Povos indígenas no Brasil ameaçados de invasão caso Bolsonaro vença as eleições
Agricultores e pecuaristas querem apropriar-se do território das comunidades indígenas, revelam áudios enviados para as comunidades.
Várias comunidades de povos indígenas relatam ter recebido ameaças de invasão dos seus terrenos, caso Flávio Bolsonaro ganhe as eleições presidenciais a 25 de outubro, quando será disputada a segunda volta. Agricultores e pecuaristas terão enviado áudios que indiciam a transgressão, com o objetivo de construir fazendas próprias dentro do território indígena. Esperam que, caso eleito, Flávio Bolsonaro retire a propriedade dos povos indígenas e a passe para os fazendeiros.
O jornal Folha de São Paulo reuniu vários desses relatos, que também já chegaram às forças de segurança e autoridades do Governo Federal. Oito áudios ouvidos pelo jornal brasileiro revelam ameaças de invasão ao local onde vivem os parakanãs, a 25 de outubro, e quem enviou os áudios cita Flávio Bolsonaro como autoridade moral. O conteúdo integral dos áudios não será divulgado por razões de segurança, refere o jornal brasileiro.
Os moradores também relatam uma maior circulação de motas e camionetes e que os agricultores terão comprado materiais para realizar a invasão. As mensagens que receberam sugerem que os povos indígenas evitem circular em áreas onde pecuaristas estão a preparar a invasão.
As autoridades estão a investigar as ameaças, bem como uma possível ligação a uma vaga de incêndios florestais em territórios indígenas - em julho, registaram-se 41 incêndios; em agosto, 626; e, em setembro, 1.007, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE).
Muitos desses incêndios aconteceram no Pará, na terra indígena Apyterewa, que tem um longo histórico de violência. Durante o mandato de Jair Bolsonaro, pai de Flávio Bolsonaro, a zona foi alvo de desmatamento e pecuaristas conseguiram mesmo construir uma pequena cidade dentro da área protegida, à qual deram o nome de Vila Renascer.
As ameaças foram tema de discussão na última reunião do Comité Interministerial de Desintrusão das Terras Indígenas do Governo Lula, na quinta-feira. "Durante a reunião, o Comité deliberou pelo reforço das ações de segurança, incluindo o aumento do efetivo mobilizado, a fim de intensificar a manutenção da desintrusão e prevenir novas ocupações ilegais", avançou o Ministério dos Povos Indígenas, em comunicado.
Contactado pela Folha de São Paulo, Flávio Bolsonaro não prestou declarações.
De acordo com dados do INPE, o desmatamento de Apyterewa era de 18,9 quilómetros quadrados em 2018. Durante o primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, o valor passou para 85,3 quilómetros quadrados e atingiu o seu pico em 2022, com 102,2 quilómetros quadrados. Em 2023, já com governo de Lula da Silva, caiu para 20,6 quilómetros quadrados.
Com Diogo Barreto