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Paula Cordeiro Especialista em comunicação
09.02.2026

Do insustentável falhanço social

Continuamos humanos, gregários, sociais, empáticos e ainda capazes de pensamento crítico (o resultado das eleições presidenciais é disso um bom exemplo) mas, para onde quer que olhemos multiplicam-se os exemplos e os relatos de como a tecnologia está a transformar a forma como vivemos e consequentemente as pessoas que (ainda) somos.

Passaram várias tempestades. Mesmo com a abstenção e que alguns não tenham conseguido votar, conseguimos eleger o Presidente. Outra tempestade aproxima-se mas a tempestade perfeita, a que resulta de uma combinação de factores, já está instalada. E embora tenha muito a ver com o estado do tempo não é aí que reside a sua essência.

A tempestade perfeita é a da tecnologia que nos suporta e vigia, que se serve de nós e nos molda comportamentos, que condiciona e manipula. A tecnologia, neutra na sua natureza, tornou-se aterradoramente complexa pela influência que exerce, individual e social, com impactos visíveis em múltiplos domínios do saber e do viver.

Continuamos humanos, gregários, sociais, empáticos e ainda capazes de pensamento crítico (o resultado das eleições presidenciais é disso um bom exemplo) mas, para onde quer que olhemos multiplicam-se os exemplos e os relatos de como a tecnologia está a transformar a forma como vivemos e consequentemente as pessoas que (ainda) somos.

Adoptamos porque é prático. Usamos porque todos usam. A digitalização da sociedade é também um compromisso tácito entre o que aceitamos e aquilo a que somos obrigados para permanecer integrados. E se assumir o papel de profeta da desgraça afasta mais do que aproxima, a verdade é que nos faltam ferramentas para conhecer e capacidade para compreender a estrutura rizomática e tentacular da sociedade digital.

Mergulhámos de cabeça. Agora boiamos sem saber quão fundo é este mar.

Cada telefone moderno que orgulhosamente ostentamos é uma ferramenta complexa, repleta de configurações que a maioria desconhece ou não compreende e às quais abdica de alterar para conseguir usar o dispositivo. Mas estes aparelhos são também um olho permanente, registam o que fazemos, como, onde e com quem. Basta uma troca de mensagens sobre um artista musical, o qual até nem gostamos, para que, horas depois, surja num feed qualquer. Instagram, por exemplo.

As aplicações comunicam entre si mesmo quando escolhemos “não rastrear”. A arquitectura dos dispositivos móveis permite essas ligações e utiliza tags para identificar e classificar produtos, comportamentos e acções, facilitando a entrega de publicidade, sobretudo quando as aplicações pertencem todas à mesma empresa.

Muitas das aplicações que temos instaladas podem aceder à câmara, ao microfone, à localização, aos contactos e às fotografias. Em alguns casos se recusarmos esse acesso a aplicação torna-se inútil. Esse acesso é também vigilância, tal como o Wi-Fi ou o Bluetooth, sinais emitidos e recebidos que permitem identificar o tipo de dispositivo, a localização e por vezes estabelecer ligações automáticas sem o nosso conhecimento ou consentimento.

Tudo isto enquanto disponibilizamos, com alegria, quase tudo sobre a nossa vida em plataformas digitais de acesso aberto porque alguém nos convenceu de que não somos nada ou ninguém se não formos “sociais”.

Em Espanha, Pedro Sánchez anunciou a intenção de proibir o acesso às redes sociais a menores de 16 anos e de responsabilizar legalmente os proprietários das plataformas pelos conteúdos difundidos. A verdade é simples: se conseguem criar um algoritmo que distribui ódio também será possível criarem um que distribua amor. Como afirmou o primeiro-ministro espanhol, as redes sociais ignoram as leis e toleram o crime. Nós não. Ou ainda não.

O problema é que quem controla a tecnologia controla também os utilizadores que querem continuar a usá-la independentemente do mal que lhes possa causar.

Fala-se de Estados falhados. Mas o que estamos a viver é um falhanço social insustentável.

Isto dá que pensar não dá?

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