Secções
Entrar
João Paulo Batalha
08.10.2026

O povo é mansinho

Um país envelhecido, mais preocupado em manter o que tem do que em ter o que lhe falta, deixa-se ir na inércia.

Maricarmen não voltou a casa. A idosa de 87 anos despejada do apartamento onde vivia há 71, em Madrid, pelo fundo de investimento que havia comprado a habitação e lhe aumentou a renda em 276%, morreu ontem à noite no hospital onde estava internada desde o seu despejo. O seu caso, que parecia escrito por Dickens como caricatura da insensibilidade social dos tempos que correm, levantou um enorme movimento de protesto por toda a Espanha. O Governo tentou aprovar novas medidas de proteção dos inquilinos e, chumbado pelo Parlamento, segue para eleições antecipadas. Antes disso, vai haver uma greve geral pelo direito à habitação e quase um milhão de pessoas saiu à rua em manifestações por todo o país. Para Maricarmen, já foi tarde. O fundo de investimento que a despejou até já tinha concordado em deixá-la regressar à casa de sempre, mas o tempo da idosa esgotou-se na noite passada.

Ao lado, em França, manifestações de estudantes iniciadas há semanas contra a falta de professores e as más condições das escolas continuam a alastrar. Também com eleições no horizonte, os protestos estudantis tornaram-se palco para confrontos que misturam reivindicações legítimas e marchas pacíficas com radicalismos violentos e uma vontade de confrontar a polícia e o próprio Estado. O Governo vai tentando acertar a mão na resposta policial, debaixo de acusações de violência desproporcional, numa conflitualidade social dominada pelos extremos do espectro político. É difícil antever como as reivindicações legítimas dos estudantes de liceu serão atendidas, neste clima de todos contra todos.

Por cá, reina a paz dos anjos. Portugal está no topo europeu das subidas de preços do imobiliário, mas não temos greves gerais, nem manifestações, nem acampamentos de protesto nas praças da capital. Depois de uma época de exames desastrosa, fruto de uma inovação mal-amanhada e de improviso, para gastar dinheiro do PRR, houve alunos sem vaga nas escolas para o novo ano letivo e Governo e sindicatos não se entendem sequer nos números de estudantes que estão sem professor a pelo menos uma disciplina. Há escolas sobrelotadas e outras sem obras desde que a festa da Parque Escolar, nos tempos sombrios de Sócrates, acabou com derrapagens multimilionárias de custos e a interrupção dos investimentos. O acesso ao ensino superior é cada vez mais privilégio de quem tem berço e dinheiro, mas em Portugal não há barricadas, nem protestos, e a juventude vive em obediente sossego.

No nosso cantinho, as emergências nacionais – do acesso à habitação ao estado do ensino, passando pelo estado comatoso da Saúde e o aumento geral do custo de vida – esperam a sua vez no debate público. Ficam para depois de destrinçarmos o psicodrama da seleção nacional de futebol e de apurarmos se as cunhas ao ex-secretário de Estado da Saúde Lacerda Sales são, afinal, cunhas do bem ou do mal, a condenar ou a celebrar. É esta a nossa escala de prioridades.

Não tenho o menor entusiasmo em ver barricadas e cargas policiais nas ruas de Lisboa ou greves gerais pelo direito à habitação que tem sido, na prática, olimpicamente desprezado quer pela esquerda, quer pela direita – em Portugal como em Espanha e pela Europa fora. Os portugueses não gostam de manifestações nem de desordem pública; e menos ainda gostam de se comprometer com uma posição ou assumirem um confronto. Há sempre medo: de ânimos exaltados, de represálias, de se ficar com o nome numa lista negra, de ficar mal visto pelos vizinhos. José Gil sintetizou esta apatia na “não inscrição” dos portugueses, esse instinto muito nosso de nem carne nem peixe, de não assumimos posição até vermos onde param as modas.

O povo é sereno, e facilmente distraído com fumaça. Somos um dos países mais envelhecidos do mundo, o que seguramente ajuda a explicar esta inércia dormente, a falta de um sobressalto cívico. Mesmo que o garrote vá apertando, o instinto nacional é tentar ir protegendo o pouco que ainda temos, mais do que reivindicar tudo o que nos falta. Esse sangue-frio podia ser um ativo valioso, se nos desse para discutir os problemas a fundo, sem radicalismos, com dados em cima da mesa, para testar e desenvolver política pública que resolva (ou, pelo menos, que começasse a resolver) os problemas. Nem isso. Vivemos um silêncio pacato, agitado por discussões performativas entre políticos para consumo mediático e eleitoral, que deixa tudo por fazer.

Portugal precisa tanto de tumultos nas ruas como precisa de cartazes de apoio a Cristiano Ronaldo nas rotundas. As convulsões que se vivem em Espanha ou França não nos fazem falta. O que faz falta é discussão pública séria e consequente sobre os problemas que continuamos a adiar, enquanto nos entretemos com superficialidades. Essa militância do realismo e da seriedade, entre nós, já seria absolutamente revolucionária.

 

Mais crónicas do autor
08 de outubro de 2026 às 07:15

O povo é mansinho

Um país envelhecido, mais preocupado em manter o que tem do que em ter o que lhe falta, deixa-se ir na inércia.

01 de outubro de 2026 às 07:17

Boa sorte, Rui Pinto

O Portugal do poder, que sempre odiou o hacker e denunciante, abandona-o no momento mais precário.

24 de setembro de 2026 às 08:19

“Sem direito a perguntas”

A guerra da política contra o jornalismo é real e tem de ser levada muito a sério.

17 de setembro de 2026 às 07:15

Um deputado vale mais que 60

Foguetórios à parte, o Chega nem sabe ter os papéis em ordem.

10 de setembro de 2026 às 07:09

“Não estava a ouvir”

O populismo só nos oferece isto: uma escolha entre diferentes variantes de aldrabões.

Mostrar mais crónicas