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João Carlos Barradas
20.06.2026

A Vergonha da Nação

«O país a que se pertence não é, conforme assevera a retórica costumeira, o que amamos, mas aquele de que temos vergonha»

Já se pusera o sol, quando D. João I, «poucas horas antes de seu falecimento», levou as mãos à barba e, achando-a «algo tão crescida, a mandou logo fazer».

Disse, então, que «não convinha a Rei, que muitos haviam de ver, ficar depois de morto espantoso e disforme».

Feito o que se impunha, o «glorioso Rei acabou sua bem-aventurada vida», na «melhor Casa de seus Reinos», no Paço da Alcáçova, o castelo de Lisboa dedicado a S. Jorge, padroeiro dos feitos militares portugueses.

A barba devidamente composta importava ao cronista Rui de Pina, mais de 70 anos passados sobre aquele 13 de Agosto de 1433, para a elevação do retrato hagiográfico da «boa morte» do soberano aos 76 anos.

Pela barba do rei se via a exemplaridade do porte, da apresentação, a serenidade, e plena consciência do momento.

Neste pormenor sobressaia uma vida plena, feliz, devota para ilustração e reconhecimento da memória do fundador da dinastia de Avis.

«Amor e temor mais que todos os outros tínhamos ao Senhor Rei, e de fazer coisa errada ou desonesta, digna de repreensão ou de vergonha, principalmente de nós era receado», recordaria seu filho D. Duarte no «Leal Conselheiro».

Vergonha é aqui o que avassala quem falta à fidelidade e respeito devidos a valores herdados, uma grave falta pessoal, um temor à desonra, capaz de repercutir negativamente sobre os demais.

A vergonha, uma paixão que Aristóteles distinguira da virtude e considerara tanto mais grave e desonrosa quanto mais deplorada por quem nos é próximo, era, pois, essencial ao autodomínio, à contenção do indivíduo e, muito em especial, do soberano.

Era até bem mais do que isso porque a vergonha marca a identidade da pessoa e cada indivíduo é alguém cujas atitudes e comportamentos se formam e alteram em função dos demais.

A valoração social de cada acto – o bem e o mal, o altruísmo e o egoísmo – gera honra e vergonha e estes sentimentos individuais, aparentemente alheios à razão, devem ainda ser vistos como um vínculo social relevante para a própria identidade de grupo.

A vergonha enquadra-se, inclusivamente, no feixe de traços que definem a identificação com uma nação, argumentava Carlo Ginzburg, o influentíssimo historiador italiano falecido quarta-feira em Bolonha.

No início deste ano saíra a sua derradeira colectânea de ensaios, «O vínculo da Vergonha. Leituras Oblíquas», em que analisa, nomeadamente, a relevância da vergonha na tradição que parte dos gregos e a associa à culpa.

Declara Ginzburg a abrir o ensaio que «o país a que se pertence não é, conforme assevera a retórica costumeira, o que amamos, mas aquele de que temos vergonha. A vergonha pode ser um vínculo mais forte do que o amor».

Conta Ginzburg que sentira horror e indignação ao inteirar-se – ensinava, então na Universidade da Califórnia, em Los Angeles – da prática de tortura na prisão militar de Guantánamo, mas não sentira vergonha.

Que o sentimento de vergonha tem peso diferente e varia no tempo nas culturas em que mais importa, era algo que Ginzburg tinha presente quando surgiram as primeiras denúncias de tortura em 2022, e não ignorava que a identidade se afirma pela diferença.

Nascido em Turim, em 1939, filho de intelectuais judeus não-religiosos, anti-fascistas – Leone, assassinado em 1944 na prisão de Regina Coeli, em Roma, e Natalia, romancista de renome, falecida em 1991 –, Carlo, «homem de esquerda», conforme se definia, não identificava os Estados Unidos como sua nação ou pátria e, consequentemente, não nutria sentimento de culpa pelos actos do governo de George W. Bush.

A pouco e pouco, Ginzburg foi formulando a ideia de que se sente vergonha pelo país a que se pertence através de um vínculo peculiar que tenta elucidar em análises que tanto devem a décadas de leituras do filólogo alemão Eric Auerbach, de Tolstoi, Marcel Proust ou Primo Levi, como ao confronto com as tendências irracionalistas na obra do historiador romeno das religiões Mircea Eliade.

Aos 87, Ginzburg morreu honrado pela obra feita e amargurado pela vergonha, conforme escreveu, neste posfácio ao ensaio «O vínculo da vergonha», publicado inicialmente no número de Novembro/Dezembro de 2019 da «New Left Review», de Londres.

«O horroroso massacre de 7 de Outubro gerou um sentimento de vergonha nos homens e mulheres pertencentes à comunidade palestiniana que não se reconhecem nas violências perpetradas pelo Hamas. A feroz, criminosa resposta do governo Netanyahu, marcada pelo massacre de crianças e adultos reduzidos à fome na Faixa de Gaza, suscitou um sentimento de vergonha quer em Israel, quer na diáspora hebraica: por exemplo, a um judeu italiano como o abaixo-assinado.»

O terrível é que Carlo Ginzburg deixou-se aqui levar pelo sentimento de identificação e exagerou o peso da vergonha que presentemente assola a maior parte de palestinianos e judeus, sobretudo, em Israel. O ódio pode ser um vínculo mais forte do que o amor.

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