Secções
Entrar

Elevador da Glória: um ano depois da tragédia, subir a calçada "é muito cansativo"

Raquel Lito 02 de setembro de 2026 às 22:20

Os moradores queixam-se da dificuldade de fazer, a pé, 260 metros de subida. Os turistas fotografam os vestígios de um memorial às vítimas, improvisado nas janelas onde se deu o embate. Os restaurantes notam a quebra e os tuk tuk esperam cada vez mais tempo por clientes. Retrato daquilo a que um guia turístico chamou de "linha fantasma". Veja o vídeo.

Subindo a Calçada da Glória, à direita, um aviso a amarelo e preto anuncia: "Atenção, paragem desativada. Pedimos desculpa pelo incómodo." Desde que os carris ficaram vazios, na sequência do descarrilamento de uma das carruagens, que provocou 16 mortos e 24 feridos, a 3 de setembro de 2025, a alternativa ao ascensor são míni-autocarros elétricos da carreira 51E. Do habitual vaivém do elevador histórico, de 140 anos, restam apenas marcas: as mais visíveis, nas duas janelas partidas pelo embate; as mais discretas, nos vestígios de um memorial improvisado às vítimas; as mais inesperadas, no olhar curioso dos turistas; e as mais persistentes, nos apelos dos moradores e comerciantes para que volte a funcionar, com a máxima segurança.

Elevador da Glória, um ano depois da tragédia

Percorrer 260 metros de rampa, apesar de ser um trajeto curto, não é para todos. Nem para os mais novos é fácil, como conta à SÁBADO Jéssica Barros, de 29 anos, moradora no Bairro Alto (perto do miradouro de São Pedro de Alcântara) e que aparenta estar em boa forma física ao deslocar-se para o trabalho. "É muito cansativo. Muitas vezes, vou pelo Chiado. Para quem é mais idoso, pior ainda."

Em dias de chuva, o caminho torna-se ainda mais desafiante pelo piso escorregadio. Jéssica já escorregou umas cinco vezes. Isto sem contar com o exercício extra de transportar compras, a partir dos Restauradores. Chega lá acima exausta.   

Os turistas passam, lentamente, e comentam em surdina – sabem que ali aconteceu a tragédia, pelas notícias que correram mundo. Duas janelas de finais do século XIX, do edifício de esquina do Turim Restauradores Hotel, evidenciam a violência do impacto. As grades de ferro forjado estão contorcidas, os vidros partidos, com fragmentos ainda agarrados às estruturas, e há vestígios de um (outrora) memorial às vítimas – restos de flores que repousam em entulho. A administração do hotel prefere não prestar declarações à SÁBADO, quando questionada, mas sabe-se que a fissura junto às respetivas janelas foi reparada entretanto.

1"Tiram fotos"

Uns metros acima, funciona o Gloria Suites Hotel, num prédio cor de rosa recém-reabilitado. Abriu portas três meses depois do acidente e contou, em agosto, com uma taxa de ocupação na ordem dos 70%. Em anos anteriores, por esta altura, os hotéis da zona atingiam a capacidade máxima, segundo Luís Amado, chefe de receção desta unidade hoteleira de três estrelas. "Não sei se foi a inflação, ou o acidente que afastou pessoas de Lisboa. Acho que é tudo um pouco", diz.

Mulher em frente ao Elevador da Glória, um ano após a tragédia Foto: Duarte Roriz/SÁBADO
Funcionário do Hotel Glória com informações de transfer em Portugal Foto: Duarte Roriz/SÁBADO
Janelas com grades em Lisboa, um ano após a tragédia do Elevador da Glória Foto: Duarte Roriz/SÁBADO

Repara, contudo, que os turistas não deixam de acorrer ao local da tragédia: "No sítio onde o elétrico bateu, os tiram fotos e selfies a toda a hora." A maioria dos hóspedes do hotel onde trabalha pergunta-lhe, com frequência, sobre o acidente. "Porque isto teve repercussões internacionais e questionam onde foi, como foi, quantas pessoas morreram."

2Circulação na rua baixou

Na perpendicular à Calçada da Glória, virando na primeira à direita, chegamos à Rua da Glória. Está praticamente vazia. Um ou outro turista caminha, de mapa na mão ou empurrando o trólei. Os restaurantes típicos e étnicos, com ementas bilingues à porta, não têm movimento, apesar de se aproximar a hora de almoço. Já passa do meio-dia.

