Secções
Entrar
Paula Cordeiro Especialista em comunicação
16.03.2026

O insustentável preço (ou valor) da privacidade digital

Vamos falar das coisas de que ninguém quer saber mas que importam, muito?

A Meta, empresa que detém o Facebook, o Instagram e o WhatsApp, é uma estrutura tentacular. As suas plataformas estão interligadas e cruzam dados do mesmo utilizador, o que lhes permite construir uma visão quase total de cada pessoa que ali circula. Se a isso juntarmos os dados obtidos através do que publicamos e partilhamos, bem como dos logins que fazemos nessas plataformas, e em inúmeros sites e aplicações nos quais entramos com essas mesmas credenciais, facilmente percebemos a dimensão da ligação cruzada e da fonte quase inesgotável de informação que geramos. Informação que deveria ser privada, mas que é, inevitavelmente, usada com um fim comercial.

Todos já tivemos esta experiência: falar de um produto e, pouco depois, ver anúncios precisamente sobre esse tema. “Que coincidência”, pensamos. Depois clicamos uma vez e os anúncios repetem-se incessantemente, numa insistência quase infantil que tenta convencer-nos de que precisamos mesmo daquele produto. Não precisamos.

Facebook, Instagram e WhatsApp são hoje partes de um mesmo ecossistema de dados. E é nesse contexto que surge uma questão que passa despercebida à maioria dos utilizadores: a encriptação das mensagens no Instagram.

Mas porque importa?

A encriptação de ponta a ponta é um sistema de criptografia que protege o conteúdo das mensagens durante a sua transmissão, garantindo que apenas o emissor e o receptor conseguem lê-las. Nem governos, nem autoridades policiais, nem a própria plataforma conseguem aceder ao conteúdo dessas conversas.

No Instagram, essa funcionalidade existia mas foi por definição, opcional e difícil de encontrar. Para activar a encriptação era necessário percorrer vários níveis de menus, num processo pouco intuitivo para o utilizador comum. Como tantas vezes acontece nas plataformas digitais, as opções que protegem a privacidade estão escondidas em sucessivas camadas de configuração. A dificuldade em encontrar estas definições não é um detalhe técnico mas uma escolha de design que facilita a vida de quem recolhe dados ou seja, a própria plataforma.

Em vários fóruns de utilizadores, multiplicam-se relatos semelhantes: pessoas que tentam, ou tentaram, activar opções de segurança ou privacidade e simplesmente não conseguem encontrá-las. A funcionalidade existe, mas está enterrada num labirinto de menus. E isso diz muito sobre a forma como a privacidade é tratada na economia digital contemporânea.

A privacidade deixou de ser um valor diferenciador. Tornou-se uma moeda de troca. Algo que entregamos para poder usar determinados serviços e plataformas. Hoje, os dados são matéria-prima. Plataformas digitais como a Meta recolhem enormes quantidades de informação sobre comportamentos, preferências e interações. Esses dados são transformados em perfis detalhados que alimentam algoritmos de previsão e sistemas de segmentação publicitária. As tais coincidências sobre o que desejamos ou precisamos comprar.

A socióloga Shoshana Zuboff descreve este modelo como capitalismo de vigilância: um sistema económico no qual a extração e análise contínua de dados comportamentais se tornam a base do lucro no ambiente digital. Quanto mais dados existem, mais precisa se torna a publicidade. E mais dinheiro entra.

É por isso que decisões aparentemente técnicas, como a forma como as mensagens são protegidas ou como as opções de privacidade são apresentadas, têm implicações muito mais profundas. Sob o argumento legítimo de combater crimes graves, como a exploração sexual de menores ou outras atividades ilegais, abre-se também espaço para sistemas cada vez mais intrusivos de vigilância digital, sob o puritanismo de nos proteger da infâmia que (também) é a utilização destas plataformas com fins socialmente duvidosos.

Ignorar ou reagir? Podemos descarregar todas as nossas mensagens e pagar as conversas para que ninguém as veja ou… deixar andar. Partindo do princípio confortável de que não temos nada a esconder, raramente perguntamos quem beneficia realmente com a exposição dos nossos dados. A resposta é simples: quem os consegue transformar em lucro. E, nesse modelo económico, a privacidade vai sendo diluída, passo a passo, menu a menu, clique a clique, até deixar de parecer importante. Será que não é (mesmo) importante?

Mais crónicas do autor
16 de março de 2026 às 07:31

O insustentável preço (ou valor) da privacidade digital

Vamos falar das coisas de que ninguém quer saber mas que importam, muito?

09 de março de 2026 às 07:31

Entre o sucesso e a obediência: a insustentável dualidade da Geração Z

O estudo, feito com 23 mil pessoas em 29 países, incluindo Reino Unido, EUA, Brasil, Austrália e Índia, mostra diferenças geracionais claras nos papéis de género e um retrocesso na independência feminina.

02 de março de 2026 às 08:14

A insustentável responsabilidade de quem controla o mundo

O mundo virado, literalmente, do avesso e as redes sociais repletas de memes e piadas ao que está a acontecer. Faz-me lembrar um meme que diz que ‘a terapia ajuda mas fazer piadas com todas as desgraças que acontecem também é muito eficiente’.

23 de fevereiro de 2026 às 07:04

Punch: a doçura viral que expõe a insustentabilidade da empatia digital

Tal como os macacos, também rejeitamos sem razão. Afastamo-nos do que sentimos como diferente numa reacção primária, movida pelo medo de não pertencer, de não ser reconhecido, de ser excluído sem explicação.

16 de fevereiro de 2026 às 10:52

Da insustentável razão das redes sociais

Nós ainda sabemos e talvez consigamos reverter um contexto que se infiltrou de tal forma nas nossas vidas, mudando-as completamente. Se ainda não ouviram falar, Off February é a primeira iniciativa para desligar durante um mês.

Mostrar mais crónicas
Descubra as
Edições do Dia
Publicamos para si, em três periodos distintos do dia, o melhor da atualidade nacional e internacional. Os artigos das Edições do Dia estão ordenados cronologicamente aqui , para que não perca nada do melhor que a SÁBADO prepara para si. Pode também navegar nas edições anteriores, do dia ou da semana.
Boas leituras!