Brincar com a arma
Ao retirar Nicolás Maduro da presidência venezuelana, Donald Trump não se limitou aplicar uma solução limite a uma eleição que os Estados Unidos, à semelhança da União Europeia, não haviam reconhecido.
Se há coisa que penso ser de subscrição universal é que esta campanha presidencial tem sido cacofónica.
Acresce a tudo isto o aumento exponencial de uma ordem internacional que entrou em mudança irreversível. Ao retirar Nicolás Maduro da presidência venezuelana, Donald Trump não se limitou aplicar uma solução limite a uma eleição que os Estados Unidos, à semelhança da União Europeia, não haviam reconhecido. No seu discurso triunfal, o presidente norte-americano não falou uma vez em reposição da democracia, mas mencionou várias vezes a palavra petróleo.
Seguidamente, foi prevendo a queda do regime cubano, ameaçando a Colômbia e cobiçando a Gronelândia. Neste último caso, além de falarmos de um território sob a soberania de um estado europeu, a Dinamarca, é visado um membro da mesma NATO que os mesmos Estados Unidos têm liderado. Tudo isto corrobora uma linha de outsourcing de países: El Salvador como cadeia, Venezuela como bomba de gasolina, Gronelândia como portagem para russos e chineses.
Se a medida se justifica por razões de direito, era de perguntar porque não foi buscar, por exemplo, Kim Jong-un.
Acresce que, por um lado, temo bem que a factura seja paga pela Ucrânia, Geórgia e Moldávia, restando esperar que a Rússia não retome o projecto de uma linha de comboio que ligue o enclave de Kaliningrado ao restante território russo, algo que implica atravessar território da Lituânia.
Por outro lado, apenas os EUA consigam alternativa no que diz respeito a semi-condutores, veremos se a veemência na defesa de Taiwan permanece inalterada. E Japão e Filipinas, entre outros países da região, podem recear, por seu turno, indesejada adrenalina, se tivermos em conta as recorrentes reivindicações chinesas.
E no meio de tudo esta revisão do sistema de relações internacionais, a ONU encaminha-se a passos largos para ser um remake babilónico do “Clube dos Poetas Mortos”.
Sem mais delongas, esta “salada russa” com condimentos americanos e chineses torna ainda mais necessário o acerto na escolha do próximo presidente, dado que o chefe de estado, como representante máximo do mesmo, tem aprofundadas competência em matéria de política externa. Façamos então o nosso casting entre aqueles que têm uma hipótese de “lutar para o título:
1. António José Seguro - Homem com ar benevolente e fala adocicada, padece de uma contrariedade: buscamos um presidente e não um sacristão. Receio que procure em Belém o protagonismo e a carreira política de que António Costa e Pedro Nuno Santos o apearam com lealdade dúbia. Poderá, por isso, ser inimigo reflexo da estabilidade de que necessitamos.
2. Cotrim de Figueiredo – Bem pode emendar o que quiser, pois ficará sempre a ideia de que ponderou um eventual voto em Ventura, na segunda volta. Homem que trata a moda por tu e que, certamente, será senhor de um charme perfumado, tem o obstáculo de a presidência não ser um desfile de moda ou uma aplicação do estilo “Tinder de Estado”. Espremido diz pouco que o habilite para o lugar.
3. Gouveia e Melo – Irascível e inapropriado. Repreendeu publicamente uma tripulação da Marinha e fez insinuações inaceitáveis sobre Marques Mendes, não tendo exibido prova de qualquer ilegalidade. Homem de sorriso satírico persiste em hostilizar os políticos, sem reconhecer que a presidência, não sendo partidária, é política. Como já disse, cada vez mais se assemelha a uma versão fardada de Ventura. Agradeço sinceramente a ajuda que nos deu na vacinação, mas o facto de eu saber mudar uma lâmpada não me qualifica como electricista. Logo…
4. André Ventura – Um homem que divide é inapto para um cargo que deve unir. Busca mais notoriedade, mas, sendo exímio na forma, é oco de conteúdo e roça a ignorância. Ao confundir a Bürgerfest com um festival de hambúrgueres revela a preguiça dos que não investigam, a ignorância dos que não conhecem o mundo e avalia os demais com a superficialidade dos populistas; se tivesse sentido de estado, Ventura veria que um presidente responsável jamais pediria permissão ao parlamento para ir a semelhante evento. Se Ventura fosse presidente, as visitas oficiais seriam uma animação: não iria ao Butão por não apreciar retrosarias e apareceria nas Bermudas em calções e no Panamá de chapéu. Convidado, recusaria ir ao festival Kalorama, por lhe parecer disparatado visitar uma loja de aquecedores em pleno Verão.
Ironias à parte, só Luís Marques Mendes dá garantias de não acrescentar instabilidade interna ao vendaval que virá de fora, dado que entende que as reformas não se fazem sem legislaturas completas, prezando a estabilidade. Tem experiência de governo aliada a um percurso profissional, algo que o qualifica para presidir.
Sendo o voto uma arma, não é um brinquedo. Votar por inclinação passageira num candidato na primeira volta, prometendo o voto em Marques Mendes na segunda, descura um dado essencial: ninguém tem a passagem garantida, sendo avisado votar à primeira no candidato com quem queremos celebrar a vitória final.
O Bom, o Mau e o Capitão
Os meus “fregueses” preferidos, além de uma berraria insana (que traduz, salvo melhor opinião, a ausência de algo inteligente para dizerem), acusam-me de fazer stand-up comedy. Ora, desprovido que sou do muito talento que requer a actividade circense, fico-me pela acusação de fazer comédia.
12 garrafas depois
Apesar da demagogia de carregar garrafas de água e de haver dúvidas sobre a genuinidade da quantidade de precipitação que aparece num dos vídeos em que Ventura se “transveste” de Super Homem, Seguro venceu em toda as zonas atingidas pelas tormentas.
Sem anos
Numa altura em que se avolumam evidências dos riscos que trazem os populismos de direita, dou por mim a constatar que se cumpre este ano o centenário do golpe de 28 de Maio de 1926, que viria a pôr fim à I República e a abrir caminho ao que seria o Estado Novo.
Brincar com a arma
Ao retirar Nicolás Maduro da presidência venezuelana, Donald Trump não se limitou aplicar uma solução limite a uma eleição que os Estados Unidos, à semelhança da União Europeia, não haviam reconhecido.
Horóscopo 2026 – O que não está escrito nas estrelas
O Almirante Gouveia e Melo adoptando um estilo quezilento e anti-político deixou pelo menos uma coisa bem clara: não tem jeitinho algum para a função a que se candidata. Afogar-se-á no aquário das presidenciais.
Edições do Dia
Boas leituras!