José Santos, diretor clínico da Multicare, alerta que o clima já está a redesenhar o mapa da saúde, agravando doenças crónicas e introduzindo novos riscos epidemiológicos. Esta transformação está a obrigar o setor a reforçar a prevenção, a antecipação do risco e a adaptação dos modelos de acompanhamento clínico.
A Conferência Saúde e Alterações Climáticas mostrou que os fenómenos do Clima estão a alterar o perfil das doenças, com o aparecimento de mais problemas respiratórios, cardiovasculares e infecciosos. Do ponto de vista da Multicare, como é que esta nova realidade está a mudar a forma de encarar a prevenção e os cuidados de Saúde?
A prevenção está no centro da nossa estratégia desde 2009, como mostra o desenvolvimento de iniciativas pioneiras como o Programa de Rastreios, a Medicina Online e o Multicare Vitality. Sabemos que as alterações climáticas estão a transformar o perfil das doenças, introduzindo o ambiente como uma variável dinâmica e transversal. Esta mudança obriga-nos a repensar os modelos de rastreio e de acompanhamento clínico, a reforçar a atenção às populações mais vulneráveis e a apostar mais na antecipação do risco. Sabemos que não podemos esperar pela doença — é fundamental agir antes. Hoje, para nós, a prevenção deixou de ser apenas uma opção estratégica e passou a ser uma verdadeira necessidade clínica.
Na Conferência, vários especialistas alertaram para o impacto das temperaturas extremas, da poluição do ar e da expansão de vetores de transmissão, como os mosquitos. Neste contexto, que riscos para a Saúde da população portuguesa se tornarão mais relevantes nos próximos anos?
Os dados apontam para três grandes preocupações: o impacto imediato das ondas de calor na saúde cardiovascular e respiratória, em que já se regista mortalidade excessiva em Portugal; a expansão de doenças infecciosas transmitidas por vetores, como a dengue ou o vírus do Nilo Ocidental; e um risco muitas vezes subestimado — o impacto na saúde mental após fenómenos extremos. Mas preocupa-nos também um efeito menos visível: a exposição continuada a fatores ambientais que agrava doenças crónicas, muitas vezes sem ser corretamente atribuída, o que constitui um desafio clínico ainda pouco reconhecido.
A prevenção deixou de ser uma opção estratégica — tornou-se uma necessidade clínica.
José Santos, Diretor Clínico da Multicare
Um dos temas recorrentes na Conferência foi a necessidade de antecipar e preparar melhor a resposta do Sistema de Saúde. Que papel podem desenpenhar as seguradoras neste esforço de adaptação às alterações climáticas?
As seguradoras têm um papel que vai muito além da cobertura de risco. Têm dados, têm uma rede de prestadores e a capacidade de chegar a um número muito significativo de pessoas, de forma sistemática e continuada. Isso coloca-nos numa posição privilegiada para agir, e não apenas para reagir. Do ponto de vista clínico, a nossa capacidade para organizar rastreios dirigidos, para monitorizar à distância doentes crónicos em períodos de risco elevado e para mobilizar rapidamente teleconsultas em situações de emergência ambiental é diferenciadora. Já o fizemos durante as recentes tempestades, disponibilizando consultas online gratuitas a toda a população das zonas afetadas. É esse tipo de resposta ágil e clinicamente fundamentada que queremos continuar a desenvolver.
A melhoria da literacia em Saúde foi também apontada como um desafio importante, com cerca de metade da população portuguesa a apresentar níveis baixos de literacia. Que iniciativas podem ajudar a melhorar a informação e a preparação das pessoas para estes novos riscos?
Os dados sobre literacia em saúde em Portugal são preocupantes, e a dimensão climática vem agravar o problema. Precisamos de ajudar as pessoas a reconhecer sinais de risco em situações como ondas de calor, picadas de mosquito ou poluição excessiva. Neste contexto, acreditamos menos em campanhas genéricas e mais em informação contextualizada, dirigida a quem está em risco e no momento certo.
A tecnologia é um aliado essencial: na Multicare, através de plataformas como a Medicina Online e a app Multicare Vitality, conseguimos chegar às pessoas com informação útil quando ela é mais necessária. A literacia constrói-se com proximidade, consistência e qualidade da informação.
A vigilância epidemiológica do futuro terá de ser uma responsabilidade partilhada entre público e privados.
JOSÉ SANTOS
DIRETOR CLÍNICO
DA MULTICARE
As alterações climáticas tendem a aumentar a pressão sobre os Sistemas de Saúde. Como é que o setor segurador pode contribuir para uma abordagem mais preventiva e sustentável da Saúde?
A sustentabilidade do sistema de saúde depende de deslocarmos o foco da doença para a prevenção e para a deteção precoce. Para nós, isso significa investir mais no acompanhamento proativo de doentes crónicos, em rastreios dirigidos e na telemonitorização, atuando antes do agravamento da doença. Na Multicare, já ultrapassámos um milhão de consultas na nossa plataforma de medicina online, o que mostra que as pessoas estão disponíveis para modelos de cuidados mais acessíveis e contínuos. O desafio é reforçar esta abordagem, tornando-a cada vez mais preventiva e menos reativa.
A Conferência reuniu especialistas de áreas muito diferentes — Ciência, Medicina, Ambiente e Políticas Públicas. Que conclusões retira e que balanço faz deste debate sobre o futuro da Saúde em Portugal?
O balanço é muito positivo, porque a conferência conseguiu reunir especialistas de diferentes áreas e promover uma discussão rigorosa e útil sobre um problema que exige respostas integradas. A principal conclusão, para mim, é a urgência da questão: não estamos a falar de um risco futuro, mas de um impacto já presente na saúde, nos serviços e na qualidade de vida. A janela para agir de forma preventiva existe — mas não estará aberta para sempre.
Que oportunidades existem para reforçar a colaboração entre seguradoras, setor público, academia e organizações científicas no acompanhamento do impacto das alterações climáticas na Saúde?
As oportunidades são reais e ainda pouco exploradas. A colaboração mais necessária é a que cruza dados de saúde com dados ambientais, permitindo antecipar riscos e atuar com maior precisão. Estamos a desenvolver capacidades nesse sentido, em articulação com parceiros e com o Impact Center for Climate Change do Grupo Fidelidade. Mas é essencial uma maior partilha de dados e colaboração com o setor público. A vigilância epidemiológica do futuro terá de ser uma responsabilidade partilhada entre público e privados.
A Multicare tem vindo a apostar em iniciativas de debate e de promoção de conhecimento nesta área. Que papel pretende a seguradora assumir no futuro, na promoção de uma abordagem mais integrada entre Saúde, prevenção e sustentabilidade?
Queremos ser um parceiro ativo na adaptação de Portugal às alterações climáticas, investindo em conhecimento, prevenção e colaboração com a comunidade científica. O objetivo é claro: antecipar riscos, proteger as populações mais vulneráveis e garantir acesso rápido e adequado aos cuidados, quando necessário. Esta conferência foi um ponto de partida importante, mas o essencial é transformar este conhecimento em respostas concretas e continuadas.