Desportistas portuguesas adiam maternidade por medo de 'condenarem' as carreiras
Dispensa de Cátia Azevedo pelo Sporting despertou a sociedade para a realidade vivida pelas atletas portuguesas.
A dispensa de Cátia Azevedo, recordista nacional dos 400 metros, pelo Sporting despertou a sociedade para a realidade vivida pelas atletas portuguesas, 'empurradas' muitas vezes a adiar a maternidade, por receio a serem obrigadas a terminar a carreira.
Nas horas e dias que se seguiram à revelação de que Cátia Azevedo tinha sido dispensada pelos 'leões', que optaram por não acionar os dois anos de opção para renovação do contrato e, posteriormente, ofereceram o prolongamento por apenas um ano nas mesmas condições, algo que a atleta rejeitou, foram várias as manifestações de solidariedade que a três vezes olímpica recebeu, nomeadamente de companheiras de Missão em Jogos anteriores.
O adiamento da maternidade, por vezes até a um limite irrecuperável, é praticamente inevitável para atletas de alto rendimento, que temem os efeitos de uma gravidez nas suas carreiras, como percebeu a Lusa, primeiramente, pelos comentários solidários de Ana Cabecinha, porta-estandarte portuguesa em Paris2024, e Rochele Nunes nas redes sociais e, depois, pelas conversas com as duas olímpicas.
Os caminhos das duas desportistas cruzaram-se, primeiro, em Tóquio2020, mas foi na Aldeia Olímpica da capital francesa, para onde Cabecinha levou o filho de três meses, que se deu uma conversa que convenceu definitivamente a judoca a ser mãe.
Após sentir, quando celebrou 35 anos em junho de 2024, que estava a ficar "mais velha" e queria ter um filho após os Jogos, Rochele Nunes ficou definitivamente convencida de que era possível depois de falar com a cinco vezes olímpica e de a ver com o filho Lourenço, que estava presente quando a mãe concluiu os 20 quilómetros marcha em Paris2024.
"Aí concretizei essa ideia de querer ser mãe. As coisas foram muito rápidas, provavelmente devo ter engravidado ali em Paris, já depois da competição. Mas foi, por acaso, um processo até mais tranquilo do que eu imaginava, foi mais bonito do que eu imaginava", revelou à Lusa.
Embora estivesse "um pouco receosa" quando comunicou a novidade ao Benfica, a judoca da categoria -78 kg revela que a reação dos 'encarnados' não foi "nem foi surpresa, nem choque, foi de felicidade", com o clube a apoiá-la incondicionalmente durante todo o processo.
"A Rochele foi daquelas [atletas] que me perguntou se era possível voltar. Estava em Paris e perguntou-me e eu disse 'não adies' e ela não adiou. Tanto é que, meses depois, ela anunciou que estava grávida e eu pensei 'alguém me ouviu'", brincou Cabecinha, confessando que mesmo desportistas de outros países a abordaram e que aconselhou todas não "pensar duas vezes", embora sugerindo que não o fizessem em ano olímpico, como aconteceu consigo.
Se experiência de Nunes não podia ser mais positiva, a da já retirada marchadora, uma das quatro desportistas da Missão lusa que eram mães nos últimos Jogos (entre 37 mulheres), foi bem menos agradável,
A três vezes diplomada olímpica contou igualmente com o apoio do seu clube, o Clube Oriental de Pechão, mas ficou sem dois patrocínios importantes, os mesmos dois que já lhe tinham virado costas em 2021, quando engravidou e acabou por perder o bebé.
"Vejo tanta coisa a mudar, e depois vejo outras em que estamos a regredir completamente. Por isso, é que toda esta notícia da Cátia mexeu comigo, e por isso é que eu deixei esse comentário. Como é que passados estes anos todos, com provas dadas de que é possível e que se consegue voltar, que não é um tiro no escuro manter uma atleta boa" o Sporting a dispensa por ser mãe, interrogou.
Hoje, o conselho da antiga marchadora, de 42 anos, para as atletas de todos os desportos é "não atrasem, não adiem" a maternidade devido à carreira.
"Muita gente me contactou, e eu disse 'foi um erro o que eu fiz'. Claro que me arrependo, mas não posso voltar atrás no tempo. Está cá o meu pequenote, mas gostava de ter tido mais, e não me vejo agora a ser mãe outra vez, porque já é muito arriscado, e podia ter tido outros bebés, mas fui sempre adiando, com medo de não voltar. Mas é possível voltar [à alta competição], e bem", garantiu.