E se “qual o curso” não for a pergunta certa? A Ciência é o caminho.
Havia, muitas vezes, uma relação linear entre formação e carreira. Hoje, é diferente. A relação curso/profissão tornou-se muito mais difusa.
“Já escolheste o curso?” É, provavelmente, a pergunta mais recorrente por estes dias e a que mais assusta os jovens prestes a ingressar no ensino superior. É que, durante décadas, a resposta a esta pergunta foi uma clara afirmação identitária. Afinal, escolher um curso significava, em muitos casos, escolher uma profissão. Medicina levava a médico. Direito a advogado. Engenharia a engenheiro. Havia, muitas vezes, uma relação linear entre formação e carreira.
Hoje, é diferente. A relação curso/profissão tornou-se muito mais difusa. Entramos em empresas, laboratórios, hospitais, escolas, bancos, startups ou instituições públicas e encontramos pessoas com percursos diversos a trabalhar lado a lado, muitas vezes em funções que nem sequer existiam quando começaram os seus estudos. Físicos em finanças. Matemáticos em biotecnologia. Biólogo em ciência de dados. Engenheiros em políticas públicas. Filósofos em plataformas de inteligência artificial. E, na verdade, isso não é um problema. É um sinal dos tempos. Mais do que isso: é provavelmente o caminho para instituições mais fortes, mais criativas e mais adaptáveis.
Perante a enorme incerteza sobre os empregos do futuro, talvez o erro esteja precisamente em procurar formações demasiado estreitas ou excessivamente orientadas para profissões específicas. Aquilo que hoje parece uma aposta segura pode deixar de o ser em poucos anos. A velocidade da transformação tecnológica, económica e social tornou muito difícil prever quais serão as profissões dominantes daqui a uma ou duas décadas.
Neste contexto, a questão deixa de ser “qual é o emprego do futuro?” e passa a ser “que tipo de formação prepara melhor para navegar um futuro incerto?”.
É aqui que as ciências assumem um papel central. Uma formação científica sólida não ensina apenas conteúdos. Ensina uma forma de olhar para o mundo. Obriga-nos a formular perguntas claras, identificar variáveis relevantes, distinguir correlação de causalidade, lidar com incerteza, testar hipóteses, interpretar dados, validar resultados e reformular estratégias quando a realidade contradiz as expectativas. Em ciência, aprende-se que errar faz parte do processo, desde que saibamos corrigir o rumo.
Estas competências não são apenas relevantes em contexto de laboratório. São também as necessárias para liderar organizações, desenvolver tecnologia, gerir equipas, inovar e tomar decisões complexas.
Se isso já era importante, torna-se ainda mais crítico com a ascensão da inteligência artificial. Existe hoje uma ideia perigosa de que a inteligência artificial poderá substituir o pensamento humano. Na realidade, o que estamos a assistir é a uma valorização ainda maior das competências humanas fundamentais. A inteligência artificial não elimina a necessidade de pensamento crítico. Pelo contrário: aumenta-a. Num mundo onde produzir informação se torna trivial, a capacidade de interpretar, validar e integrar conhecimento torna-se o verdadeiro fator diferenciador. Talvez por isso “Ciências” seja hoje menos uma escolha profissional e mais uma preparação para a complexidade. Não porque todos devam seguir carreiras científicas, mas porque uma formação científica robusta oferece ferramentas intelectuais para navegar a incerteza.
Esta é a melhor recomendação que podemos dar à próxima geração. Não escolher um caminho demasiado estreito para um mundo cada vez mais imprevisível. O futuro do emprego é incerto, mas a necessidade de pessoas capazes de pensar com rigor, aprender continuamente e tomar decisões informadas não vai desaparecer. Por isso, quando perguntarem “qual a profissão?”, a resposta mais ambiciosa é: A Ciência é o caminho.
Nuno Araújo, Professor Catedrático e presidente do Departamento de Física na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
E se “qual o curso” não for a pergunta certa? A Ciência é o caminho.
Havia, muitas vezes, uma relação linear entre formação e carreira. Hoje, é diferente. A relação curso/profissão tornou-se muito mais difusa.
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