Secções
Entrar
Pedro Proença Advogado
20.02.2026

Racismo não é um “mind game”

Em estruturas como o SL Benfica, o Sporting ou o FC Porto, não existem “atos individuais”. Tudo é institucional. Para o bem e para o mal.

Há dias, a propósito de um episódio lamentável envolvendo um assessor de comunicação de uma grande instituição desportiva que agrediu e ameaçou um jornalista do Correio da Manhã, afirmei na antena do Canal NOW que, em estruturas como o SL Benfica, o Sporting ou o FC Porto, não existem “atos individuais”. Tudo é institucional. Para o bem e para o mal.

Quando alguém ocupa um cargo de responsabilidade numa estrutura desta dimensão, não fala, não age, não reage apenas em nome próprio. Age em nome de uma marca global, de milhões de adeptos, de uma história centenária e de um património simbólico que transcende o resultado de um jogo. A inteligência emocional e a distinção não são qualidades opcionais. São obrigações funcionais.

Essa responsabilidade é ainda maior quando se trata de alguém que já foi jornalista e que, como assessor, deveria funcionar como mediador das tensões naturais entre um clube com gigantesco peso mediático e a comunicação social. O que se espera é contenção, equilíbrio, capacidade de descompressão. Não o contrário.

O resultado da perversão desse papel foi imediato. A escalada da animosidade de adeptos contra jornalistas do Correio da Manhã e do Record, culminando em mais um episódio grave de agressões e ameaças após o jogo entre o SL Benfica e o Real Madrid. Quando quem deveria baixar a temperatura decide incendiá-la, as consequências não tardam.

Mas, como se não bastasse, o próprio jogo ficou marcado por um alegado episódio de racismo envolvendo um jogador do Benfica e uma das maiores estrelas do adversário, obrigando o árbitro a interromper a partida e a acionar o protocolo da UEFA contra o racismo. Não cabe aqui fazer qualquer juízo probatório. Compete à UEFA investigar e decidir. Mas cabe analisar o que foi público, visível e comunicacionalmente devastador.

E aí entra José Mourinho.

Não fosse tratar-se de Mourinho, talvez a surpresa fosse maior. Ver o treinador do Benfica invadir o espaço do Real Madrid, interagindo diretamente com jogadores adversários como se integrasse o seu próprio “staff”, foi um momento desconcertante. Muitos perguntaram: por que razão o treinador do Benfica assumiu aquele papel quase paternalista junto dos jogadores adversários em vez de concentrar a sua atenção no estado emocional dos seus próprios atletas?

A explicação veio depois: Mourinho afirmou ter ido explicar a Vinicius Júnior que aquele era o clube de Eusébio e que, por isso, não havia ali racismo. A intenção poderá ter sido nobre. Mas a questão não é essa. A questão é funcional.

Num clube com a dimensão e a profissionalização do SL Benfica, existe uma estrutura de comunicação, existem dirigentes, existem canais formais. O treinador não é, nem deve ser, o porta-voz institucional para gerir crises reputacionais de dimensão internacional. Muito menos num palco global como um jogo da Champions League frente ao Real Madrid.

A confusão funcional agravou-se na conferência de imprensa. Sem preparação visível, sem coordenação aparente com a estrutura comunicacional do clube, Mourinho optou por justificar o sucedido com alegadas provocações do jogador visado. A mensagem que passou foi perigosíssima: a de que comportamentos inadequados e racistas podem ser enquadrados como reação compreensível a provocações.

Num contexto de suspeita de racismo, essa nuance é fatal. O racismo nunca se justifica: COMBATE-SE!

Ficou ainda por esclarecer como é que um treinador tão experiente e que se afirmou conhecedor daquilo que apontou como sendo as “manhas” provocatórias de Vinicius Jr., não preparou os seus jogadores para esse cenário, proibindo qualquer interação dos mesmos com a estrela do Real Madrid de forma a evitar qualquer distúrbio.

Mais do que uma falha tática, foi também um erro estratégico. E, sobretudo, institucional.

