com erros em cartazes ou nas redes, como 'cascóis' ou 'variaçãos'"
A revisora de texto Rita Asseiceiro lançou um livro com dicas de português, uma por cada dia do ano. Quer acabar de vez com as dúvidas sobre a língua, mas reconhece que a tarefa é difícil. Ela própria também se debate com o problema.
Rita Asseiceiro sempre foi aquela pessoa que detetava facilmente os chamados pontapés na gramática, erros nas ementas e cartazes e até calinadas em conversas. "Era aquela amiga que revia os trabalhos de grupo. Foi esse olho atento que me levou a querer aprender mais e a desempenhar funções de revisora de texto na revista da minha faculdade", conta à SÁBADO. Foi por isso que, depois de uma licenciatura em Jornalismo decidiu tirar o curso de Revisão de Texto e, mais tarde, começar a partilhar dicas sobre língua portuguesa com as pessoas através das redes sociais.
A página do Instagram, Meia Dúzia de Erros, foi criada em 2020 com esse objetivo de "ensinar aquilo que não se aprende na escola sobre língua portuguesa". Seis anos mais tarde, depois de somar mais de 30 mil seguidores, surgiu a oportunidade de escrever um livro onde compilou os erros mais frequentes sobre ortografia, acentuação, pontuação, verbos, estrangeirismos e pronúncia. 365 Dicas para não dar erros, editado pela Penguin Random House, já está à venda nas livrarias.
A língua portuguesa é mesmo difícil ou somos nós enquanto sociedade que escrevemos cada vez pior?
A língua portuguesa é um idioma complexo, com várias regras e exceções, com diferentes influências e origens, até culminar no que conhecemos hoje. Teve origem no latim vulgar, com influência dos povos árabes, romanos, muçulmanos, considerando-se uma das línguas mais antigas da Europa Ocidental. E é exatamente isso que a torna tão rica e bonita.
Por outro lado, estamos a descurar uma parte do nosso património. É verdade que, de geração após geração, escrevemos cada vez pior. Seja por escrevermos mensagens curtas, informais e abreviadas, sem pontuação, seja pelo apoio da inteligência artificial, preocupamo-nos cada vez menos com o rigor da escrita e da língua portuguesa.
Quais são, na sua opinião, os erros de português mais graves?
Prefiro falar dos mais frequentes. Em primeiro lugar, a confusão entre “adesão” e “aderência” – sendo que a primeira se utiliza apenas em relação a pessoas, com o significado de apoio, concordância; e a segunda, em relação a coisas, referindo-se à qualidade física de um determinado objeto.
Por outro lado, ouvimos também frequentemente a expressão “de encontro a”, quando estamos a expor concordância. Está incorreto porque significa exatamente o oposto. Para afirmar concordância, devemos dizer “ao encontro de”.
Por fim, não poderia deixar de falar do verbo “evacuar”. Não se evacuam pessoas, mas sim casas e localidades. Este erro (“as pessoas foram evacuadas”) viu-se muito na comunicação social durante as tempestades do início do ano.
Escreve que as dúvidas de português são transversais a todas as idades, profissões e níveis de ensino. Há erros típicos das gerações mais novas versus os das mais velhas?
Não diria que existem erros de jovens e erros de pessoas mais velhas. Existem, sim, dúvidas que podem ser mais frequentes em determinadas gerações, devido às diferentes experiências linguísticas.
Nas mais novas, a utilização constante das redes sociais faz com que a escrita seja mais informal e descontraída, prejudicando a forma de escrever corretamente. Agora temos um novo desafio: a inteligência artificial. O erro é humano, mas esta nova ferramenta leva-nos a negligenciar a aprendizagem, a pesquisa e o rigor.
Já nas mais velhas podem surgir dúvidas relacionadas com regras que foram aprendidas de forma diferente na escola ou com alterações que a língua sofreu. O novo Acordo Ortográfico é um bom exemplo: há pessoas que aprenderam a escrever “acção” ou “óptimo” e que hoje têm dúvidas sobre a nova forma de escrever.
