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Paula Cordeiro Especialista em comunicação
16.02.2026

Da insustentável razão das redes sociais

Nós ainda sabemos e talvez consigamos reverter um contexto que se infiltrou de tal forma nas nossas vidas, mudando-as completamente. Se ainda não ouviram falar, Off February é a primeira iniciativa para desligar durante um mês.

Ao longo do tempo, Portugal sofreu vários acidentes e catástrofes naturais. Também ao longo do tempo, as respostas foram quase sempre as mesmas: resolver como se pode, contando com a generosidade de quem ajuda e com a resiliência de quem, pelos seus próprios meios, se reergue. Há intervenção do Estado? Há. Poderia ser melhor e mais estruturada? Sem dúvida.

Num outro domínio, que também depende de intervenção do(s) Estado(s), existe um fenómeno que, não sendo catastrófico no sentido clássico, assume contornos de profunda destruição. A pergunta é simples: a quem interessa que o nosso cérebro se transforme em papa ou que nos tornemos uma espécie domesticada? A cada um de nós, seguramente que não. Mas uma população inerte, acrítica, quase acerebrada é extraordinariamente conveniente. Para governos que deixam de ser escrutinados. Para quem os condiciona e, no limite, governa o mundo.

A conversa acaba sempre no mesmo lugar: o dinheiro. O dinheiro que falta para prevenir uma catástrofe. O dinheiro que falta para a resolver. Voltamos, assim, ao início do texto, agora para falar das iniciativas de vários governos no sentido de regular as redes sociais digitais. Ou, sendo mais rigorosos, de regular o que podem fazer as empresas que as detêm, com a Meta à cabeça.

Em 2010, uma dessas redes sociais apresentou-se ao mundo sob a forma de um drama biográfico que conta a história da criação do Facebook. Mesmo admitindo alguma ficção, nada de de bom pode nascer de algo criado numa noite de bebedeira após uma rejeição amorosa. Face + book é, literalmente, um livro de caras, e foi isso que Mark Zuckerberg criou, para avaliar o rosto das jovens do campus de Harvard. Se já não era popular, a ideia (que viria a revelar-se genial e a mudar o mundo) não o tornou propriamente mais cool junto da comunidade feminina.

Como tantos outros, este é também um filme sobre um homem solitário, movido por poder e riqueza. E, raramente, estas figuras sabem parar. Nós ainda sabemos e talvez consigamos reverter um contexto que se infiltrou de tal forma nas nossas vidas, mudando-as completamente. Se ainda não ouviram falar, Off February é a primeira iniciativa para desligar durante um mês. 

Apagar as redes sociais digitais e outras aplicações que nos consomem tempo em excesso, usando-as apenas através do computador, com o objectivo de reduzir a dependência inconsciente que provocam. Pode-se aderir a qualquer momento, combatendo um problema global de hiperconexão que nos mantém horas seguidas a olhar para um ecrã.

Em paralelo, vários governos preparam medidas para limitar o acesso dos mais novos às redes sociais. Estudos recentes demonstram que reduzir o uso de jogos e destas plataformas junto das crianças tem efeitos positivos, incluindo a diminuição do bullying nos recreios. Os países escandinavos, pioneiros na introdução de tablets no ensino, estão a trazer os livros de volta à sala de aula, depois de perceberem que a motricidade fina se perdia e que a capacidade de leitura, interpretação e criatividade estava, digamos, diferente. E não para melhor.

No país mais digital do mundo, a Coreia do Sul, médicos admitem que estas plataformas estão a provocar um novo fenómeno, a que chamam demência digital: pessoas com inteligência normal começam a perder capacidade de concentração e de memorização e deixam de saber estar sem o telefone. Experiências em escolas mostram um padrão claro: primeiro estranha-se, depois entranha-se. Crianças privadas do uso de telemóveis dizem brincar mais entre si. Pré-adolescentes relatam menor ansiedade social. Adolescentes admitem que, afinal, vivem melhor sem a pressão da presença digital constante.

Perante tudo isto, não é já óbvio que estamos a ser manipulados? E, mais inquietante ainda, que não é por uma boa razão?

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