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Acampada pela habitação não é única, mas violência policial é quase inédita

Débora Calheiros Lourenço 22 de outubro de 2026 às 16:05

Nos últimos 15 anos vários grupos fizeram acampadas - a maior parte das quais de curta duração - para protestar melhores condições. A PSP raramente retirou as tendas.

Centenas de manifestantes juntaram-se nas últimas semanas em algumas das maiores praças do País para exigir melhores condições de habitação: rendas mais baixas, casas mais baratas e melhores condições de vida no geral. Muitos desses manifestantes decidiram acampar tanto na Praça D. Pedro IV, no Rossio, em Lisboa, como na Praça Dom João I, no Porto. Por duas vezes a PSP recorreu à força para desmontar esses acampamentos, citando a lei que proíbe ajuntamentos em espaços abertos depois da 0h30 (uma lei que é ainda anterior à Constituição). Mas há várias situações recentes em que a Polícia de Segurança Pública decidiu não exercer . 

Manifestantes protestam pelo direito à habitação, na Praça do Rossio, MIGUEL A. LOPES / EPA

Maio de 2011: acampada no Rossio aquando da chegada da troika

Conhecida como a Acampada de Lisboa, foi um marco histórico da contestação em Portugal devido ao momento vivido no País depois da chegada da troika e anúncio de severas medidas de autoridade.  

Esta manifestação foi inspirada pelo movimento espanhol 15-M dos Indignados da Puerta del Sol e movida pelo lema "Democracia Verdadeira Já!". Nesta altura realizavam-se, tal como nas manifestações atuais, assembleias abertas onde qualquer pessoa podia expressar a sua indignação e propor alternativas políticas, económicas e sociais.  

A acampada durou cerca de duas semanas, durante as quais se mantiveram cerca de 100 manifestantes acampados, e a 4 de junho de 2011 – poucos dias antes das eleições antecipadas – a PSP interveio retirando tendas, cartazes e materiais do local, numa operação que originou confrontos e a detenção de três ativistas.  

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Acampada 2011
Foto: João Miguel Rodrigues/ Medialivre
Acampada 2011
Foto: João Miguel Rodrigues/ Medialivre
Acampada 2011
Foto: João Miguel Rodrigues/ Medialivre

Setembro de 2018: estudantes deslocados exigem mais quartos

Nos dias 24 e 25 de setembro de 2018 a Federação Académica do Porto montou um protesto na Praça Gomes Teixeira – em frente à Reitoria da Universidade do Porto – no qual participaram dezenas de estudantes.  

Os estudantes montaram tendas para exigir soluções urgentes para a crise do alojamento estudantil e o aumento drástico no preço dos quartos. Não foram retirados do espaço público.

Outubro de 2020: JSD protesta por falta de camas prometidas para estudantes

Em 2020 a Juventude Social-Democrata montou tendas em frente ao Ministério do Ensino Superior, em Lisboa. Numa altura em que o País se encontrava em plena pandemia, os membros da JSD alertaram para a falta de alojamento estudantil e a falta de respostas do governo de António Costa para o aumento de camas nas residências universitárias.  

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Acampada JSD
Foto: Pedro Catarino/ Medilivre
Acampada JSD
Foto: Pedro Catarino/ Medilivre

Nesta altura não houve ordem da PSP para os jovens dispersarem, para a retirada de tendas ou carga policial. Esta acampada durou apenas uma noite.  

Novembro de 2020: empresários da restauração acampam junto à Assembleia da República e no Porto

Em plena pandemia, um grupo de empresários da restauração passou sete dias em frente à Assembleia da República, em greve de fome e a dormir em tendas improvisadas.

Os manifestantes pediam apoios para o setor, praticamente parado devido à covid-19. Desmobilizaram pacificamente depois de uma reunião com Fernando Medina, à altura ministro das Finanças.

Abril de 2023: professores realizam uma acampada

Dezenas de professores realizaram um protesto em forma de acampamento em Lisboa, organizado pelo sindicato STOP, para exigir a recuperação integral do tempo de serviço congelado e melhores condições de carreira. A contestação começou na tarde de 24 de abril de 2023, com a montagem de cerca de 30 tendas na Praça do Rossio e, apesar de estar planeada para terminar apenas a 1 de maio, terminou a 26 de abrir devido à imposição de serviços mínimos para as greves do setor.  

Setembro 2024: bombeiros montam tenda de protesto junto à Câmara Municipal do Porto

Os bombeiros sapadores do Porto protagonizaram a acampada mais longa, tendo permanecido uma tenda durante 42 noites na Praça General Humberto Delgado, em frente à Câmara Municipal do Porto.  

Este protesto serviu para reivindicar a valorização da carreira de sapador, a atualização salarial e a revisão da idade de reforma para a profissão. Na altura o protesto contou com a solidariedade e o reconhecimento da legalidade do mesmo por várias forças políticas e da autarquia.   

A acampada iniciou depois de uma vigília a 7 de setembro de 2024 e terminou já na segunda metade do mês de outubro. Terminou de forma pacífica sem qualquer intervenção policial, a retirada da tenda coincidiu com uma evolução crucial nas negociações.  

Março de 2026: estudantes do Instituto Superior Técnico fazem acampada pela habitação estudantil

A 24 de março de 2026, estudantes do Instituto Superior Técnico montaram tendes à porta do campus do Instituto Superior Técnico de Lisboa para protestar contra a crise na habitação estudantil e os preços das rendas. A ação coincidiu com o Dia Nacional do Estudante e teve a duração de apenas uma noite, sem ter sido alvo de qualquer intervenção das forças de segurança.  

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