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Tiago Freitas Analista em Assuntos Europeus
23.01.2026

Entre a aritmética eleitoral e a instabilidade sistémica: as presidenciais e o futuro político imediato

A opção encontrada, não declarar apoio formal a nenhum dos candidatos, é, paradoxalmente, a única racional.

As eleições presidenciais em curso deixaram de ser apenas uma disputa entre personalidades para se tornarem um teste sério à arquitetura política do regime. A passagem de António José Seguro e André Ventura à segunda volta produziu um efeito imediato e concreto: a primeira vítima política clara deste cenário é, desde já, o Orçamento do Estado para 2027.

Este era, reconhecidamente, o pior desfecho possível para Luís Montenegro. O Primeiro-Ministro ficou colocado numa posição sem saída estratégica: apoiar Seguro significaria romper definitivamente qualquer ponte com o Chega, garantindo o chumbo sistemático das iniciativas do Governo; apoiar Ventura, por sua vez, representaria um terramoto político de tal magnitude que permitiria ao PS acusar a AD de ultrapassar os limites estruturais do regime democrático, inviabilizando qualquer diálogo institucional futuro entre os dois blocos que, goste-se ou não, funcionam como âncoras do sistema político português.

A opção encontrada,  não declarar apoio formal a nenhum dos candidatos, é, paradoxalmente, a única racional. Ela permite liberdade de voto aos partidos que sustentam o Governo e mantém aberta, ainda que precariamente, a possibilidade de negociação orçamental. No caso do Chega, aliás, é menos o partido que apoia Ventura do que Ventura que estrutura o partido, o que torna qualquer previsibilidade ainda mais frágil.

Neste contexto, torna-se evidente a estratégia ardilosa, e politicamente inteligente, de várias figuras do PSD e do CDS que, a título pessoal, manifestam diariamente intenção de voto em Seguro, sem comprometer formalmente a coligação nem o Primeiro-Ministro. Resta saber se esta separação entre o plano individual e o plano institucional será eficaz quando o país entrar na fase decisiva das escolhas orçamentais.

Do outro lado do tabuleiro, Marques Mendes surge como um caso de estudo clássico sobre os riscos do “timing” político. Avançou cedo demais, tal como Gouveia e Melo, que antes de ser candidato já o era. Mas, ao contrário do almirante, Marques Mendes construiu toda a sua candidatura em torno do argumento do voto útil: seria, alegadamente, o único capaz de levar o eleitorado do centro-direita e da direita democrática à segunda volta, derrotando primeiro Gouveia e Melo e depois Ventura.

Quando as sondagens, de forma sólida e persistente, o colocaram abaixo dos 14%, essa narrativa tornou-se matematicamente insustentável. Nesse momento, e por coerência política, deveria ter desistido em favor de João Cotrim de Figueiredo, consolidando na corrida a Belém um espaço ideológico que abrange PSD, CDS e IL. Dir-se-á que o estatuto de “senador da República”, construído por décadas de presença no Conselho de Estado, tornava essa desistência humilhante. Mas foi o próprio Marques Mendes quem fez da necessidade de garantir um candidato desse espaço ideológico na segunda volta o eixo central do seu discurso. Falhando essa possibilidade, restava-lhe apenas retirar-se.

Este episódio, e a análise das cores do  mapa eleitoral, revela um risco estrutural maior: o PSD enquanto partido progressivamente ruralizado, com risco de a médio prazo se tornar incapaz de competir com a Iniciativa Liberal no eleitorado urbano, qualificado e de classe média, que outrora lhe pertencia. Cotrim conseguiu exatamente isso: captar votos de centro-direita e direita democrática com formação média e superior, provenientes de diferentes tradições ideológicas.

É aqui que surge o grande ausente, e simultaneamente o grande fantasma,  da política portuguesa: Pedro Passos Coelho. O ex-Primeiro-Ministro terá de abandonar o taticismo de esperar por um eventual deslize judicial de Montenegro e decidir se quer continuar a ser o principal agregador da direita democrática. A sua simples reaparição pública tem um efeito imediato: esvazia a narrativa de Ventura e reconfigura o campo político, explorando as ambiguidades discursivas que Passos sempre soube usar com eficácia.

Não é irrelevante recordar que a Iniciativa Liberal é, em larga medida, uma excreção da ala liberal do PSD, corporizada precisamente por Passos e pelos seus mais próximos. Mas se Passos deixar Ventura e Cotrim continuarem a cimentar um espaço próprio e sólido na reta ideológica, será tarde para resgatar o seu legado.

Uma crise política séria,  nomeadamente um chumbo orçamental,  pode funcionar como pretexto para uma recomposição interna, sabendo-se que nomes como Carlos Moedas ou Miguel Pinto Luz observam atentamente o desenrolar dos acontecimentos.

Quanto a António José Seguro, o seu sucesso na primeira volta explica-se por uma estratégia quase minimalista: não abriu a boca, não se afirmou, de forma clara,  ideologicamente como socialista e não gerou polémicas. Numa campanha marcada pelo ruído, venceu quem foi silêncio.

Importa ainda sublinhar o impacto colateral da denúncia de alegado assédio sexual envolvendo João Cotrim de Figueiredo. Muitos eleitores não deixaram de votar nele por acreditarem na acusação em si, cuja credibilidade foi, aliás, fragilizada pela ligação da denunciante ao atual Governo e por tentativas anteriores de exposição mediática,  mas porque assumiram que os outros eleitores iriam retirar o apoio. O efeito foi, assim, auto-cumprido. Sem entrar em teorias da conspiração, seria ingénuo não perceber que os grandes prejudicados desse episódio foram Cotrim e, por arrasto, o próprio candidato do Governo, Marques Mendes. É o que costuma acontecer quando se liga a ventoinha.

O quadro que se desenha é de elevada instabilidade. Não é possível garantir que não haja novo ato eleitoral no início de 2027. Esse cenário pode ser a única hipótese de sobrevivência política de José Luís Carneiro enquanto secretário-geral do PS; pode parecer tentador para Ventura, que sempre capitalizou crises; mas pode igualmente sair furado se uma crise no Governo e no PSD servir de catalisador para o regresso de Passos Coelho.  Hoje, paradoxalmente, o maior D. Sebastião da política portuguesa.

Depois da dureza da troika e de anos em que a geringonça colheu os frutos de ajustamentos anteriores, quem diria que Passos Coelho viria a ser apelidado de “o Desejado”? A política tem destas ironias históricas. E Portugal pode estar, mais uma vez, à beira de as viver.

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