Acampada de Lisboa reafirma que não sai do Rossio
Em resposta às propostas da Câmara Municipal de Lisboa.
A Acampada de Lisboa aprovou um texto de resposta às propostas da Câmara Municipal de Lisboa em que reafirma que "não sai do Rossio", assim como os temas a discutir numa reunião com o Presidente da República.
O texto, aprovado pelo grupo de trabalho dedicado à Câmara Municipal de Lisboa (CML), que foi lido na assembleia popular e aplaudido pela generalidade das centenas de participantes, será divulgado como comunicado de imprensa, mas corresponde, genericamente, à resposta que Renata Cambra já tinha dado à autarquia depois da proposta que lhe foi endereçada pelo gabinete de Carlos Moedas.
A Câmara de Lisboa propôs hoje a Renata Cambra que mantenha apenas uma tenda no Rossio aquando do mercado de Natal e que os protestos pela habitação sejam deslocalizados para o Largo de São Domingos, Martim Moniz ou Restauradores.
“Desde quando é que reduzir uma manifestação coletiva a uma única tenda simbólica constitui uma solução de compromisso?”, questiona a Acampada de Lisboa no texto que acusa a autarquia liderada por Carlos Moedas de procurar “construir a narrativa de que tentou dialogar, apresentou alternativas e fez todas as concessões possíveis para garantir o direito à manifestação”.
A acampada de Lisboa acusa a CML de “começar pelo fim”, ao propor a saída para outras praças em vez de tentar compatibilizar o protesto no Rossio com o Mercado de Natal e de “projetar uma imagem de tolerância e respeito pela democracia, apresentando contactos individuais e propostas de deslocação como se fossem resultado de um diálogo com a Acampada”.
“Preocupa-nos que esta narrativa de uma Câmara que 'tudo tentou' possa preparar o terreno político e mediático para justificar uma eventual nova intervenção policial, apresentando-a como inevitável e responsabilizando quem se manifesta. Não aceitaremos que a responsabilidade pela repressão seja transferida para quem exerce o direito à manifestação”, afirma-se no texto.
Adriana Lima, umas das porta-vozes da Acampada de Lisboa, disse ainda aos jornalistas no final da assembleia popular que “este protesto é extremamente válido e extremamente importante” e que a crise na habitação “deve superar qualquer tipo de festival de Natal, quando há tanto espaço na cidade para o poder fazer”.
A Acampada aprovou ainda que quer discutir na reunião com o Presidente da República a reversão da lei do arrendamento, o teto às rendas, o fim da especulação e a perseguição política aos imigrantes que participam nos protestos.
Ainda sem data marcada, foi hoje aprovado, depois de um longo e confuso processo de discussão e votação, que nessa reunião apenas será tratado o tema da habitação.
De fora fica a exigência, proposta por alguns participantes da assembleia popular desta noite, entre os quais Renata Cambra, de que fosse pedido ao Presidente da República, António José Seguro, que exigisse a demissão do Governo, ou apenas do ministro da Administração Interna, Luís Neves, o que, lembraram alguns presentes, o chefe de Estado não tem poder para fazer.
A Acampada de Lisboa acabou por aprovar a exigência de demissão de Luís Neves, tal como já havia feito a Acampada do Porto, deixando essa tomada de posição para uma comunicação em nome próprio e fora da agenda da reunião com Seguro.
No final de cerca de duas horas de votações, a assembleia popular decidiu ainda escrever aos grupos parlamentares a pedir propostas para habitação pública e ao Governo para pedir que desista da revisão da lei do arrendamento.
Sobre as previsões de chuva para os próximos dias, Adriana Lima disse que há conversas diárias sobre logística e que é ainda “muito cedo para dar uma resposta final” sobre a permanência na praça caso a meteorologia se agrave.
Um dos responsáveis da logística tinha referido anteriormente que estão a ser pensadas soluções para a permanência no local das tendas e da restante infraestrutura do protesto, que passam pela colocação de lonas como proteção, por exemplo.
Alguns manifestantes revelaram a intenção de passar a noite no Rossio, havendo dezenas de tendas montadas, em filas ordenadas e com corredores de passagem entre elas, num espaço organizado e limpo frente à estátua de D. Pedro IV.