Voando sobre o Manicómio do Beato

Porque é preciso “que eles não sejam esquecidos” Sandro Resende criou um espaço para tirar dos doentes mentais o rótulo de “coitadinho” e mostrar ao mundo os artistas que “o mundo quis pôr de lado".

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Joana Emídio Marques 01 de fevereiro

Quando foram descobertos os desenhos e os escritos de Jaime Fernandes, na sua cela no hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, ele já tinha morrido. Apesar de ter vivido ali muitas décadas e escrito e desenhado dezenas de folhas com criaturas fantásticas (um universo singularíssimo, habitado por seres meio homens meio animais que impressionam e assustam), num dos escritos podia ler-se: "Nêngêm. Soieu"/Ninguém.Só eu."

O cineasta António Reis e a psiquiatra Margarida Cordeiro tentaram reconstruir a história deste homem, no filme Jaime de 1974, que se tornou uma obra de culto que impressionou figuras como Marguerite Duras ou a filósofa Júlia Kristeva.

"Mas para o Jaime era tarde demais, e o que eu quero é que estes artistas, que são doentes mentais, não sejam descobertos tarde demais", afirma Sandro Resende, fundador do espaço Manicómio, um atelier de trabalho para artistas com doenças mentais, no Beato. Sandro Resende acumula este projeto com o desenvolvimento, há mais de vinte anos, de oficinas artísticas no hospital Júlio de Matos, onde criou o famoso Pavilhão 31, hoje um espaço essencial no roteiro da arte contemporânea portuguesa.

Ao contrário de Jaime Fernandes, Bráulio, um jovem de 35 anos com uma deficiência cognitiva profunda, é um dos artistas que integra o Manicómio e trabalha sobretudo com pastel. No final de 2020, Bráulio teve um dos seus desenhos de pássaros azuis impresso num modelo de ténis criado pela empresa de moda e design Diverge.

Esta é uma coleção cápsula de 200 pares de ténis que têm desenhadas aves que caminham no chão mas se dirigem para o céu, a circularem por todos os caminhos de Lisboa a Nova Iorque.

Bráulio, que tem dificuldades em comunicar, mas "não é um coitadinho, é um artista, que tem crescido muito desde que está aqui connosco", diz Sandro Resende.

Este trabalho, do qual ele receberá parte das vendas (cada par de ténis custa 180 euros), também o vai ajudar financeiramente. Porque nenhum artista com doença mental consegue desenvolver o seu potencial com o que recebe do RSI ou da pensão de invalidez. Aqui eles recebem um subsídio mensal, pagamos refeições e transporte e tentamos colocar os seus trabalhos em exposições, galerias de arte contemporânea. Recebem ainda 70% do valor das suas obras que conseguimos vender. Não recebemos donativos, fazemos parcerias com empresas", afirma Sandro.

O fundador do Manicómio pede que em Portugal se perca a esse olhar "paternalista e condescendente" sobre as pessoas doentes. "Nós aqui criamos objectos, damos workshops, fazemos peças de design para as empresas e, em troca eles, acrescentam valor artístico à sua marca", continua o diretor do projecto, que acaba de celebrar um "bom acordo de cavalheiros" com nada mais nada menos do que a Mercedes.

Vamos ver os loucos?

"Não. Isto não é um jardim zoológico" avisa Sandro Resende. A porta 135 da rua Rua do Grilo igual a tantas outras: visto de fora, parece uma banal casa de família mas quando a porta se entra descobre-se um open space enorme, com o Tejo a entrar janelas dentro.

O teto de madeira mantido do antigo armazém que ali funcionava dá à sala um ar acolhedor. Há mesas, sofás, cantos e recantos, uma varanda virada ao rio, muitas plantas e uma atmosfera serena, moderna, quase luxuosa.

O espaço tem três pisos, mas a únicas paredes são as exteriores. Neste local de cowork onde, antes do confinamento, estavam várias empresas, agora está só a Mercedes e o Manicómio que se misturam no espaço.

