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Paula Cordeiro Especialista em comunicação
19.01.2026

Insustentável desinformação e a vitória de nada ou ninguém

A informação é poder. E esse poder deriva do conhecimento que temos sobre os factos

Entre um seguro ou uma (a)ventura… que eleições foram estas? Fomos às urnas. Mas, como foi esta ida às urnas? Em consciência ou pura inconsistência? Informada ou nem por isso?

Desinformação. Ou a falta de informação. Ou a falta de noção do que é, realmente, informação. Desinformação é muito mais do que não estar informado ou não ter acesso à informação. Desinformação é mascarar a ideia de informação, baralhar o conceito, confundir quem procura informação e quer estar informado. O que é isso de estar informado?

A informação é poder. E esse poder deriva do conhecimento que temos sobre os factos. Se a notícia é um texto jornalístico que relata um facto, então o jornalismo é a transformação dos factos em notícia e é nesse processo que está a essência do problema ou antes, na apropriação do conceito de jornalismo, extravasando-o para o domínio da propaganda, conceito que não pode confundir-se com o jornalismo. E chegamos à desinformação porque tudo o que não nos permite conhecer os factos, entender o significado e contexto da informação, construir uma ideia clara e fundamentada que inclua diferentes pontos de vista, não pode ser confundido com informação. Menos ainda, com a ideia de estar informado. E foi o que aconteceu ao longo desta campanha eleitoral. Na verdade, é o que tem vindo a acontecer, todos os dias, em vários domínios do saber mas que se revela particularmente fértil no campo da política, levando-nos a todos, a ignorar, deliberadamente, aquilo que que vulgarmente chamamos de politiquice. Ganha sempre mas, nesta primeira volta, ganhou quem menos esteve envolvido nessa coisa que parece tudo mas é nada e à qual chamamos, espectáculo.

O LabCom, na UBI, laboratório de comunicação da Universidade da Beira Interior, apresentou recentemente um estudo que recolheu informação sobre as contas oficiais dos nove partidos portugueses com representação parlamentar, nas principais plataformas de redes sociais, para analisar a desinformação nas eleições. O estudo, em parceria com a ERC, Entidade Reguladora para a Comunicação Social, revela que, entre os vários temas tratados pelos partidos, a economia teve maior destaque e foram encontrados casos de desinformação. Ainda que estas sejam numa percentagem residual, em relação ao estudo do LabCom, na UBI, para a ERC, sobre as Europeias de 2024, o aumento é de 160% do número de casos, representando um aumento do potencial desagregador do fenómeno, em relação à polarização política, as teorias da conspiração ou discursos de ódio. De acordo com este estudo, o Chega é o partido que mais divulgou conteúdos desinformativos, com uma expressão muito superior ao PS, PSD e CDS, nas diversas redes sociais. São as montagens em vídeo que lideram os exemplos, seguidos de montagens fotográficas para divulgar resultados de inquéritos ou sondagens de intenção de voto. E o que aprendemos, com isto? A desconfiar porque, de facto, entre informação, desinformação e outros casos que servem para nos distrair dos factos ou da realidade, o enviesamento e a distorção da realidade são a nossa realidade.

O estudo estima que mais de seis milhões de utilizadores das redes sociais tenham sido expostos a conteúdos desinformativos e comprova que os conteúdos de desinformação apelam a reacções emocionais, as quais são também potenciadas pelo algoritmo, alimentando um circuito de desinformação que não faz desta, uma sociedade melhor mas, antes, uma insustentável desinformação que pode anular o conceito de sociedade como o conhecemos. Vejamos o que nos espera a (a)ventura eleitoral para um país seguro. 

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