Produção nacional destaca-se pela qualidade, mas enfrenta grandes desafios
A qualidade é um dos grandes trunfos da produção portuguesa, sobretudo nas áreas em que o país não produz em quantidade, e é cada vez mais reconhecida além-fronteiras.
Esta foi uma das ideias em destaque no painel “Produção Nacional: Caminhos para o Futuro”, moderado por Marta Barradas, category specialist no Clube de Produtores Continente, que reuniu diferentes perspetivas sobre os desafios da agricultura portuguesa.
“O consumidor português tem de entender que quando consome português consome muito boa qualidade.” A frase é de Astride Sousa Monteiro, diretora-delegada da Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais, que se referia aos cereais produzidos em Portugal, cada vez mais reconhecidos e procurados internacionalmente graças ao trabalho contínuo de melhoramento genético das sementes.
Segundo Astride Sousa Monteiro, Portugal está longe da autossuficiência na produção de cereais e oleaginosas, com exceção do azeite. Ainda assim, a qualidade representa uma oportunidade. O desafio está em fazer valer esse atributo junto do consumidor final, sendo essencial ganhar escala através de uma maior cooperação.
A evolução dos frutos e hortícolas nacionais foi outro dos temas em debate. Nos últimos 40 anos, o setor transformou-se profundamente, sublinhou Jorge Soares, administrador da CAMPOTEC, uma das empresas do Clube de Produtores do Continente. As exigências da distribuição contribuíram para acelerar a adoção de práticas mais sustentáveis e melhorar a qualidade dos produtos.
A agricultura regenerativa está hoje a ganhar expressão na região, combinando parcelas cultivadas com espaços naturais que protegem a biodiversidade, facilitam o controlo natural de pragas sem recurso a produtos fitofarmacêuticos e otimizam a gestão da água.
Mas as oportunidades coexistem com desafios, sobretudo os decorrentes das alterações climáticas. As temperaturas extremas estão a ter um “forte impacto no regime hídrico”.
Numa região dependente de recursos subterrâneos, o responsável defendeu a necessidade de um plano que assegure a disponibilidade de água de forma permanente e equilibrada, permita controlar cheias e promova a recarga dos aquíferos.
A resposta a estes desafios exige políticas locais e maior cooperação entre os intervenientes do setor, tanto na agricultura como na pecuária. Contudo, muitas das soluções dependem também da União Europeia, num contexto de concorrência à escala global.
“Era fundamental que a União Europeia voltasse a assumir a agricultura como prioritária, mas tenho muitas reservas sobre se isso está a acontecer”, lamentou Idalino Leão, presidente da CONFAGRI.
Entre os desafios europeus, o responsável destacou ainda a renovação geracional, lembrando que, por cada três agricultores, dois deverão reformar-se nos próximos cinco anos. É urgente desmistificar preconceitos e criar condições apelativas para atrair as novas gerações aos setores produtivos, apelou.
A nível nacional, defendeu-se também uma abordagem integrada que permita reduzir as assimetrias entre regiões e garantir que as tecnologias que estão a modernizar a atividade agrícola, e que dependem de conectividade, possam ser utilizadas em todo o país.
O consumidor pode ajudar?
O consumidor pode contribuir para uma produção nacional mais eficiente. Entre as medidas apontadas durante o debate estão o respeito pela sazonalidade, privilegiando os produtos da época, e a utilização de cortes menos nobres da carne. Estas escolhas permitem melhorar o aproveitamento dos animais e reduzir o desperdício alimentar.