O mercado português de formação executiva está a crescer, mas sobretudo a
mudar. A procura tornou-se mais diversificada, especializada e exigente,
abrangendo não apenas executivos seniores, mas também profissionais de middle
management, empreendedores e equipas de suporte. Em paralelo, aumenta a
procura das empresas por formação customizada. “É um mercado em crescimento,
mas sobretudo em transformação. Está mais diversificado, mais especializado e
mais exigente”, explica Marta Lopes Ferreira, coordenadora executiva da
Portucalense Business School.
Esta evolução acontece num mercado de trabalho em que algumas competências
são cada vez mais difíceis de encontrar. Segundo o estudo Global Talent
Shortage, do ManpowerGroup, 82% dos empregadores em Portugal têm dificuldade em
encontrar os profissionais de que necessitam, acima da média global de 72%.
Para Alexandra Moura, specialized recruitment delivery manager da Experis,
a escassez de competências está a aumentar a competitividade pelo talento e a
levar as organizações a reforçar aquilo que oferecem aos profissionais. De
acordo com esta responsável, “mais do que uma questão exclusivamente salarial,
estamos a assistir a uma evolução da valorização do talento. As empresas
procuram combinar remuneração competitiva com oportunidades de desenvolvimento,
maior flexibilidade e projetos profissionais mais atrativos.”
Impacto setorial
A formação passa, assim, a integrar uma proposta de valor mais abrangente.
Para as empresas, pode contribuir para desenvolver competências que são
difíceis de encontrar no mercado. Para os profissionais, pode reforçar a
capacidade de responder a novas responsabilidades e necessidades do negócio.
Os dados do Guia Hays 2026 mostram também a dimensão do desafio. Entre as
organizações analisadas, 58% reportam uma escassez moderada de competências e
5% uma escassez extrema. Entre as principais causas estão os salários e
benefícios pouco atrativos, referidos por 35% dos empregadores, e a elevada
concorrência por talento entre setores, apontada por 33%. A resposta, dizem,
passa por diferentes dimensões. Nos últimos 12 meses, 47% das empresas concederam
aumentos salariais entre 2% e 5% e, para os próximos 12 meses, 56% antecipam
aumentos dentro desse intervalo. Ao mesmo tempo, ganham importância os
benefícios, a flexibilidade, o desenvolvimento de carreira e a formação. “Esta
realidade está a obrigar as organizações a rever não apenas os salários, mas
toda a proposta de valor apresentada aos profissionais”, afirma Sandrine
Veríssimo, regional director da Hays.
A valorização das competências não é, contudo, igual em todas as áreas. O
impacto tende a ser mais evidente nos setores onde existe maior transformação e
dificuldade em encontrar profissionais qualificados, como tecnologia,
engenharia, ciências da vida e indústria farmacêutica, além de áreas como
análise de dados, cibersegurança, vendas e transformação digital.
Entre as competências específicas mais procuradas estão a inteligência
artificial e a aprendizagem automática, referidas por 33% dos empregadores, a
estratégia de vendas e geração de leads, por 26%, a análise e ciência de
dados, por 25%, e a engenharia, por 21%. “Uma formação especializada pode
reforçar a posição do profissional no mercado, sobretudo quando complementa
experiência relevante e responde a uma necessidade concreta das empresas”,
explica Sandrine Veríssimo, que deixa, contudo, uma ressalva: “Ainda assim, não
existe uma relação automática entre formação e salário: a valorização depende
da escassez da competência, da responsabilidade assumida e dos resultados
alcançados.”
É precisamente essa ligação ao negócio que pode determinar o retorno de uma
formação. Alexandra Moura defende que o retorno do investimento em
qualificações é mais expressivo em setores nos quais se verifica uma combinação
de três fatores: “Acentuada escassez de talento ou de determinadas competências
cruciais à função; carência de uma elevada robustez técnica; e, em terceiro
lugar, onde o impacto dessa capacitação na tomada de decisões gera resultados.”
As organizações estão a ser obrigadas a rever não apenas os salários, mas toda a proposta de valor apresentada aos profissionais.
Sandrine Veríssmo, regional director da Hays