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Alexandre Monteiro Profiler
05.07.2026

Linguagem corporal em Videoconferências

Ao mesmo tempo que o ecrã limita o que vemos do outro, cortando os pés, as pernas, muitas vezes o tronco, o ecrã amplia aquilo que restou, o rosto, os olhos, os ombros, as mãos (quando visíveis), a voz, o ambiente de fundo.

Em março de 2020, o mundo fez algo sem precedentes, mudou a sua principal sala de reuniões de um edifício para um ecrã de 15 polegadas, da noite para o dia, o Zoom, o Teams e o Google Meet tornaram-se os novos escritórios, as novas salas de negócios, as novas salas de aula. Com esta mudança, criou-se um paradoxo fascinante e ao mesmo tempo que o ecrã limita o que vemos do outro, cortando os pés, as pernas, muitas vezes o tronco, o ecrã amplia aquilo que restou, o rosto, os olhos, os ombros, as mãos (quando visíveis), a voz, o ambiente de fundo.

O efeito câmara:

A câmara não é um espelho neutro, distorce. A posição da câmara em relação ao rosto muda radicalmente a perceção que os outros têm de si:

•Câmara abaixo do nível dos olhos, projeta dominio e autoridade, mas pode parecer intimidador.

•Câmara ao nível dos olhos, é a posição neutra e equilibrada, a mais recomendada para a maioria das situações.

•Câmara acima do nível dos olhos. projeta submissão e vulnerabilidade.

Levante o portátil ou compre um suporte para câmara, é um dos investimentos de comunicação não verbal com maior retorno.

O contato visual no ecrã:

Existe uma ilusão muito comum nas videoconferências, achamos que estamos a olhar para os olhos do interlocutor quando olhamos para a sua imagem no ecrã, mas não, estamos a olhar para baixo da câmara e para o outro, parece estar com o olhar ligeiramente desviado.

O verdadeiro contato visual numa videoconferência acontece quando olha diretamente para a câmara e não para o ecrã. É contraintuitivo, porque implica não estar a ver a cara da outra pessoa enquanto fala, mas projeta presença e atenção.

Técnica prática, quando fala, olhe para a câmara. Quando ouve, pode olhar para o ecrã. Esta alternância é natural e projeta tanto presença como atenção.

A postura no ecrã

Na videoconferência, apenas o terço superior do corpo está visível, isto significa que os ombros e a posição do tronco ganham uma importância desproporcional. Ombros descaídos e postura encurvada, que numa reunião presencial poderiam passar despercebidos, são imediatamente visíveis no ecrã.

A postura ideal para uma videoconferência: costas direitas, ombros para trás, ligeiramente inclinado para a frente (sinal de interesse e presença). As mãos devem estar visíveis, seja sobre a mesa ou gesticulando, mãos fora do campo da câmara criam desconfiança.

Decifrar pessoas no ecrã

Sinais de presença vs. desinteresse:

Numa videoconferência com câmara ativada, é possível ler muito sobre o estado de atenção e interesse dos participantes:

•Olhar frequentemente para fora do ecrã, está distraído, a ler emails, ou genuinamente mais interessado noutra coisa.

•Corpo afastado da câmara, encostado na cadeira, desinteresse ou defesa.

•Corpo próximo da câmara, inclinado para a frente, interesse e envolvimento.

•Sobrancelhas franzidas enquanto ouve, processamento intenso ou discordância.

•Microfone em mudo frequente, pode indicar desconforto com o ambiente de fundo, mas também pode indicar que não quer que ouçam o que diz ao lado.

O ambiente de fundo como linguagem não verbal

O fundo que escolhe para as suas videochamadas não é neutro, é uma declaração sobre quem é e como quer ser percebido. Uma estante de livros projeta inteligência e curiosidade intelectual. Uma parede branca e vazia projeta neutralidade, mas pode parecer fria. Um espaço desorganizado projeta caos e falta de atenção ao detalhe.

Os fundos virtuais (imagens artificiais) podem ser úteis para esconder um ambiente desorganizado, mas têm um custo, tornam a pessoa mais difícil de ler, porque eliminam a informação de contexto, e podem parecer desonestos ou evasivos em contextos de alta confiança.

As novas regras de poder em videoconferência

Numa sala de reuniões presencial, o líder normalmente senta-se à cabeceira da mesa, fala mais, gesticula mais, e ocupa mais espaço, numa videoconferência, todos têm a mesma caixa, o mesmo tamanho de ecrã, a mesma distância percebida da câmara. O poder redefiniu-se e existem os novos sinais de poder em videoconferência:

•Ser o único com a câmara ligada quando os outros a desligaram.

•Falar devagar e pausadamente, deixando silêncios confortáveis.

•Ter um fundo iluminado, profissional e cuidado.

•Ter câmara ao nível dos olhos enquanto outros filmam de baixo para cima.

•Não verificar o email durante a reunião — presença total projeta autoridade.

•Ser o último a sair da chamada.

Fadiga de videoconferência

A «fadiga de Zoom», como passou a ser conhecida, é um fenómeno real e com base neurocientífica. Em reuniões presenciais, o cérebro processa automaticamente a linguagem corporal, o espaço, os sons e os movimentos, numa videoconferência, tem de fazer um esforço consciente para compensar a informação em falta, mantendo-se a olhar para ecrãs imóveis e criando permanentemente contacto visual com uma câmara em vez de olhos reais.

Estratégias para reduzir a fadiga de videoconferência:

•Sempre que possível, desative a sua própria câmara quando não está a falar — o autorretrato constante é cognitivamente esgotante.

•Use reuniões de áudio apenas para conversas simples — reserve o vídeo para interações onde o contexto visual seja essencial.

•Faça pausas de 5 minutos entre videoconferências consecutivas.

•Aumente o tamanho da janela das imagens dos participantes — ver rostos maiores reduz o esforço de leitura de sinais.

A linguagem corporal digital não é uma versão diminuída da linguagem corporal real, é uma versão diferente, com as suas próprias regras, os seus próprios sinais de poder, os seus próprios erros a evitar.

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