A beleza de matar comunistas
Se alguém publicasse um livro, uma peça de teatro, com esta formulação, seria imediatamente acusado de incitamento ao ódio. Já a inversão, “matar fascistas”, encontra, demasiadas vezes, complacência cultural.
Calma amigos, não me cancelem já. Não há beleza em matar comunistas, como não há beleza em matar fascistas, moderados ou indiferentes. Matar é o grau zero da civilização. Mesmo em legítima defesa, deixa marcas. E quem não as sente devia inquietar-se com isso.
O título provoca porque expõe um duplo padrão. Se alguém publicasse um livro, uma peça de teatro, com esta formulação, seria imediatamente acusado de incitamento ao ódio. Já a inversão, “matar fascistas”, encontra, demasiadas vezes, complacência cultural. A peça de Tiago Rodrigues nasce desse terreno: o de uma sociedade onde o rótulo “fascista”, ou “extrema-direita”, funciona como licença moral para suspender o escrutínio. Catarina, a protagonista da peça a que me refiro, rompe com esse conforto. E é aí que a peça acerta: quando nos obriga a olhar para o abismo criado pela desumanização do outro.
Mas uns e outros, os extremistas de ambos os lados, têm dificuldade em percebê-lo. Houve inclusive agressões associadas à dita peça. Em Milão, grupos de extrema-direita tentaram impedir que a peça estreasse por preguiçosamente concluírem do título que defendia a morte de fascistas. Na Alemanha, público de extrema-esquerda invadiu o palco, no final da peça, para agredir e insultar atores, nomeadamente o que interpretava o papel de fascista, e realizava um monologo pesado. Claramente, além de extremistas, não perceberam o sentido da narrativa. Foram ao engano.
Esse mecanismo não vive apenas na ficção. Está no comentário mediático, na linguagem política e na forma como se enquadram vítimas e agressores. Quando um conservador é atacado, a narrativa tende a “explicar” a violência com o rótulo prévio: " Fascista de extrema-direita". Veja-se o caso de Charlie Kirk: ativista conservador, com posições polémicas, mas assumidamente contrário à violência política e cultor do debate. Morreu no ato. Ou o de Quentin Deranque, morto à paulada em França, à margem de um protesto ligado a um evento de Rima Hassan, eurodeputada frequentemente celebrada por setores da esquerda europeia. É só ver o Instagram de Catarina Martins e embevecer-se. A forma como certas notícias são redigidas é reveladora. Veja-se o caso do JN: " Quentin Deranque, de 23 anos, morreu no fim de semana após uma agressão na quinta-feira à margem de um protesto da extrema-direita contra um evento de uma política de esquerda[Rima Hassan ]numa universidade de Lyon, no sudeste do país." Como se pode perceber, a vítima era de extrema-direita, os assassinos eram, singular e moderadamente, " de esquerda". Nada de extremismos de la gauche, portanto. Tudo justificado. Os agressores, se forem de esquerda, diluem-se numa vaga condição de “ativistas”. Não há simetria. Há uma construção.
Foi assim, também, no atentado à manifestação pró-vida, em que o arremesso de um cocktail molotov para cima de mães e crianças foi referido, bastas vezes, como um pequeno " incidente". Se são pró-vida são fachos, logicamente. Estavam a pedi-las!
Isto não é negar, nem minimizar, a violência da extrema-direita. Ela existe, tem história e vítimas. Mas a indulgência seletiva é igualmente perigosa. Rotular tudo à direita como “fascismo” e tudo à esquerda como “ativismo” não é análise: é propaganda. E serve um propósito claro, justificar, normalizar ou atenuar a violência quando esta parte “do lado certo”.
