A curiosidade matou uma hora
Pacheco Pereira teve, por breves instantes, argumentação factual, mas sobretudo conseguiu fazer prova de vida, mantendo a aura intacta para as tertúlias e conferências. Já Ventura voltou a incendiar os ânimos das suas hostes nesse combate contra tudo o que não seja slogan do Chega.
Reconhecendo humildemente que de gato tenho pouco, sinto que ver, há sensivelmente uma semana, o debate entre Pacheco Pereira e André Ventura (algo que fiz por curiosidade) não matou o que de felino nunca tive, mas fez-me lamentar uma hora de vida que nem o fisco reembolsa…
Vamos por partes: em primeiro lugar, não vi nem factos novos (incluindo nesta macedónia mesmo os dados deturpados), nem uma abordagem inovadora. Bem ao invés, reforcei a sensação de que falta uma leitura verdadeiramente objectiva da História de Portugal do século XX. Ironicamente, creio que foi Ventura quem mais se aproximou desta ideia pelo simples facto de a mencionar. Figuras como o seu opositor tendem a falar como se a sua visão, regra geral, enviesada fosse a verdade revelada.
Em segundo lugar, mais do que contar presos políticos – sendo que, evidentemente, um só caso já seria de lamentar – teria sido importante explicar claramente de que se trata e transpor o conceito para os dias de hoje para o explicar aos muitos que já não viveram esses tempos e que sentem que o que vêem no ecrã “fica longe” no tempo ou no espaço, sobretudo num tempo em que os estudos de opinião mostram que há cada vez mais cidadãos dispostos a trocar liberdade por segurança. Saberão os jovens que usufruem de total liberdade nos seus comentários em incontáveis páginas e nas redes sociais que, mais do que no passado, em alguns “futuros” que já se anunciam, é essa liberdade que os pode levar à prisão e a perder direitos fundamentais e benefícios sociais?! Era sobre isto que, pelo menos, Pacheco Pereira deveria ter perorado mais demoradamente.
Em terceiro lugar, creio que cumpre opinar sobre os motivos que levaram ao desafio (por Pacheco Pereira) e à respectiva aceitação (por Ventura). Sublinhando que se trata de um exercício puramente especulativo, o repto de Pacheco Pereira poderá ter sido motivado por duas ordens de razão: por um lado, a ideia de que arrasaria André Ventura com a verdade dos factos, desmontando a sua lengalenga “patrioteira”. A ideia era boa e o alvo estava bem definido; na linha de outros líderes de partidos e movimentos populistas, Ventura manipula os dados para configurar um resultado catastrófico que estribe o seu perfil messiânico (tendência propagandística que encontra no presidente norte-americano o seu guru), cavalgando a onda de pós-verdade (a tal mentira repetida à exaustão…).
No entanto, creio que a soberba estratégica de Pacheco Pereira (o famoso “está no papo”) lhe retirou eficácia táctica. Aceitar um debate histórico com um nacionalista da estirpe populista é um convite para jantar no Titanic. Resisto deliberadamente a usar a analogia corrente que envolve os conceitos de luta e de lama…
No caso de André Ventura o motivo parece diáfano: nunca perderia o que quer que fosse – creio que acertou – e podia ainda passar uma imagem de Estado, emendando um pouco a tradicional pose de estrado – entendo que aqui não logrou o objectivo, já que resvalou para a demagogia gritada do costume, a dado ponto. No fundo, os votantes “ferrenhos” de Ventura atingem o êxtase cada vez que o que os há de guiar à demagogia prometida acusa, enxovalha e culpa todos os outros por todos os males, assim disfarçando a impreparação para os assuntos de Estado e a falta de cultura (desde logo, democrática) que perpassa em cada um dos seus “sermões”.
E então, em que ficamos?... Creio que ambos ganharam, num combate decido por pontos, já que não houve “K.O.”. Pacheco Pereira teve, por breves instantes, argumentação factual, mas sobretudo conseguiu fazer prova de vida, mantendo a aura intacta para as tertúlias e conferências.
Já Ventura voltou a incendiar os ânimos das suas hostes nesse combate contra tudo o que não seja slogan do Chega. Mais ainda, creio que foi o contendor que conseguiu defender o seu ponto de vista durante mais tempo e com mais eficácia.
Num encontro de egos, levitaram ambos…
A curiosidade matou uma hora
Pacheco Pereira teve, por breves instantes, argumentação factual, mas sobretudo conseguiu fazer prova de vida, mantendo a aura intacta para as tertúlias e conferências. Já Ventura voltou a incendiar os ânimos das suas hostes nesse combate contra tudo o que não seja slogan do Chega.
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Baralho o vulgar e o intelectual
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