Quando o frio se torna arma: o que os ataques aos frigoríficos dos supermercados nos ensinam
As medidas corretivas imediatas são claras e vêm da autoridade francesa. A primeira é retirar da Internet os equipamentos afetados e todos os que estejam acessíveis a partir de um endereço público; depois, o acesso só deve regressar através de uma VPN ou de uma rede protegida. Repor os valores de fábrica não chega.
Na madrugada de 11 para 12 de outubro, centenas de supermercados franceses acordaram com as arcas transformadas em fornos. Os atacantes sabotaram a infraestrutura física e ativaram os ciclos de descongelação automática, obrigando os sistemas frigoríficos a subir a temperatura até aos 50 graus durante quase seis horas. Pelo menos 300 lojas Intermarché e Netto, menos de uma centena da Coopérative U, várias do grupo E.Leclerc, 80 supermercados Carrefour e cerca de trinta Monoprix foram afetados. O presidente executivo do Intermarché estimou perdas de dezenas de milhões de euros num único dia, e o Ministério Público de Paris referiu alarmes de incêndio e princípios de incêndio comunicados pelas lojas. Não foram roubados dados, nem houve pedido de resgate. Tratou-se de sabotagem pura de um processo físico.
Três semanas depois, o padrão repetiu-se à escala continental. Na noite de 1 para 2 de novembro, os sistemas de refrigeração de supermercados e lojas em sete países europeus (Bélgica, Luxemburgo, Suécia, Irlanda, Países Baixos, Estónia e Finlândia) foram adulterados remotamente. Só na Bélgica, ficou claro que pelo menos 76 lojas alimentares foram atingidas, e na Irlanda o ataque chegou a 13 supermercados da cadeia SuperValu. Portugal não ficou de fora: o Grupo Mosqueteiros confirmou ocorrências em sete lojas Intermarché, num ataque que terá visado um prestador de serviços externo responsável pela gestão dos sistemas de refrigeração. A empresa garante que os alimentos não foram afetados e que se mantêm asseguradas as condições de higiene e segurança alimentar. Um porta-voz da Danfoss, fabricante dinamarquês de sistemas de refrigeração, confirmou que os incidentes europeus envolveram os seus produtos, tal como em França, e nenhum grupo reivindicou o ataque.
Para perceber como isto acontece, convém olhar para a arquitetura de um supermercado moderno. Cada vitrine refrigerada e cada câmara de frio tem um controlador local, e todos respondem a um gestor central. Os controladores Danfoss AK-SM são o cérebro das centrais de frio dos supermercados: gerem compressores, ciclos de descongelação, alarmes e registo de temperaturas das vitrines de carne, lacticínios e congelados. Este gestor tem uma interface web para que o técnico de frio possa ajustar parâmetros e diagnosticar avarias sem se deslocar à loja. É aqui que mora o problema. Quando essa interface fica acessível a partir da Internet, basta ao atacante entrar e alterar um parâmetro perfeitamente legítimo. A empresa belga Sabcobel confirmou que os atacantes colocaram os evaporadores em modo de descongelação, fazendo subir a temperatura. Não é preciso malware sofisticado: usa-se a própria função de descongelação, com resistências elétricas e tudo, contra o equipamento.
A porta de entrada tem nomes e versões. A Danfoss disse à AFP que a maioria das unidades atingidas eram produtos antigos sem atualizações de software ou de segurança, nomeando o AK-SM 800 e o AK-SC 355, sendo que o AK-SM 800 está em fim de vida desde maio de 2021. Em paralelo, a investigação da Claroty já tinha soado o alarme: a Team82 encontrou um mecanismo de autenticação oculto no AK-SM 800A que aceitava um código gerado a partir da data corrente do equipamento, contornando a palavra-passe do administrador (CVE-2025-41450), a que se somava a CVE-2025-41451, que permite injeção de comandos através da configuração de email do controlador. Há também relatos de que muitas arcas pareciam funcionar com a palavra-passe de origem. A exposição era enorme: o investigador Baptiste Robert encontrou 2752 sistemas Danfoss expostos online, 1590 dos quais em França. E o problema não é de um só fabricante, já que a 13 de outubro o CERT-FR alargou o alerta aos controladores Copeland XWEB e Dixell XWEB. Por rigor, sublinho que o alerta oficial não aponta nenhuma vulnerabilidade concreta nem explica como os atacantes entraram; credenciais de origem, equipamentos sem suporte e falhas publicadas são, por agora, hipóteses compatíveis, não conclusões.