José Mourinho construiu parte da sua carreira sobre a provocação comunicacional, sobre os “mind game” permanentes, sobre a teatralização de cada gesto no banco, de cada olhar, de cada frase. Foi eficaz durante anos. Mas também gerou polémicas sucessivas, conflitos internos, expulsões, despedimentos e desgaste reputacional.

O problema é que esse modelo exige uma coisa essencial: que o treinador seja maior do que o contexto. Maior do que o clube, maior do que a estrutura, maior do que a própria narrativa institucional. Para que cada gesto seja evento, cada palavra manchete, cada conferência um espetáculo, é preciso que tudo o resto desapareça.

Ora, num clube com a grandeza do Benfica, isso é estruturalmente insustentável.

Quando o treinador se assume, de facto, como líder solitário da comunicação externa, anulando direção e assessores, o resultado é previsível. Protagonismo exacerbado, tensão permanente, conflituosidade interna e externa, perturbação do ambiente competitivo. E, inevitavelmente, erosão de valor, desportivo e de mercado.

A conferência de imprensa após o jogo com o Real Madrid foi, nesse sentido, um dos momentos mais tristes da história do clube e de uma carreira extraordinária. Não pelo talento, que ninguém discute, mas pela incapacidade de reconhecer limites institucionais. Ao agir como se pudesse falar por todos, sobre tudo, e justificar o injustificável no calor do momento, Mourinho colocou-se e colocou o clube, sob uma tempestade global.

As instituições não podem ser reféns do temperamento dos seus treinadores. Nem podem permitir que a comunicação estratégica seja substituída por egos e impulsos individuais, por mais carismáticos que sejam.

No presente, a responsabilidade é da direção do SL Benfica. Cabe-lhe afirmar, de forma clara e inequívoca, que nenhum treinador, por mais títulos que tenha, é maior do que o clube. Que a marca Benfica é superior a qualquer personalidade. E que, num palco mundial, a contenção e a responsabilidade institucional são tão importantes quanto a tática ou o sistema de jogo.

Porque, numa superestrutura profissional, não há atos individuais. Há sempre consequências institucionais e certamente que não há, nem pode haver, espaço para o racismo.

Mais crónicas do autor
20 de fevereiro de 2026 às 07:00

Racismo não é um “mind game”

Em estruturas como o SL Benfica, o Sporting ou o FC Porto, não existem “atos individuais”. Tudo é institucional. Para o bem e para o mal.

06 de fevereiro de 2026 às 07:00

Quando a água sobe e a responsabilidade afunda

Os fenómenos meteorológicos adversos que atingiram o país não foram um capricho súbito da natureza. Foram previstos, anunciados, estudados e reiteradamente comunicados por entidades científicas e meteorológicas.

16 de janeiro de 2026 às 07:00

A Ilustre Casa de Belém

Talvez sem o querer, Marcelo fez de Gonçalo Mendes Ramires, esse fidalgo hesitante, mais enamorado da retórica do que da ação, um espelho involuntário do seu próprio percurso presidencial.

02 de janeiro de 2026 às 07:00

2026: Tecnologia de ponta, mentalidades medievais

Os momentos mais perigosos da História não são aqueles em que tudo colapsa, mas aqueles em que todos fingem que nada está a mudar. Em 1026, ninguém previa a avalanche de transformações que se seguiria.

12 de dezembro de 2025 às 07:00

Greve geral: Quando o direito dos outros entra pela nossa casa dentro

Uns pais revoltavam-se porque a greve geral deixou os filhos sem aulas. Outros defendiam que a greve é um direito constitucional. Percebi que estávamos a debater um dos pilares mais sensíveis das democracias modernas: o conflito entre direitos fundamentais.

Mostrar mais crónicas
Descubra as
Edições do Dia
Publicamos para si, em três periodos distintos do dia, o melhor da atualidade nacional e internacional. Os artigos das Edições do Dia estão ordenados cronologicamente aqui , para que não perca nada do melhor que a SÁBADO prepara para si. Pode também navegar nas edições anteriores, do dia ou da semana.
Boas leituras!