O paradoxo da tolerância de Karl Popper é frequentemente usado pela esquerda para legitimar esse salto. Popper avisou que uma sociedade não pode tolerar ilimitadamente a intolerância. Mas também estabeleceu limites claros: enquanto houver espaço para o debate racional, a supressão é imprudente. A força só se justifica quando há recusa do diálogo e recurso à violência. O que hoje vemos é o contrário: a rotulagem preventiva (“fascista”) elimina o debate à partida e abre a porta à censura e, em casos extremos, à agressão, tudo em nome da “defesa da democracia”. Tudo vindo do lado certo. Do lado bom.
A história recente da Europa devia impor mais prudência. Nos anos 70 e 80, organizações de extrema-esquerda, Brigadas Vermelhas, RAF, FP-25, Action Directe, deixaram centenas de mortos. Não eram “ativistas poéticos”; eram grupos que acreditavam que a violência era um instrumento legítimo de transformação política. A memória desses anos é muitas vezes tratada com uma leveza que não encontramos quando falamos de outras formas de extremismo.
Também em Portugal, a ideia de democracia nunca foi consensual para todos. Álvaro Cunhal afirmou claramente que não cairia na “armadilha da democracia burguesa”, recusando a centralidade das eleições e da representatividade. É um facto histórico que raramente recebe o mesmo escrutínio moral aplicado a figuras de outros quadrantes.
No plano institucional, a indignação seletiva repete-se. Critica-se hoje a quebra de entendimentos entre PS e PSD em matérias como o Tribunal Constitucional ou o Conselho de Estado, como se fosse uma ruptura inédita. Mas esquece-se 2015, quando António Costa rompeu o verdadeiro pacto do regime, construindo uma maioria parlamentar com a extrema-esquerda, e afastando um governo vencedor sem negociação. A memória política, como a mediática, também escolhe.
E o padrão estende-se ao plano internacional. Líderes como Javier Milei, na Argentina, ou Giorgia Meloni, em Itália, são frequentemente rotulados de “extrema-direita” como reflexo automático, independentemente da complexidade das suas políticas. Milei enfrenta décadas de peronismo e corrupção estrutural; Meloni governa dentro das regras europeias, afirmando posições conservadoras sem romper com alianças fundamentais. Tem sido, num certo sentido, a maior e melhor surpresa numa Europa órfã dos grandes estadistas e referências do passado, impondo-se a Trump na complexidade da intervenção no médio-oriente, sem colocar em causa os tratados que garantem a segurança da Europa e, por consequência, o modelo social europeu, recusando o amorfismo pateta de Macron, ou o radicalismo oportunista de Sanchez. No liberal Milei e na conservadora Meloni, rótulo de " extrema-direita" serve, mais uma vez, para simplificar, e para excluir.
No fim de contas, caros amigos, de esquerda ou de direita, extremistas ou moderados, o Estado, numa democracia, não pode colocar-se no lugar do assassino. Não pode matar, como sucede na pena de morte, e é lamentável a sua aplicação, ainda mais sectária, em Israel, nem pode, por ação ou omissão, tolerar ou suavizar o assassinato quando este serve causas ideológicas próximas. Se o fizer, abdica da sua superioridade moral e confunde-se com aquilo que deve combater. A justiça democrática não é vingança, é limite: protege a vida, pune o crime e preserva sempre a possibilidade de reabilitação. Quando o Estado cede à tentação de escolher quais vidas merecem ser defendidas com mais ou menos zelo, deixa de ser árbitro para se tornar parte, e é nesse momento que a própria democracia começa a ruir.
No fim, a questão é simples: matar é a suspensão da democracia. E justificar a morte, direta ou indiretamente, começa sempre por desumanizar. Quando a linguagem prepara o terreno para a violência, a sociedade já começou a perder. Não há beleza nisso. Há apenas o perigo de nos tornarmos naquilo que dizemos combater.
A beleza de matar comunistas
Se alguém publicasse um livro, uma peça de teatro, com esta formulação, seria imediatamente acusado de incitamento ao ódio. Já a inversão, “matar fascistas”, encontra, demasiadas vezes, complacência cultural.
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