Este caso junta, num só episódio, três fragilidades que conheço bem de trinta anos de terreno. A primeira é a convergência entre informática e tecnologia operacional: equipamentos industriais pensados para durar quinze anos ligados a uma Internet onde as vulnerabilidades duram dias. A segunda é o risco de terceiros, porque em Portugal o vetor apontado foi precisamente um prestador externo de manutenção, e quem tem acesso remoto a centenas de lojas torna-se um alvo de enorme valor. A terceira é a ausência de dono: ninguém sabe ao certo se cabe ao retalhista, ao frigorista ou ao fabricante atualizar, isolar ou substituir o controlador. Do ponto de vista jurídico, convém lembrar que a produção, transformação e distribuição alimentar figura entre os setores abrangidos pela Diretiva NIS2, transposta em Portugal pelo Decreto-Lei n.º 125/2025, o que significa que a gestão de riscos da cadeia de abastecimento e dos fornecedores deixou de ser opcional para as grandes cadeias.
As medidas corretivas imediatas são claras e vêm da autoridade francesa. A primeira é retirar da Internet os equipamentos afetados e todos os que estejam acessíveis a partir de um endereço público; depois, o acesso só deve regressar através de uma VPN ou de uma rede protegida. Repor os valores de fábrica não chega. Todas as credenciais de origem e partilhadas têm de ser substituídas, os AK-SM 800A devem ser atualizados (a Danfoss corrigiu as três vulnerabilidades no firmware R4.3.1, e a partir da versão 4.0 a opção Strict Session Control vem ativa por omissão e torna o HTTPS obrigatório), e os modelos em fim de vida devem ser substituídos, não remendados.
No plano estrutural, recomendo cinco linhas de trabalho, todas exequíveis. Começar por um inventário rigoroso dos ativos de tecnologia operacional e por uma monitorização contínua da superfície exposta, pesquisando a própria organização em motores como o Shodan antes que outros o façam. Segmentar a rede segundo o modelo de zonas e condutas da norma IEC 62443, afastando os controladores de frio da rede da loja e da Internet. Gerir o acesso remoto dos fornecedores através de um ponto de salto único, com autenticação multifator, acesso concedido apenas na janela de intervenção e gravação das sessões, e incluir estas exigências nos contratos de manutenção. Registar e alertar sobre alterações de parâmetros críticos, como pontos de regulação e ciclos de descongelação, enviando os alertas para um sistema independente do próprio controlador. E, talvez o mais importante, introduzir salvaguardas físicas que nenhum software consiga anular: sensores de temperatura e registadores autónomos com alarme próprio, e termóstatos de segurança que cortem as resistências de descongelação acima de um limite. A cibersegurança industrial madura assenta neste princípio simples: quando o código falha, a física tem de travar.
A lição destes ataques ultrapassa as prateleiras vazias. Mostram que é possível causar perdas de milhões, desperdício alimentar e risco de incêndio sem tocar num único dado pessoal, apenas abusando de funções legítimas de equipamentos esquecidos na rede. O frigorífico de um supermercado deixou de ser um eletrodoméstico e passou a ser infraestrutura crítica da cadeia de abastecimento alimentar. Quem o gere tem de o tratar como tal: com inventário, com dono, com atualizações, com fornecedores auditados e com um plano de contingência para o frio, incluindo camiões frigoríficos já contratados. A próxima vaga não perguntará se estamos preparados.
Até para a semana.
Quando o frio se torna arma: o que os ataques aos frigoríficos dos supermercados nos ensinam
As medidas corretivas imediatas são claras e vêm da autoridade francesa. A primeira é retirar da Internet os equipamentos afetados e todos os que estejam acessíveis a partir de um endereço público; depois, o acesso só deve regressar através de uma VPN ou de uma rede protegida. Repor os valores de fábrica não chega.
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