Camisolas de terroristas
Há muito que a coerência se tornou um bem desvalorizado. A força da narrativa arrasa sem piedade todo e qualquer argumento racional.
“Camisolas de terroristas, condições de terroristas”, terá dito o ministro da defesa israelita Itamar Ben-Gvir, referindo-se aos membros da flotilha que rumava a Gaza e que vieram a ser intercetados e detidos, estando a ser, agora, devolvidos aos seus países de origem. Uma viagem que se traduzia num gesto humanitário de apelo a uma causa (a palestiniana). Um gesto que muitos apelidam de “simbólico” ou até “performativo”. Em todo o caso, um ato claramente inofensivo.
Com aquela singela afirmação tornou o ministro bem claro aquilo que já é visível para todos: Para ele (e não só ele), o ser humano não é todo igual. Ele divide-se em categorias. Os “terroristas”, os “não terroristas” e, porventura, os “escolhidos”.
Aqui temos (mais) um exemplar do desprezo por uma das maiores conquistas civilizacionais: O tratamento do ser humano como igual.
Ainda que possa ser sujeito a medidas de força, como a detenção; ainda que possa ser julgado e punido pelos seus atos – se estes forem ilícitos criminais, claro está – o ser humano nunca é despojado da sua dignidade.
Esse reduto comum a todas as pessoas, da mais odiada à mais louvada é o que garante que a barbárie não triunfa sobre a civilização, tal como nós, os ocidentais amantes da democracia, supostamente a perfilamos.
Mas há muito que a coerência se tornou um bem desvalorizado. A força da narrativa arrasa sem piedade todo e qualquer argumento racional.
Que narrativa? Aquela a que eu escolho aderir.
Não importam os factos, nem a lei, muito menos a ética.
Ser a “favor” ou “contra” determinada prática depende do facto de ela provir de uma personalidade que eu apoie ou combata.
A ideia é, então, tratar como “terroristas” os que são “terroristas”.
Desumanizar o oponente, até ao ponto de ele poder ser “objeto” do tratamento que lhe é dado e não “sujeito” num processo equitativo, onde há direitos e deveres de parte a parte.
Não vou sequer perder energia a tentar demonstrar que Mariana Mortágua, Sofia Aparício e os demais membros da flotilha não são terroristas nem apoiam o terrorismo. Não é esse o ponto. O ponto é saber se queremos aceitar o tipo de justiça “olho por olho, dente por dente” ou se pretendemos agarrar e manter a conquista que é produto de sucessivas evoluções culturais e sociais e se traduz num sistema onde o poder do Estado é limitado por leis e onde os cidadãos são titulares de direitos e liberdades fundamentais que são garantidos e respeitados.
O ponto é também este: Há que deixar de mascarar a realidade. Israel, tal como é hoje governado, não cumpre os requisitos de um Estado de Direito Democrático.
Não se trata de simpatizar ou deixar de simpatizar com a causa judaica. Trata-se de julgar os factos com rigor e objetividade. Um Estado que ocupa, coloniza, oprime e dizima um povo não pode considerar-se “de Direito Democrático” nem pode prevalecer-se de um epíteto que não lhe serve. Um Estado que, segundo Ronen Bergman (membro da Ordem dos Advogados israelita) utiliza o homicídio como um instrumento militar. Um Estado cujos sucessivos governos usam os territórios palestinianos por si ocupados como terreno para testar armamento e sistemas de vigilância de tecnologia avançada, com o propósito declarado de controlar a população “inimiga”.
As tentativas de alcançar a paz em Gaza e na Cisjordânia tiveram o seu auge com os Acordos de Oslo, tendo soçobrado com o assassínio (por um judeu de extrema-direita – recordemo-lo) de Ytzhak Rabin, precisamente, quando discursava sobre a tão desejada paz, em Telavive, corria o ano de 1995.
Há quem apoie a solução de dois Estados.
Há quem prefira um Estado único no qual judeus e palestinianos tenham direitos iguais.
O certo é que o caminho não pode ser nunca o da desumanização do oponente ou da vingança.
O caminho – tantas vezes começado e interrompido – tem que continuar.
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