Coreia do Sul vive último verão com sopa de carne de cão antes de proibição
O Governo sul-coreano identificou, em todo o país, 2.352 restaurantes que serviam pratos com carne de cão depois de a legislação ter sido aprovada em 2024.
A Coreia do Sul vive o último verão em que a sopa de carne de cão, prato tradicional dos meses mais quentes, pode ser vendida em restaurantes.
A tradição, documentada desde a dinastia Joseon (1392-1910), chega ao fim em fevereiro do próximo ano, quando terminar o período de tolerância da lei, aprovada em 2024, a proibir a criação e o abate de cães para obtenção, distribuição ou venda da carne.
A lei estipula que quem abater um cão para consumo poderá enfrentar até três anos de prisão ou uma multa máxima de 30 milhões de won (cerca de 19 mil euros).
O consumo de sopas de carne de cão "bosintang", que significa literalmente "sopa nutritiva para o corpo", está associado ao "boknal", os três dias que tradicionalmente marcam o período mais quente do verão coreano.
O rápido desaparecimento do comércio é visível no beco de "bosintang" no mercado de Sinjin, no centro de Seul, onde apenas restam dois restaurantes.
"É claro que é difícil. No próximo ano, já não poderei continuar com um negócio ao qual me dediquei durante mais de 40 anos. Como posso saber se outro negócio vai resultar ou não?", disse Lee, a septuagenária dona de um restaurante.
"Que tipo de política é esta na Coreia do Sul, que no próximo ano vai tirar o sustento aos cidadãos? Que país proíbe um alimento por lei? Então porque é que as vacas, os porcos ou as galinhas são abatidos para consumo?", questionou.
O Governo sul-coreano identificou, em todo o país, 2.352 restaurantes que serviam pratos com carne de cão depois de a legislação ter sido aprovada em 2024.
Destes, 1.902 anunciaram a intenção de mudar de negócio ou de menu, enquanto 450 decidiram fechar, de acordo com dados da Administração de Alimentos e Medicamentos da Coreia do Sul.
O desconforto em torno do consumo de carne de cão no país asiático é também palpável neste mercado da capital.
Os dois únicos consumidores presentes nos restaurantes recusaram permitir fotografias dos pratos, tendo os proprietários pedido expressamente que não fossem mostrados os rostos dos clientes.
Há anos que o movimento de defesa dos direitos dos animais denuncia as condições em canis clandestinos a operar sob um quadro regulamentar ambíguo, onde os animais vivem confinados em pequenas jaulas de arame, expostos ao frio e ao calor extremos, com feridas ou infecções não tratadas.
Em maio, restavam 272 canis clandestinos, menos 82% do que os 1.537 registados em 2014, de acordo com um relatório do Ministério da Agricultura.
No entanto, as condições na criação intensiva de cães nos restantes canis "são tão más como antes", disse Lee Sang-kyung, responsável da organização não-governamental Humane World for Animals Korea, que realiza campanhas de resgate e adoção destes cães.
A ativista acrescentou que os cães nas explorações continuam a sofrer de "doenças de pele, problemas oculares, desnutrição e deformidades nas patas", enquanto as fêmeas continuam a dar à luz cachorros que terão "uma vida miserável", apesar do declínio da indústria.
De acordo com dados governamentais citados em março pelo jornal local Bridge Economy, dos 393.857 cães contabilizados em explorações que fecharam, quase 97% foram abatidos em matadouros.
"As estatísticas do governo mostram, sem surpresa, que a maioria dos cães nas explorações durante o período de três anos de desativação gradual foi enviada para abate", afirmou Lee, criticando as autoridades por não encontrarem uma solução para um "resgate, reabilitação ou adoção".