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Paula Cordeiro Especialista em comunicação
02.02.2026

Kristin, ou a tempestade que revela o insustentável

Parece anedótico mas é estrutural, agravado pela cegueira colectiva perante o que está à vista de todos. Sempre existiram tempestades mas hoje são mais frequentes e intensas.

Portugal, é isto. Um país que não chora sobre leite derramado. Deixa-o ferver e derramar mas, prontamente, encontra um pano para o limpar.

São sempre as pessoas. O cidadão comum que arregaça mangas e que, sem vídeos no Tik Tok ou Instagram, acarta paletes para garantir água a quem precisa, ou improvisa ligações elétricas, mesmo sem cabos. Somos um país que se revela quando está enrascado e que se desenrasca perante quem, enrascadamente, tem de tomar decisões. O país da padeira de Aljubarrota e da revolução dos Cravos que, na invisibilidade, faz acontecer. Pragmatismo repleto de empatia: um saber fazer, mesmo sem direção, uma força que nasce da vontade, sem dormir nem comer. Somos assim e, talvez por isso mesmo, quem deveria fazer por nós, espera que sejamos os primeiros a avançar para, inspirados por esse esforço, actuar.

Tecnicamente, há muito a dizer sobre o que está a acontecer. Ausência de políticas públicas que olhem o presente e preparem o futuro. Desinvestimento no essencial. Parece anedótico mas é estrutural, agravado pela cegueira colectiva perante o que está à vista de todos. Sempre existiram tempestades (quem se lembra do aluvião, na Madeira, da Leslie que também afetou a região centro ou, recentemente, do Martinho?…) mas hoje são mais frequentes e intensas. Sabemo-lo há décadas e, há décadas que os decisores políticos nada fazem para o mitigar, prevenir impactos, planear respostas. Para usar a linguagem bélica tantas vezes convocada, falhámos na defesa.

O Governo está, novamente, debaixo de fogo pela sua inépcia.  O Estado, na sua essência, falha. Falha na antecipação, na coordenação, na resposta. Terão desvalorizado a dimensão do que estava a acontecer? Como não havia comunicações, demoraram a perceber? Como funcionam os circuitos entre o Governo, Protecção Civil e entidades de resposta imediata, no terreno? Sabemos que os quartéis de bombeiros ficaram destruídos e que, só depois do essencial assegurado, reorganizaram-se meios e as corporações puderam avançar. Mas porque razão a UE ofereceu ajuda, quase no imediato, e ninguém aceitou?

Aceitar é prudência. Avalia-se, depois, a necessidade. Toda a ajuda é pouca perante uma calamidade. 
E as forças armadas? Porque não foram envolvidas desde o primeiro momento? Quem melhor do que os militares para garantir logística, organização e operação no terreno? E as grandes empresas de construção, milionárias, que operam em Portugal, não poderiam ter sido mobilizadas para fornecer mão de obra, maquinaria e materiais?

Há muito que Portugal deixou de contar com os seus decisores políticos, exímios a prometer, medíocres a executar. O país das comissões e task forces analisa demais, executa de menos. Ao mesmo tempo, com tanta tecnologia para previsão meteorológica, continuamos incapazes de transformar previsão em acção.? Será possível que os instrumentos de previsão meteorológica sejam de tal forma precisos para nos dizer onde, quando e a que horas vai chover, e estejamos todos - decisores e operacionais incluídos - anestesiados? Ou presos à velha atitude nacional de que “só acontece aos outros” e que, se acontecer, logo se vê? 

Falta muita coisa neste país mas falta, sobretudo, antecipação. Planeamento. A todos os níveis. Falta orientar políticas e investimento para o que importa, desenhando respostas ao detalhe, evitando o evitável. Acidentes acontecem. Tempestades podem ter evolução imprevisível ou serem resultado de uma conjugação de factores que não temos com controlar mas convenhamos, há décadas que este país sofre com uma construção deficiente. Casas e prédios construídos com materiais frágeis, soluções baratas, fiscalizações laxistas, resultam em casas que, apesar de pedra e cal, podem ir pelo ar. Portugal era, e é, um país pobre. E a pobreza generalizada verifica-se nos aparentes detalhes que fazem toda a diferença. Na habitação. Na precariedade. Na pobreza energética. Na incapacidade de responder ao desespero de quem perdeu tudo.

É incompreensível como as políticas habitacionais e as regras da construção civil permitem aquilo que todos sabemos, ilegalidades e displicência que põe em causa o conforto e a qualidade de vida de milhares de pessoas. Na cidade e fora dela, não é à toa que os telhados voam. 

É incompreensível que as políticas habitacionais e as regras da construção civil continuem a permitir ilegalidades e displicências que comprometem o conforto, a segurança e a dignidade de milhares de pessoas. Na cidade e fora dela, não é por acaso que os telhados voam. Vivemos em casas onde ouvimos o vizinho respirar, onde uma semana de chuva basta para a humidade subir pelas paredes. Não é preciso ser engenheiro civil para perceber que algo está profundamente errado. Basta olhar para as casas destroçadas.

Estou a chorar sobre leite derramado? Prefiro pensar que estou a observar os factos e lembrar que é tempo do país mudar.

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