Secções
Entrar
Paulo Lona Presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público
19.01.2026

Os idiotas úteis e a arte de destruir por dentro

O idiota útil não é necessariamente uma pessoa mal-intencionada. Muitas vezes é apenas vaidoso, ressentido ou ingénuo.

Quando membros de uma instituição se deixam usar por agendas externas, em nome de uma falsa coragem moral, o resultado é sempre o mesmo, isto é, enfraquecem o espaço a que pertencem e abrem portas a quem deles apenas se quer aproveitar.

Em quase todas as organizações há uma figura recorrente, o membro que, a partir de dentro, se dispõe a atacar a própria casa, oferecendo munição a quem, de fora, vive de a tentar destruir. São os chamados idiotas úteis, pessoas que, acreditando agir por princípios, acabam a servir interesses políticos, pessoais ou partidários que não controlam.

O idiota útil não é necessariamente uma pessoa mal-intencionada. Muitas vezes é apenas vaidoso, ressentido ou ingénuo. Precisa de palco, de ser ouvido, de sentir que tem razão contra o sistema. Gosta de se apresentar como o corajoso que “diz o que os outros não têm coragem de dizer”.

A mecânica é simples. Um conflito interno, uma frustração pessoal ou uma ambição não satisfeita transformam-se em “denúncia pública”. O que deveria ser tratado nos órgãos próprios passa a ser despejado na praça pública.

Nesse momento, o idiota útil deixa de ser um crítico construtivo para se tornar uma ferramenta de destruição. O seu discurso é rapidamente absorvido e amplificado por quem tem interesse em fragilizar aquela organização, muitas vezes por motivos estritamente políticos.

O mais inquietante é que o idiota útil raramente percebe o jogo de que faz parte. Convence-se de que é independente, de que fala por convicção e de que está a combater a opacidade. Mas o que realmente faz é desqualificar o espaço interno de debate. Em vez de reforçar a transparência, promove o espetáculo. Em vez de corrigir o que está mal, cria ruído. Em vez de reformar por dentro, alimenta a narrativa de que “é tudo igual” e que “nada vale a pena”.

Hoje, qualquer desentendimento serve de conteúdo. Cada frase é transformada em título, cada ressentimento em manchete. Alguns meios de comunicação e as redes sociais vivem de fontes internas dispostas a falar mal da própria organização — muitas vezes por vanglória ou revanche.

É importante sublinhar que criticar não é trair, pois as instituições precisam de escrutínio, de debate e de vozes que saibam apontar falhas. Mas há uma diferença entre exercer uma crítica leal, feita com sentido de responsabilidade, e servir de megafone a quem apenas quer gerar ruído e destruição. Uma coisa é querer corrigir. Outra, muito diferente, é querer incendiar — especialmente quando se sabe quem vai lucrar com o incêndio.

As próprias organizações têm culpa quando não criam espaços de discussão e de divergência. Onde o debate interno é suprimido, surgem as indiscrições e os recados anónimos. O terreno fértil do idiota útil está precisamente aí, nas estruturas que confundem lealdade com silêncio e divergência com afronta.

Ainda assim, há uma escolha individual que não pode ser ignorada. Cada um sabe quando está a ser instrumentalizado. Cada um sente quando é mais útil aos adversários do que à causa que julga defender.

A maturidade institucional começa precisamente na capacidade de reconhecer o próprio papel e de rejeitar o prazer fácil da ingenuidade mediática. No fim, é verdade que os idiotas são úteis, mas nunca à instituição a que pertencem nem aos princípios que afirmam defender. São úteis apenas àqueles que, nos bastidores, se riem deles enquanto usam as suas palavras como armas.

E, enquanto essa ingenuidade continuar a ser confundida com coragem moral, continuaremos a ver organizações minadas, não pelos seus inimigos declarados, mas pelos seus próprios membros — orgulhosamente convictos de que estão do lado certo da história, precisamente enquanto ajudam a escrevê-la contra si próprios.

Mais crónicas do autor
19 de janeiro de 2026 às 21:43

Os idiotas úteis e a arte de destruir por dentro

O idiota útil não é necessariamente uma pessoa mal-intencionada. Muitas vezes é apenas vaidoso, ressentido ou ingénuo.

13 de janeiro de 2026 às 08:45

Itália em Referendo: A Separação de Carreiras e o Risco de Submeter a Justiça à Política

O modelo italiano foi, durante décadas, considerado um exemplo de equilíbrio entre a autonomia funcional e a independência constitucional dos magistrados, sustentado por um enquadramento normativo robusto que assegurava, por um lado, a liberdade de atuação na condução dos processos e, por outro, uma proteção efetiva contra interferências externas, incluindo de natureza política.

06 de janeiro de 2026 às 07:00

Denúncias anónimas: entre a perceção e o direito

Só é instaurado inquérito se da notícia, ainda que anónima, constarem factos concretos, minimamente delimitados no tempo, no espaço, nos protagonistas e na conduta, que permitam extrair indícios da prática de um crime.

30 de dezembro de 2025 às 07:00

Prioridade adiada: a Justiça à entrada de 2026

Maioria dos problemas que afetam o sistema judicial português transita, praticamente inalterada, de um ano para o outro. Falta de magistrados do Ministério Público e de oficiais de justiça continua a ser uma preocupação central. A esta escassez humana soma‑se a insuficiência de meios materiais e tecnológicos.

23 de dezembro de 2025 às 07:00

De narrativas a factos: os relatórios que desmontam mitos

A análise dos relatórios oficiais, alicerçada em factos e não em perceções, demonstra que o desempenho do Ministério Público continua a pautar‑se por exigência técnica, rigor e eficácia, mesmo perante constrangimentos evidentes de recursos.

Mostrar mais crónicas
Descubra as
Edições do Dia
Publicamos para si, em três periodos distintos do dia, o melhor da atualidade nacional e internacional. Os artigos das Edições do Dia estão ordenados cronologicamente aqui , para que não perca nada do melhor que a SÁBADO prepara para si. Pode também navegar nas edições anteriores, do dia ou da semana.
Boas leituras!