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Tiago Freitas Analista em Assuntos Europeus
06.02.2026

O menos mau!

Seguro poderá entrar para a história não como o melhor, mas como o menos mau. E, nestes tempos, isso parece bastar.

Entre 1990 e 1994 coincidiram, nos respetivos cargos de juventude partidária, dois jovens que não poderiam ser mais diferentes: o presidente da JSD e o secretário-geral da JS. Um deles irradiava carisma, tinha enorme capacidade retórica, um ar moderno e descontraído,  lembramo-nos bem das suas intervenções na Assembleia da República de camisola de algodão ou camisa de verão, algo quase revolucionário na época,  e uma presença de galã que contrastava com o cinzentismo político dominante. Colocou-se repetidamente contra o seu próprio partido, então no Governo pela mão de Cavaco Silva, liderando lutas contra as propinas, contra a PGA, e promovendo campanhas de consciencialização para o uso do preservativo num país ainda profundamente conservador e mergulhado na crise do VIH/SIDA.

Chegou a ser visto, por muitos comentadores, como o verdadeiro líder da oposição, num tempo em que essa função era formalmente ocupada pelo enfadonho Jorge Sampaio ou pelo ainda hesitante António Guterres, no seu primeiro ano à frente do PS, mais em competição com Mário Soares, então Presidente da República, do que verdadeiramente alternativa ao Governo do PSD. Esse jovem líder carismático chamava-se Pedro Passos Coelho.

O outro era o seu exato oposto: discreto, prudente, cinzento. Tinha, em teoria, todas as condições para cavalgar o desgaste de uma governação laranja longa e já claramente fatigada. Mas não descolava nem entusiasmava, permitindo que as Associações de Estudantes fossem capturadas pela extrema esquerda que antecedeu o Bloco, chamada de PSR.  Chamava-se António José Seguro.

A vida, porém, gosta de ironias.

Já que citei o homem, é curioso observar, hoje, o processo de reescrita da história e de higienização da imagem de Jorge Sampaio,  um Presidente que foi, objetivamente, fraco. Sustentou uma maioria parlamentar obtida por trocas indignas (quem não se lembra do queijo limiano?), esticou até ao limite do admissível um Governo politicamente apodrecido como o de António Guterres e, segundo escutas conhecidas, imiscuiu-se no poder judicial no escândalo Casa Pia, tentando evitar que o caso viesse a público, alegadamente para proteger o seu partido, esquecendo o juramento de equidistância e defesa de todos os portugueses.

Foi também o Presidente que demitiu um Governo com maioria absoluta na Assembleia da República pelo pecado original da exoneração de um Ministro do Desporto,  algo que nem Marcelo Rebelo de Sousa, o rei das dissoluções, ousou fazer. Entrou assim para a história como o homem que abriu as portas aos seis anos inacreditáveis e infames do consulado de José Sócrates.

Pedro e António voltariam a cruzar-se na primeira metade da década passada. Mais uma vez, Pedro como o homem do confronto duro, liderando o país para fora do Programa de Assistência Económica e Financeira e libertando-nos da tutela da troika. António, por seu lado, optou por uma oposição responsável, institucional, correta,  mas incapaz de capitalizar o descontentamento natural provocado pelas medidas duríssimas que Passos Coelho teve de aplicar.

Ficou para a história a “vitória poucachinha” nas eleições europeias, assim batizada por António Costa, que lhe colou definitivamente a aura de insegurança, hesitação e cinzentismo. Cavaco Silva, nas suas memórias, foi particularmente devastador para com Seguro.

E, no entanto, aqui estamos.

Seguro aproveitou a crise profunda em que mergulhou o Partido Socialista para se chegar à frente, beneficiando também do desdém e da sobranceria de várias figuras socialistas que se julgavam naturalmente presidenciáveis. À direita, a multiplicação de candidaturas fez o resto: António José Seguro chegou à segunda volta tendo como oponente um candidato que pretende, a partir de Belém, implodir o sistema e, muito provavelmente, a própria democracia.

Seguro, apesar das suas fragilidades evidentes, sempre foi um homem de sorte. Em 2026, volta a beneficiar de uma tempestade perfeita,  desta vez para alcançar o mais alto cargo da Nação.

Há poucas semanas preparava-me para escrever que Seguro era o candidato ideal precisamente pela ausência de polémicas, pela honorabilidade que transmite, pela moderação e pelo perfil institucional,  todas qualidades tipicamente presidenciáveis. Até ao momento em que abre a boca para opinar sobre um tema concreto e percebemos duas coisas: que é socialista e que, pior ainda, não tem verdadeiramente uma ideia estruturada sobre esse tema.

Estas eleições presidenciais ficarão na história pela fraquíssima qualidade do elenco de candidatos. E António José Seguro arrisca-se a vencer não por mérito próprio, mas por comparação.

Na política, como na vida, a ironia é implacável. O homem visto durante décadas como hesitante, sem chama, sem brilho e sem carisma, conseguiu liderar a Juventude Socialista, foi secretário-geral do PS e está agora prestes a tornar-se Presidente da República.

Seguro poderá entrar para a história não como o melhor,  mas como o menos mau. E, nestes tempos, isso parece bastar.

No Domingo passado, em voto antecipado, “engoli o sapo”, “tapei o rosto”… e votei nele, obviamente

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