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Mariana Moniz Psicóloga Clínica e Forense
06.06.2025

Os homens que não querem crescer

O nosso desenvolvimento individual ocorre faseada e progressivamente com o tempo. Não o devemos apressar, sob risco de perdermos experiências formativas e fundamentais para quem somos.

A hipersexualização e adultização da geração mais jovem tem sido alvo de crescente escrutínio e análise em consequência da deflagração das redes sociais e da sua influência numa comunidade de utilizadores cada vez mais jovem. Contudo, um fenómeno que tem ocorrido paralela e paradoxalmente ao do amadurecimento precoce dos mais novos está relacionado com a infantilização dos mais velhos, particularmente dos jovens adultos e adultos.

Quando falamos em infantilização de uma geração, não queremos com isto referir-nos a todos os jovens que ainda residem com pais enquanto adultos, porquanto reconhecemos que enfrentamos uma crise grave na habitação em Portugal, onde muitos salários não são suficientes para dar resposta às rendas exorbitantes que se exigem e que não são coerentes com um desejo de manter uma vida digna e, muito menos, de iniciar uma vida independente de qualidade ou de iniciar família. Referimo-nos, pois, a um fenómeno de base psicológica, ao modo como uma camada da nossa população aparentemente não consegue responder de forma autónoma às frustrações inerentes à vida adulta e à forma como, consequentemente, vai agir em sociedade.

Este é um fenómeno que, apesar de apenas recentemente ter ganhado reconhecimento público em Portugal, tem sido estudado internacionalmente desde os anos 70 e 80. Não é, portanto, um fenómeno unicamente consequente do nosso contexto cultural ou social atual. Contudo, determinados fatores sociais, desde as novas formas de levar a cabo a parentalidade às dificuldades em iniciar uma vida independente listadas acima, podem estar a contribuir para um aumento destas características em alguns jovens.

A esta ocorrência podemos atribuir diferentes nomes: há autores que se referem somente ao termo "infantilização", enquanto outros recorrem a outras terminologias mais populares e leigas, como a "síndrome de Peter Pan". Independentemente do termo atribuído, todos estes conceitos remetem para jovens adultos que usufruem das vantagens da vida adulta, enquanto evitam obrigações, deveres, emoções e, no fundo, as facetas mais difíceis deste estágio desenvolvimental. Consequentemente, observamos uma discrepância acentuada entre a idade e maturidade psicológica destas pessoas.

Como indicámos, o desenvolvimento deste tipo de funcionamento não depende meramente de fatores culturais ou sociais, mas antes de uma combinação de fatores individuais, sociais e familiares. A título de exemplo, reconhecemos que pais "helicóptero", isto é, que sentem ansiedade quando os filhos não estão com eles e que gerem microscopicamente todas as esferas da vida deles contribuem para uma menor independência e autonomia dos jovens.

Independentemente da sua origem, estes jovens tendem a manifestar determinadas características, designadamente:

1. Incapacidade de gerir emoções de forma adequada, o que leva a que irritação se expresse como ira ou alegria se expresse como histeria.

2. Falta de objetivos de vida claros ou procrastinação em tomar decisões sobre o futuro.

3. Incompetência social e dificuldade em estabelecer relacionamentos próximos.

4. Procura de estabelecer relações de amizade e relações amorosas com grupos de pessoas mais jovens e imaturas.

5. Incapacidade em aceitar a responsabilidade pelos seus erros.

6. Incapacidade de se tornarem emocional e socialmente independentes dos pais.

7. Em homens heterossexuais, a incapacidade de se envolverem romanticamente em relações ou de se vulnerabilizarem nestas, somada ao medo de rejeição que os leva, não raras vezes, a adotar atitudes críticas e rudes para com mulheres.

Tratam-se, assim, de sujeitos com traços personalísticos e comportamentais mais esperados em crianças do que em adultos, pautados por um hedonismo e egocentrismo acentuados e incapacidade de gerir emoções negativas. Não é, portanto, difícil reconhecer o quão perigoso pode ser expor este tipo de jovens imaturos a determinadas comunidades que validam e normalizam a sua imaturidade emocional, social e comportamental. Redes sociais e fóruns online vão desempenhar assim um papel central na fomentação destes padrões de funcionamento, dificultando o trabalho que pode ser feito junto destes indivíduos, para os ajudar a crescer.

Assistimos, portanto, a uma influência das novas tecnologias que pode ocorrer em duas direções: ou na direção da infantilização de algumas pessoas, ou na da hipersexualização e adultização de outras. Não é difícil notar que a infantilização tende a ocorrer mais nos rapazes e a adultização mais nas raparigas, o que indubitavelmente levanta questões relacionadas com papéis de género e com uma tendência machista para pensar na mulher enquanto objeto sexual e, contrariamente, no homem enquanto figura com o direito para agir livremente, com menores consequências.

O nosso desenvolvimento individual ocorre faseada e progressivamente com o tempo. Não o devemos apressar, sob risco de perdermos experiências formativas e fundamentais para quem somos, mas também não devemos ficar presos em fases da nossa vida que devem, inevitavelmente, passar. Algumas coisas na vida são bonitas porque passam, porque terminam e porque as vivemos. São preciosas porque agora permanecem apenas na nossa memória e, fundamentalmente, na pessoa em que nos vamos tornando, de dia para dia.

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