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“A aprendizagem não termina com o curso”

Carlos Sezões, managing partner da Darefy, fala das profissões mais ameaçadas, das que estão para vir e de como se podem preparar os jovens para trabalhos que ainda não existem.

Carlos Sezões, Carlos Sezões, managing partner da Darefy

Carlos Sezões soma uma carreira de mais de duas décadas em empresas de consultoria de gestão e liderança. Especialista em recrutamento, gestão de talento e otimização organizacional, fundou e dirige a , uma startup que pretende preparar as empresas para o futuro do trabalho.

Quais as áreas do conhecimento com maior potencial futuro?

Num esforço prospetivo, direi que serão aquelas que ajudam a lidar com os grandes desafios sociais: a revolução tecnológica/digital, a sustentabilidade ambiental-energética e o crescente foco na saúde, longevidade e envelhecimento ativo. Destacaria dois clusters de conhecimento. O primeiro, ligado à proficiência tecnológica – a data science, a inteligência artificial, a cibersegurança, a biotecnologia e mesmo algumas áreas de “nicho” como blockchain e AR/VR. O segundo, de competências ligadas às ciências sociais e humanas, como a ética, a psicologia, a filosofia e social-skills, que permitirão sucesso num contexto organizacional.

Que novas carreiras vão surgir nos próximos anos impulsionadas pela revolução da inteligência artificial?

A resposta mais honesta é que ninguém sabe. Esta revolução da IA traz novidades, a cada trimestre e algumas das profissões nem sequer são hoje imaginadas. Mas diria que serão baseadas na ligação entre humanos e máquinas. Já vemos atividades a despontar como engenharia de prompts (extrair o máximo potencial da GenAI), especialistas de ética de IA (garantir que a IA respeita a privacidade e a legalidade), treinadores de IA (modelação dos dados que alimentam os algoritmos) e arquitetos de processos geridos por agentes IA. Por último, especialistas de robótica ligada à IA, que assegurarão, por exemplo, robots industriais ao lado de operários humanos.

Quais as profissões mais ameaçadas até 2030?

As profissões mais expostas à automação são aquelas que envolvem tarefas repetitivas, processamento de dados relativamente previsíveis ou recolha de informação básica. Dou aqui como exemplos atividades de contact center e apoio ao cliente, tarefas administrativas e financeiras básicas, traduções e revisões de texto, ou mesmo criação de conteúdos e media.

Quando sair da universidade ou do politécnico daqui a três, quatro, ou cinco anos, que áreas oferecerão mais oportunidades de emprego e melhores salários?

Os salários dependerão da oferta e da procura de profissionais, pelo que os salários premiarão sempre a escassez. Diria que as áreas mais competitivas e com maior poder de atração financeira serão as engenharias industriais, o (imenso) universo das tecnologias de informação, as energias (nomeadamente renováveis) e a saúde. Mas, cursos superiores à parte, profissões técnicas como eletricistas e canalizadores (por enquanto, imunes à robotização e à IA) continuarão a registar elevados níveis de procura e compensação.

A escolha do curso deve basear-se na paixão e entusiasmo por determinada área. Carlos Sezões, managing partner  da Darefy

Como se podem preparar os jovens para trabalhos que ainda não existem?

Será o foco na aprendizagem contínua e na adaptabilidade. Sei que o Lifelong Learning é um conceito já muito debatido, mas nunca foi tão crucial como hoje. Adotar o mindset de que a aprendizagem não termina com o curso e estudar e aprender de forma proativa é essencial – nos fundamentos, mas também nas ferramentas práticas. E alargar experiências a várias áreas para estimular mundividência e adaptabilidade – por exemplo, projetos de voluntariado, intercâmbios internacionais.

Que soft skills enriquecem o currículo do recém-licenciado?

Diria que enriquecem o currículo e a pessoa e serão o verdadeiro elemento diferenciador. Desde logo, o pensamento crítico e a empatia. Depois, a flexibilidade e a resiliência para lidar com a pressão e o imprevisto. E depois a comunicação e a capacidade de cooperar e colaborar.

Em que fatores se deve focar o candidato no momento de escolher o curso?

A escolha do curso deve basear-se (sem falsos romantismos) na paixão e entusiasmo por determinada área. E hoje é uma decisão mais fácil, já que não será um compromisso rígido para os próximos 40 ou 50 anos de vida profissional. Mais racionalmente, o candidato deve avaliar a sua própria aptidão e a desejável versatilidade do curso, que deve ter bases sólidas e amplas (ex.: matemática, gestão, engenharia), permitindo aprofundar mais tarde. Poderá também, de modo prudente, considerar a "imunidade” à automação e digitalização – isto é, até que ponto as saídas profissionais dependerão de competências humanas e diferenciadoras.

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