Também encontro muitas dúvidas relacionadas com palavras ou construções que foram transmitidas oralmente e que se foram cristalizando ao longo do tempo.
Quais são as dúvidas que mais recebe na sua página de Instagram?
Há muita gente a partilhar erros que encontram em cartazes, nos meios de comunicação social e nas redes sociais. Recebo diariamente fotografias com esses erros e é muito engraçado porque dizem “vi isto e lembrei-me logo de ti”. Alguns exemplos: “cascóis”, “setembro trás nova ementa”, “analistas prevêm”, “variaçãos”… Já para não falar das vírgulas a separar o sujeito do predicado ou a falta delas.
Com estas interações, é impossível não ficar feliz e com sentimento de dever cumprido, quando as pessoas já detetam os erros e querem aprender e melhorar o seu uso da língua portuguesa.
Qual é o perfil dos seus seguidores?
O Meia Dúzia de Erros atrai pessoas de todas as idades e géneros. A língua portuguesa é um tema que interessa a todos, mas, como em qualquer rede social, as mulheres estão sempre em destaque – são cerca de 89% dos seguidores. Quanto à faixa etária, todos interagem e estão interessados no conteúdo, com destaque para a faixa etária entre os 35 e 44 anos.
Qual foi a coisa mais engraçada que já lhe escreveram?
Na rubrica “Encontra o Erro”, partilho fotografias de erros que os meus seguidores encontram. E a reação das pessoas é sempre muito engraçada. Tenho uma seguidora, chamada Ana, que um dia me escreveu: “Estou ligada às máquinas”. Isto porque viu escrito este erro: “em serrado” (em vez de encerrado).
No dia seguinte enviou-me mais um: salto em “cumprimento” (em vez de comprimento) com a frase “Já estava ligada às máquinas, agora, tive uma pequena paragem”.
Há algum erro ou armadilha que tenha de se “policiar” para não fazer?
Gostava de dizer que não, mas não posso. A verdade é que na oralidade é muito difícil falarmos corretamente, escapa sempre qualquer coisa. Uma dessas coisas é a regência do verbo “ter”.
Na maioria dos casos, devemos dizer “tenho de”, mas muito facilmente, por hábito, digo (e dizemos) “tenho que”. É um erro que tenho de me “policiar” para não fazer, ainda que seja muito difícil. Aos poucos, hei de lá chegar. A culpa é o hábito; é muito difícil desaprender o que já sabemos e aprender de uma nova forma.
Já para não falar das tão conhecidas bengalas, como “tipo”, “imagina”, “então”, “agora” e por aí fora. Temos mesmo de as eliminar da nossa oralidade para tornar o discurso mais coerente e fluido. Por isso, é tão importante começar desde cedo a falar e a escrever corretamente.
Como era nos seus tempos de escola, sempre foi fácil para si escrever sem erros?
Como costumo dizer, a sabedoria vem com Meia Dúzia de Erros, o que significa que precisamos sempre de aprender e de passar por este processo de aprendizagem para adquirir e consolidar conhecimentos. Eu não fui exceção.
Era uma amante dos ditados e das composições, e ainda hoje me recordo de acertar praticamente em todas as palavras. Ainda assim, posso confessar um dos meus maiores erros, que precisei de treinar muito para corrigir: trocava a letra “b” com a “d” e a letra “f” com a “v”.
Se pudesse escolher apenas um, qual seria o erro que gostaria que as pessoas aprendessem a não fazer com o seu livro?
Seria o pleonasmo “há anos atrás”. Se recorremos ao verbo haver, que, neste caso, indica o tempo decorrido entre o tempo presente e o acontecimento passado, já nos estamos a referir ao passado, nunca ao futuro. Ainda assim, o mais importante é estarmos dispostos a aprender, adquirir conhecimentos, consolidar a nossa língua materna e não voltar a errar.