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Alexandre Monteiro Profiler
02.08.2026

A técnica para decifrar mentiras mais fácil de aplicar no dia a dia

Veja a próxima entrevista política com o som ligado e com uma forma de observar diferente, não avalie os argumentos, faça só uma coisa, depois de cada pergunta, confirme se a pessoa respondeu à pergunta e vai descobrir, com algum desconforto, que a maioria das perguntas fica por responder e que ninguém tem esta perceção.

Há uma técnica de interrogatório que não exige treino, equipamento, nem talento especial, basta ter atenção se sequer chegaram a responder.

"Resposta, não resposta"

Veja a próxima entrevista política com o som ligado e com uma forma de observar diferente, não avalie os argumentos, faça só uma coisa, depois de cada pergunta, confirme se a pessoa respondeu à pergunta e vai descobrir, com algum desconforto, que a maioria das perguntas fica por responder e que ninguém tem esta perceção.

É esta a técnica a que as agências de informação chamam de “resposta não resposta”, e é das melhores pistas para detetar quem não está a ser sincero. A sua virtude é não exigir nada, nem polígrafo, nem microexpressões, é apenas ouvir uma coisa diferente da habitual.

A lógica assenta em fatos simples, mentir é lento, a verdade está arrumada na memória e sai sozinha, a mentira tem de ser construída em tempo real, e esta construção tem etapas reunir a informação disponível, fabricar uma versão, verificar se ela colide com o resto da vida da pessoa, escolher as palavras e o tom que a tornem credível, e ainda antecipar como a defender se for questionado e tudo isto consome tempo e energia. Como o cérebro sabe que a demora denuncia, arranja forma de a disfarçar normalmente enchendo o espaço com qualquer coisa que soe a resposta.

São seis as formas de o fazer, e depois de as conhecer é impossível voltar a não as ver.

A primeira é a ausência do sim ou do não. As respostas verdadeiras tendem a começar por sim ou não, quando nenhum aparece, há distanciamento o inconsciente evita comprometer-se, mas o consciente tenta compensar com palavras que soam a compromisso sem o serem. "És de confiança?" "Sempre." "Há alguma coisa que me deva preocupar?" "Nunca.". Nenhuma destas respostas é um sim ou um não.

A segunda é o silêncio e os enchimentos. Perguntas simples não têm carga cognitiva, a resposta é imediata ou não é. Se alguém precisa de tempo para responder a algo que não exige pensamento, a pergunta certa é, sobre o que está esta pessoa a pensar? E como o silêncio é desconfortável e denunciador, preenchemo-lo com sons o "hummm", o "então...", a repetição da pergunta em voz alta, não são tiques, é tempo comprado.

A terceira é responder a outra pergunta. É a mais eficaz de todas, porque o cérebro regista que houve resposta e simplesmente desliga a atenção. "Foste à loja de bebidas?" "Eu nem bebo." Isto não é uma resposta, é um argumento sobre o carácter apresentado no lugar de uma resposta e funciona quase sempre.

A quarta é responder com perguntas. "Quê? Porque estás a perguntar-me isso?" Serve dois propósitos, ganha segundos e transfere o desconforto para quem perguntou.

A quinta é devolver a pergunta a versão agressiva da anterior. "O que correu mal com a encomenda?" "O que correu mal com a encomenda?" Ou, melhor ainda, a inversão da suspeita, "Não terás sido tu?"

E a sexta, a minha preferida, é a declaração de currículo, a pessoa responde com um inventário das suas próprias virtudes, sou honesto, sou respeitado, faço voluntariado, isto é ridículo, sabe você com quem está a falar? Nada disto responde ao que foi perguntado, é uma defesa de carácter apresentada como álibi e, curiosamente, quanto mais impressionante for o currículo invocado, mais se deve suspeitar da omissão que procura esconder.

Um pormenor que os interrogadores adoram, os pronomes pessoais ou possessivos, quem diz a verdade apropria-se do que é dele, "a minha casa", "eu fiz", "nós estávamos". Quem se distancia do que descreve tende a apagá-los, porque o inconsciente detesta assinar uma mentira. Descrições sem dono são descrições para fugir da responsabilidade.

A utilidade maior desta ferramenta talvez não esteja sequer em apanhar os outros. Está em reparar em nós próprios. Conte, durante uma semana, quantas vezes responde com um currículo, devolve uma pergunta ou enche um silêncio com "hummm". A resposta a essa contagem diz-lhe mais sobre si do que qualquer teste de personalidade porque as perguntas que evitamos responder são, quase sempre, exatamente as que mais precisávamos de responder.

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