O aventureiro norueguês que morreu a poucos metros do seu destino
Steffen Skjottelvik percorreu mais de 1000 km das pradarias selvagens do Canadá só com os seus cães. Escapou a ursos polares e apaixonou-se, mas a aventura acabou em tragédia. Agora, os pais vão fazer um filme com as 20 horas de vídeo que o filho captou.
Steffen Skjottelvik ansiava por viver no meio da natureza. Quando tinha 16 anos, o então adolescente norueguês, viveu durante uma semana sozinho com o seu cão a acampar na montanha mais próxima da sua casa, no interior da Noruega. Tinha sido assim desde criança, quando vivia na quinta remota dos avós, que nem água canalizada tinha.
Os seus ídolos eram os exploradores noruegueses, como Lars Monsen, que em 2018 prendeu aos ecrãs metade dos telespetadores do país para assistir em direto a caminhadas pelo território mais selvagem da Noruega. O jovem norueguês ainda pensou ser eletricista e chegou a trabalhar como bombeiro, mas o sonho era ser explorador.
Para isso, em 2015, aos 20 anos, adquiriu um cachorro de malamute-do-Alasca, uma raça criada para carregar cargas em trenós pelos indígenas do Alasca, a que chamou Togo. Depois, comprou outros dois, huskies, Sila e Kasin, de criadores e campeões de corridas de trenó com cães, uma modalidade popular no país. O seu plano era atravessar o território ártico da Rússia - a Noruega não era selvagem suficiente para ele. Mas quando o Kremlin invadiu a Ucrânia, em 2022, Steffen Skjottelvik virou-se para o Canadá.
Na primavera de 2023, voou para a Timmins, no norte da província canadiana de Ontário, e pernoitou com dois pilotos de corridas de trenó que conheceu online. Foram eles que criaram a página no Facebook, Steffen's Great Canadian Journey (a grande viagem canadiana de Steffen, em português) onde pediam a quem se cruzasse com o norueguês que publicassem posts ou fotos.
Ali teve de comprar mais dois huskies para ajudar a puxar o trenó que o transportava e os seus mantimentos. Pelo caminho, Steffen Skjottelvik começou a fazer vídeos em inglês. Contava como passavam por rios gelados e filmava-se sentado, junto dos cães, à volta da fogueira a cantar. “Estou tão sozinho que começo a falar comigo mesmo. Isso é saudável, falar comigo mesmo quando estou tão isolado”, diz, num dos vídeos, segundo o The New York Times.
Noutro vídeo, Steffen surge a partir ramos para acender uma fogueira quando ouve um ruído entre uns arbustos. Os cães levantam-se em alerta, ávidos para caçar. Mas o norueguês diz com calma: “Sentados.” E a matilha obedece. Os lobos constituíam um dos perigos da viagem. Também falava sobre os ursos polares que via ao longe e sobre as camadas de gelo que se escondiam debaixo de água quando o nível de água dos rios baixava.
Durante a viagem, Sila e Togo acasalaram. Mas depois a cadela husky adoeceu e, sem hesitar, Steffen suspendeu a viagem e pediu ajuda: com o seu comunicador por satélite inReach telefonou para a vila mais próxima, Peawanuck, e os serviços de socorro enviaram o helicóptero.
Na vila indígena do povo Cree, com menos de 250 habitantes, Steffen e os cães montaram acampamento numa pequena ilhota, onde os animais podiam andar sem trela. Os locais começaram por estranhar a intenção do jovem. “Eu pensei que ele estava a fugir à justiça”, diz Bobby Hunter, um dos habitantes.
Mas receberam-no de braços abertos quando perceberam que Steffen só queria caçar renas e andar de trenó com os seus cães. Entretanto Sila, a cadela husky, recuperou e pariu uma cria, que Steffen batizou de Bay. Pouco depois, o norueguês apaixonou-se por uma indígena, Lilyann Mack, e criou uma amizade com uma anciã que o ensinou alguns dos segredos da tribo como identificar plantas medicinais e fumar peixe. Enamorado com o estilo de vida indígena, permaneceu até junho de 2025, começou a aprender a língua Cree e decidiu que era ali que queria viver.
Ainda assim, Steffen quis concluir os 480 km que faltavam para concluir a viagem que planeara. Quando um dos seus huskies, Kasin, foi morto por lobos em Peawanuck, decidiu fazer o percurso de canoa e durante o verão. Isto, apesar dos indígenas o terem avisado que a viagem seria mais perigosa: era nos meses mais quentes que os ursos polares se aproximavam do rio e quando o nível de água deste subia devido às marés.
O aventureiro partiu em junho de 2025 de canoa por um dos afluentes do rio Hudson, com os seus cães, Togo e Bay. O objetivo era chegar a York Factory, um antigo entreposto de comércio de peles, hoje transformado em museu. Mas a viagem foi mais dura o que o norueguês tinha previsto. Quando a maré subia, seguia de canoa, quando a maré baixava puxava a canoa com uma corda atada à cintura. Dormia na margem molhada, sobre uma pele de rena, sempre com uma espingarda ao seu lado: havia dias em que se cruzava ao longe com cinco ursos polares. Um dia, Togo correu atrás de um. “ “Bom rapaz, Togo! Afugentaste o urso polar! Mas não fiques convencido. Respeito!”, diz num dos vídeos.
Quando chegou à vila Fort Severn, celebrou o seu 29º aniversário com um casal que o acolheu, e continuou sem a canoa. Durante dias tentou manter-se longe da costa e dos ursos polares, mas percorrer os pântanos, cheios de mosquitos, era ainda mais difícil e regressou à costa do Hudson. Numa noite, a sua cadela Bay, que gostava de desaparecer por horas, não regressou. Teria sido morta pelos lobos, que uivavam à noite, disse Steffen, num dos vídeos.
A poucos quilómetros do destino, York Factory, ele e Togo tentaram atravessar um afluente do Hudson, o rio Hayes, mas a corrente era muito forte e, depois de serem arrastado, Steffen desistiu. Voltou a tentar mais adiante, quando avistou o antigo entreposto de peles do outro lado da margem. “Conseguimos Togo!”, disse para a câmara, instantes antes de entrar na água, a 14 de agosto de 2025. O caudal do rio estava cheio. Teria sido mais seguro esperar algumas horas e atravessar com a maré baixa, mas o norueguês estava ansioso por chegar e entrou no rio.
Togo conseguiu alcançar a outra margem e ficou horas sentado à espera de Steffen, segundo funcionários do antigo entreposto. Mas o norueguês nunca chegou a sair da água. O seu corpo foi resgatado dez dias depois, a três quilómetros de distância. Nele encontraram o cartão de memória da câmara com os vídeos de Steffen.
A notícia abalou a família. Mas os pais, Gry e Atle Lauritzen, decidiram construir algo novo com a perda. Os vídeos vão ser usadas num documentário, está a ser preparado um livro sobre a viagem e criaram um fundação para homenagear o filho. A Steffen of Norway Foundation (fundação Steffen da Noruega) tem a missão de unir a Noruega, a natureza e as Primeiras Nações, um das etnias indígenas do Canadá. “Algo acabou no rio Hayes, mas outra coisa também começou”, diz o diretor executivo da fundação, Christian Dyresen. Em julho, os pais viajaram até Peawanuck, para celebrar aquele que seria o 30 º aniversário de Steffen. A vila celebrava os 40 anos da sua fundação e tinha erguido um memorial para o norueguês.