As alterações climáticas são uma realidade com impacto direto e crescente na saúde. Esse foi o ponto de partida da Conferência sobre Saúde e Alterações Climáticas, promovida pela Multicare, em Lisboa, onde especialistas de diversas áreas apontaram para a mudança em curso no perfil das doenças e para a necessidade de investir em prevenção e planeamento.
Desta forma, a necessidade de atuar a montante do aparecimento das doenças foi uma das ideias centrais do evento. Para Adalberto Campos Fernandes, ex-ministro da Saúde, “o sistema de saúde não resistirá se não atuarmos a montante dos problemas”, defendendo políticas públicas integradas e não apenas o reforço da resposta hospitalar.
“A saúde não é uma política setorial. Deve estar presente em todas as políticas”, sublinhou.
Riscos aumentam
Do ponto de vista científico, é claro que os riscos estão a aumentar e a diversificar-se. Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo, alertou que “as mudanças climáticas, como um todo, terão um enorme impacto sobre a saúde”, destacando fenómenos como as ondas de calor, já responsáveis por dezenas de milhares de mortes na Europa.
Ao mesmo tempo, surgem novas ameaças epidemiológicas. “O aquecimento global vai levar a uma expansão e a uma disseminação dos mosquitos”, frisou o infecciologista brasileiro Celso Granato, diretor clínico do Grupo Fleury. Essa expansão vai aumentar o risco de doenças tropicais como dengue ou chikungunya em países de clima temperado, como Portugal.
Na próxima pandemia ou catástrofe vamos ter uma resposta muito reativa e pouco planeada.
Luís Campos, PRESIDENTE DO CONSELHO
PORTUGUÊS PARA A SAÚDE
E AMBIENTE
Problemas agravam-se
Em paralelo, agravam-se problemas já existentes. De acordo com Cristina Bárbara, diretora do Programa para a Área das Doenças Respiratórias da Direção-Geral da Saúde, “está a ser registado um aumento das doenças respiratórias associado às alterações climáticas”, resultado da poluição, das temperaturas e de fenómenos ambientais extremos.
O impacto é particularmente severo nas populações mais vulneráveis, como idosos e doentes crónicos, mais expostos a condições extremas e com habitações inadequadas.
Também o risco de doenças cardiovasculares está a aumentar. Segundo Victor Gil, diretor do Centro de Risco Cardiovascular e Trombose do Hospital da Luz, “o calor também é responsável por uma mortalidade cardiovascular aumentada”. O especialista defendeu medidas de prevenção que, sendo simples, devem ser mais adotadas pela população e mais aplicadas pelos profissionais.
Sistema não está preparado
Para Luís Campos, presidente do Conselho Português para a Saúde e Ambiente, o desafio das alterações climáticas na saúde passa também pela melhoria da capacidade de resposta do sistema. Com base nas condições atuais, “na próxima pandemia ou catástrofe climática vamos ter uma resposta muito reativa e pouco planeada”, alertou, defendendo maior preparação e articulação entre setores.
Embora com diferentes perspetivas, os especialistas que falaram à margem da conferência convergem no diagnóstico: os impactos das alterações climáticas já são evidentes, tendem a intensificar-se e exigem uma resposta mais preventiva e integrada. A literacia em saúde, a adaptação das infraestruturas e uma melhor coordenação surgem como prioridades.
Num contexto de mudança acelerada, os sistemas de saúde enfrentam um desafio claro: mitigar riscos num mundo em transformação.