Michele Bono, siciliano de 63 anos, traz Itália para a mesa com um restaurante acolhedor, o Piazza Sicilia-Osteria, onde serve pratos difíceis de confecionar em casa, rodeado de mobiliário vintage comprado em Sintra, como aquelas cristaleiras art déco que nos fazem recuar um século. Nota que a circulação na rua baixou, desde a tragédia. 

Às autoridades, o chef pede mais rapidez no processo, a bem do transporte para moradores, turistas e comerciantes. Não entende a demora de a nova instalação só chegar em 2029, de acordo com o que a Carris anunciou a 31 de agosto. "Os meus clientes são portugueses, a maioria são estrangeiros residentes, mas seguramente se passava um turista e via o restaurante e gostava, ia marcar. O negócio baixou", lamenta. 

3A 20 metros da tragédia

Naquela tarde de 3 de setembro de 2025, pelas 18h03, quando ocorreu o descarrilamento pela rotura do cabo de tração, Michele estava no restaurante. Dois colaboradores saíram do local e, por escasso tempo, escaparam à tragédia. "Subiram 30 segundos depois do impacto. A rua ficou fechada."  

Quem também escapou ileso foi António Silva, veterano da Rua da Glória. Trabalha há 18 anos numa loja de ferragens, uma das poucas antigas que ainda sobrevivem, e recorda à SÁBADO que a época de manutenção do Elevador da Glória costumava ser no Verão e demorava um mês – ainda que não tivesse modificações significativas desde janeiro de 1986.

No dia da fatalidade, António saiu do estabelecimento, como habitualmente, às 18h. Caminhava em direcção ao local do acidente, quando ouviu um estrondo e recuou. Estava a 20 metros do local. "Parecia uma bomba. Assustei-me e voltei para trás. Se o elevador não ficasse ali entalado, levava o outro que estava lá em baixo parado e cheio de turistas. Seriam muitos mais do que 16 mortos", diz. Em casa, acompanhou a situação pelos noticiários. 

No Elevador da Glória, um ano após a tragédia, a vida continua difícil Foto: Duarte Roriz/SÁBADO
1025 Barbearia | Cortes de cabelo e barba em Lisboa Foto: Duarte Roriz/SÁBADO
Um condutor de tuk-tuk junto ao Elevador da Glória, um ano após a tragédia Foto: Duarte Roriz/SÁBADO

Na vizinhança, todos conhecem o barbeiro que atende mais por marcação. Ricardo Oliveira tem 37 anos e porta aberta na Rua da Glória há dois anos e meio. À data do acidente, cortava cabelos e, com a conversa e a música ambiente que lhe sai da aparelhagem estilo vintage, não deu por nada. Só estranhou quando os bombeiros passaram em sentido contrário. Por volta das 20h, outros clientes ligaram-lhe em sobressalto para saber se ele estava bem. "Estava escuro, a rua fechada com polícia". Desceu a pé até à Avenida da Liberdade, pelas 21h30, para apanhar a mota e seguiu para casa. 

4À espera numa "linha fantasma"

Em baixo, onde começa a linha, nos Restauradores, há concentração de Tuk Tuk a aguardar por clientes – leia-se turistas que entram nas viaturas sem marcação prévia, dispostos a pagar 80 euros por hora. É este o preço praticado pela empresa onde trabalha o guia turístico Bruno Menezes, de 46 anos. Continua a ser zona de paragem, mas cada vez espera mais tempo. O setor já conheceu melhores dias, o que se reflete nos preços. Por exemplo, no ano passado, a tarifa rondava os 100 euros por hora. "Porque com a introdução das app's, torna-se cada vez mais complexo vender na rua", explica. 

Dirige o olhar para a último café que resiste à turistificação, do outro lado do passeio, junto ao elevador, e diz-nos que tem os dias contados até dezembro. Era lá que se cruzava com o guarda-freio da Carris, que morreu na tragédia. Quando questionado pela SÁBADO, o empregado atrás do balcão prefere não prestar declarações, mas o guia turístico prossegue a conversa.

Bruno costuma contar o sucedido aos clientes que transporta e questiona porque é que só foram concretizados quatro acordos de indemnizações às famílias das 16 vítimas mortais. O elevador faz falta, sublinha, sobretudo numa população cada vez mais idosa. Para quem aguarda na paragem e não repara no aviso junto à “linha fantasma”, o guia informa que o elevador não está a funcionar.

Artigos recomendados
As mais lidas