O bar aberto ao público vai mudar para o rés-do-chão e será gerido por duas pessoas, também com doença mental, tal como a empresa de design que será inaugurada ainda este ano. A cave é ocupada pela Jack the Maker, uma empresa de novas tecnologias, de onde saem as peças mais excêntricas que possa conceber.

O Manicómio é a única empresa social em Portugal, e o único espaço dedicado à chamada Arte Bruta (arte feita por artistas sem formação, autodidactas ou com handicaps). Não está ligado a nenhuma instituição médica, e essa é uma das suas características essenciais.

Foi concebido para ter até dez artistas, de momento tem treze e Sandro Resende confirma que "há uma lista de espera de cerca de duzentas pessoas". Os criadores são escolhidos através de um portfolio que enviam e podem vir da literatura, da pintura até à vídeo-arte, passando pela fotografia.

"Aqui nós começamos por ouvi-los, saber o querem fazer, o que querem comunicar, depois disponibilizamos todo o material de que eles precisam. Temos ainda protocolos com vários psiquiatras e psicólogos lá fora, para onde os podemos encaminhar, quer para serem seguidos, quer em caso de se sentirem mal. Aqui nunca tivemos descompensações porque não temos paredes, a qualquer momento eles podem sair, ou ter um médico disponível", sem terem que recorrer ao hospital.

O projeto, que arrancou em 2018, "teve um excesso de atenção e glamourização pelos media", afirma Sandro Resende. "Não é esse o nosso objetivo e quem vinha aqui para ver os loucos rapidamente percebeu que estava no sítio errado e não voltou. As pessoas podem vir ao bar, podem ver o espaço, comprar trabalhos, conversar com os artistas, ajudar a dar uma normalidade ao seu trabalho e à sua vida, porque é assim que nós estamos a tratar a doença: conhecendo a sua identidade artística e dando-lhes a mesma dignidade que se dá a um artista sem problemas mentais", continua.

Porque todo este projeto, desde o nome ao funcionamento, tem uma componente de saudável auto-ironia, tem também disponíveis um psicólogo e um psiquiatra que vão lá dar consultas  "às pessoas normais". As consultas, dadas num dos sofás, ou das janelas do Manicómio, custam 30 euros e qualquer pessoa pode marcar lá uma consulta. Além disso foi celebrado um protocolo com a Junta de Freguesia do Beato para que os moradores do bairro possam igualmente usufruir delas.

A Mercedes Portugal

A marca de automóveis de luxo quis associar-se ao projeto e adquiriu o imóvel no qual o Manicómio estará sem pagar qualquer renda, em troca de workshops para a marca, decoração do espaço e outros projectos em desenvolvimento.

As parcerias com empresas são uma das formas de o espaço se sustentar "sem ajudas do Estado". Já fizeram uma parceria divertida com os chocolates Aliança, onde criaram o produto, a embalagem e o rótulo para um frasco de comprimidos de chocolate que prometem curar muitas doenças, o rótulo para a garrafas de vinho da herdade da Malhadinha, que venceu um prémio internacional de design, peças de joalharia para a Elements e agora os ténis para a Diverge.

Falámos ainda com João Esteves, o CEO da marca de objetos de moda, que foi muito claro na sua abordagem a esta parceria:"Tenho uma admiração sem limites por este projeto, por este trabalho do Sandro Resende, que acho muito digno e muito honesto, que coloca a tónica na arte e não na doença. Espero sinceramente poder fazer outros projectos com eles. Nós somos uma marca de customização objectos e o contar de histórias está no nosso ADN. Com o trabalho do Bráulio estamos a contar uma história, a sua".

Quanto aos ténis, que são unicamente vendidos online, João Esteves diz que "as vendas já ultrapassaram as expectativas, já vendemos para Inglaterra e EUA". Os sneakers, batizados como o nome "just like birds" são assim um dos primeiros projectos de moda em Arte Bruta, feitos em Portugal, o que significa que, ao contrário de Jaime Fernandes, eles já não estão sozinhos eles são alguém.

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